quinta-feira, 18 de outubro de 2012

pattern

Ela atravessa a porta de um jeito que faz com que as pessoas inevitavelmente olhem pra ela – e não é como se ela já não desse motivos o suficiente pras pessoas olharem, ou o que você me diz daqueles cabelos, e piercings e tatuagens? De qualquer forma, ela atravessa a porta com o queixo meio erguido, como se desafiasse qualquer pessoa na sala a dizer qualquer coisa pra ela – fosse essa coisa boa ou ruim.

Ela escolhe uma cadeira, uma bem no meio do cômodo, e se acomoda. Joga a mochila no chão, mas não sem antes retirar dela o seu novo iPod vermelho, e selecionar uma música e começar a ouvir, fechando os olhos e ignorando quem estivesse perto.

No começo é sempre assim. Ela trata todo mundo de um jeito meio indiferente, meio blasé. Sua citação favorita é “estou cercado de idiotas”, e mesmo não sendo uma fã particular do Scar ou de Rei Leão, ela admite que essa frase diz muito sobre si mesma. Dali a uma semana ela está lançando sorrisinhos para as outras pessoas, em parte porque ela precisa socializar e não quer ficar sozinha, em parte porque algumas pessoas até que são legais de verdade.

E a semana realmente passa, e os sorrisinhos realmente aparecem, e depois de alguns intervalos ela até aceita um cigarro, ou dois, e deixa o assunto correr com aquele carinha que se aproximou dela perguntando onde foi que ela fez aquela tatuagem perto da escápula. Escápula! O cara sabe o nome daquele bendito osso, e sabe onde ele fica! Talvez ele não seja só um idiota com cara de skatista maconheiro, talvez ele seja até que legal, e então ela resolve dar uma chance e descobre que não só o cara é engraçado como na verdade ele faz medicina, e está ali só porque fotografia sempre foi um hobby que ele queria levar um pouquinho mais adiante.

O curso de fotografia dura só uns seis meses, mas o carinha meio que ganhou um nome, e recebeu alguns upgrades nesse meio tempo, saindo de mero estranho pra melhor amigo em dois meses, e de melhor amigo pra namorado em mais quatro. As coisas com ela podem ser meio rápidas, ela pode ficar confusa com coisas meio básicas, e no fim do dia pode fazer declarações de amor pra você só porque ela é intensa demais assim – o que não é problema nenhum, se você está disposto a arcar com as consequências dessa intensidade, mas quem disse que ela realmente está?

O carinha e ela vivem alguns meses de puro romance e história de amor, e porque ela é intensa ele se acha no direito de fazer planos e sonhar tão alto quanto ela sonhava lá atrás, mas mal sabe ele que toda essa história de intensidade é só pra ela, e que ela se assusta feito um ratinho quando isso vem de outra pessoa.

Seis meses depois ela está cansada do carinha porque ele já sabe como vai ser o casamento dele com ela, e ela se sente mal porque acha que não vai conseguir fazer com que ele pense diferente, ou sonhe diferente. Aliás, ela faz muito isso. Ela reclama das roupas dele, ela reclama do perfume que ele está usando, reclama do corte de cabelo, e reclama até do carro que ele dirige! Ela sugere que isso mude, que aquilo mude, e no fim desses meses ele acaba se tornando a pessoa dentro das expectativas dela que, de alguma forma, ainda não consegue atender as expectativas dela. E é por causa disso que ela começa a pensar em terminar, porque ainda existe alguma coisa que ela não consegue pedir pra ele mudar – e não, não é porque ele está falando sobre o casamento deles.

Ela quer terminar, ela sabe que quer terminar, ela sabe que não pode continuar, mas decide esperar por mais algum tempo contando que o carinha perceba todas as entrelinhas do relacionamento dos dois e descubra sozinho onde está dando errado e por que. Só que o cara é estudante de medicina e gosta de tirar fotos, ele nunca foi muito de enigmas, e não acha que é brincando de Decifra-Me Ou Te Devoro que as coisas se resolvem. Porque não é mesmo. Mas não é assim que ela pensa. O que ela pensa é ele já está com ela há tempo o suficiente pra entender que é assim que ela funciona, e ele deveria respeitar isso e tentar se colocar no lugar dela, então custava?

Aquela linda história de amor termina com ela dizendo todas as coisas que estavam erradas, listando todos os motivos pelos quais faz sentido eles acabarem. E o carinha da medicina não previu isso, ou ele até previu, mas imaginou que fosse só uma fase. Daí ele fica lá, parado, se perguntando como e porque as coisas chegaram naquele ponto. E se você ouvir a história dela, é claro que ela tem razão, é claro que tudo faz sentido, exceto o fato de que ela nunca falou sobre as coisas que incomodavam antes que elas se tornassem insuportáveis demais e então precisasse terminar por isso.

As coisas que você vai ouvir sobre isso, a versão dela pra como tudo aconteceu, vai girar em torno do quanto ela ficou sufocada por ele e pelos planos dele e pela atenção dele, ou então do quanto ela ficou frustrada pela inércia dele, pela ausência dele, pela falta de diálogo no relacionamento. Você vai acenar a cabeça, concordando com cada palavra que ela enfaticamente disser, porque no fim das contas tudo isso faz mesmo sentido, e vai pensar que talvez tenha mesmo sido culpa deles, e que, coitada, ela também é só uma vítima no meio disso tudo, e que eles simplesmente não eram pra ser, acontece, pelo menos eles podem ser amigos agora, não é? Só que não.

Talvez até fosse assim, talvez até fosse mesmo tudo culpa deles, se ela pelo menos tivesse tentado mais – e tentar não é sentar e esperar, e tentar não é querer que todas as coisas mudem até se encaixarem no seu padrão. Talvez tudo fosse diferente se, pelo menos, ela tivesse conversado sobre isso, se ela tivesse dado um sinal de alerta. E quem sabe assim ela não precisasse simplesmente perder as pessoas? Mas o único sinal de aviso que ela conhece é aquele que ela aprendeu com Chicago: dois tiros direto na cabeça.

Desculpe, acho que tive uma pequena digressão, mas olha, olha lá. Ela atravessa a porta. O loirinho de cabelos cacheados parece encantado, como se ela fosse uma sereia. Eu dou pouco mais de seis meses até acontecer tudo de novo. E você?

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