sexta-feira, 9 de março de 2012

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Flu,

Hoje é um daqueles dias em que a memória das folhas secas me vem com mais lembrança. O cheiro de cigarro, chocolate e caderno novo. Sua letra fina no meio da página, como uma anotação ou um lembrete de algo que eu sei que você gostaria que eu levasse para o resto da vida.


É um daqueles dias em que acreditar parece difícil. Quase impossível. Por causa daquelas malditas forças das quais a gente falava no meio da madrugada, lembra? Que parecem fazer o mundo ficar mais lento, de modo que até o que é estático pareça ainda mais sem movimento.


Eu comecei a rasgar papéis por causa disso. Porque eu sabia que precisava me mover. Porque eu sabia que, se eu não fizesse assim, não ia demorar pra eu começar a sentir o peso da gravidade, o peso nos ombros, o peso na vida. Mas acho que não deu muito certo. Anote isso, querida: rasgar papéis não ajuda; só faz você pensar em como é possível sentir alívio destruindo coisas.


Então eu parei. E foi como se o tempo parasse. E foi aí que eu lembrei daquele dia. Das folhas secas. O dia d’A passagem. Lembrei das grades azuis dos portões e dos teus olhos cor-de-vinho. Os olhos tristes, e aquele sorriso quebrado. Eu lembrei de como o tempo parecia passar devagar aquele dia. Tão devagar que dava pra ver as partículas da poeira da calçada dançando no ar. Suas franjas caindo nos olhos, e nossas jeans completamente sujas – como se a gente realmente fosse se importar.


As folhas também pareciam cair devagar, Flu. Era como se a gente não existisse. Era como se a gente estivesse num lugar diferente do tempo e do espaço, num lugar diferente do mundo, onde ninguém mais além de nós duas era capaz de entrar – e, exatamente por isso, ninguém mais poderia ver.


Hoje eu me senti assim de novo. E você se lembra do que aconteceu naquela noite, não lembra?


(ela acreditava em anjos, e por acreditar eles existiam)

Eu preciso acreditar que ninguém nunca quer isso de verdade.

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