sexta-feira, 7 de setembro de 2012

quinze


things we lost in the fire

de repente não existem avencas, nem samambaias, e nem mesmo flores. eram quinze pra meia-noite quando o fogo começou. corremos nós duas para fora de casa e ficamos olhando. as fotos, as lembranças, as medidas de crescimento no batente da porta. tudo ia embora. meio metro de distância nos separava, e se fosse outra vida estaríamos nos dando as mãos, mas não era outra vida, e era só fumaça, e explosão, e um calor insuportável. e de alguma forma era bonito ver tudo ser consumido pelo vermelho e pelo laranja. ficamos apenas olhando. uma hora tudo ia desabar. uma hora tudo aquilo ia acabar. não importavam os esforços dos bombeiros. não importavam as preces de todas aquelas pessoas em volta. a gente sabia, como a gente sempre soube, embora a gente nunca esperasse: depois de tudo, só restaria o silêncio. nada mais.

a sing of love

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

reminiscências

Eu sentada numa mureta de pedra do Gasômetro, vendo o pôr-do-sol do Guaíba, e você do meu lado tirando a foto que seria uma das minhas preferidas pra sempre. A gente ri. Meu deus, como a gente ri. Como a gente se diverte, e faz piadas, e então você começa a fazer cócegas em mim, e eu detesto que façam cócegas em mim, mas as coisas entre a gente são tão gostosas que eu não consigo te afastar.

Estou sentada na mesma mureta de pedra, só que num dia diferente. O pôr-do-sol é tão bonito quanto o daquela tarde, mas você não está tirando nenhuma foto porque você não está aqui. E eu penso que é estranho demais não ter você por perto, não estar ouvindo o som das correntes da sua bicicleta ou da sua risada. Eu penso que sinto falta de você, das pequenas sardas no seu rosto e da cor dos seus olhos.

A cidade não mudou nada enquanto eu estive fora, mas eu sinto alguma coisa diferente. É como se eu não fizesse mais parte dela, como se estar aqui não fosse mais sinônimo de estar em casa. E talvez seja porque pra mim lugares são pessoas – como você disse certa vez.  E Porto Alegre era você do início ao fim. Porto Alegre era você nos pontos de ônibus, nos shoppings, nos cinemas antigos, em lanchonetes que pouca gente conhecia, na Redenção, aqui no Gasômetro. Então eu chego a essa conclusão desconfortável: estar aqui dói. Todas essas lembranças doem. Mas é você que dói mais que tudo.

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O pôr-do-sol do Guaíba é lindo. Ele me faz lembrar de uma outra vida, que eu guardo com carinho e pra sempre.