quarta-feira, 24 de outubro de 2012

o pior

é que não me surpreende nem um pouco.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

pattern

Ela atravessa a porta de um jeito que faz com que as pessoas inevitavelmente olhem pra ela – e não é como se ela já não desse motivos o suficiente pras pessoas olharem, ou o que você me diz daqueles cabelos, e piercings e tatuagens? De qualquer forma, ela atravessa a porta com o queixo meio erguido, como se desafiasse qualquer pessoa na sala a dizer qualquer coisa pra ela – fosse essa coisa boa ou ruim.

Ela escolhe uma cadeira, uma bem no meio do cômodo, e se acomoda. Joga a mochila no chão, mas não sem antes retirar dela o seu novo iPod vermelho, e selecionar uma música e começar a ouvir, fechando os olhos e ignorando quem estivesse perto.

No começo é sempre assim. Ela trata todo mundo de um jeito meio indiferente, meio blasé. Sua citação favorita é “estou cercado de idiotas”, e mesmo não sendo uma fã particular do Scar ou de Rei Leão, ela admite que essa frase diz muito sobre si mesma. Dali a uma semana ela está lançando sorrisinhos para as outras pessoas, em parte porque ela precisa socializar e não quer ficar sozinha, em parte porque algumas pessoas até que são legais de verdade.

E a semana realmente passa, e os sorrisinhos realmente aparecem, e depois de alguns intervalos ela até aceita um cigarro, ou dois, e deixa o assunto correr com aquele carinha que se aproximou dela perguntando onde foi que ela fez aquela tatuagem perto da escápula. Escápula! O cara sabe o nome daquele bendito osso, e sabe onde ele fica! Talvez ele não seja só um idiota com cara de skatista maconheiro, talvez ele seja até que legal, e então ela resolve dar uma chance e descobre que não só o cara é engraçado como na verdade ele faz medicina, e está ali só porque fotografia sempre foi um hobby que ele queria levar um pouquinho mais adiante.

O curso de fotografia dura só uns seis meses, mas o carinha meio que ganhou um nome, e recebeu alguns upgrades nesse meio tempo, saindo de mero estranho pra melhor amigo em dois meses, e de melhor amigo pra namorado em mais quatro. As coisas com ela podem ser meio rápidas, ela pode ficar confusa com coisas meio básicas, e no fim do dia pode fazer declarações de amor pra você só porque ela é intensa demais assim – o que não é problema nenhum, se você está disposto a arcar com as consequências dessa intensidade, mas quem disse que ela realmente está?

O carinha e ela vivem alguns meses de puro romance e história de amor, e porque ela é intensa ele se acha no direito de fazer planos e sonhar tão alto quanto ela sonhava lá atrás, mas mal sabe ele que toda essa história de intensidade é só pra ela, e que ela se assusta feito um ratinho quando isso vem de outra pessoa.

Seis meses depois ela está cansada do carinha porque ele já sabe como vai ser o casamento dele com ela, e ela se sente mal porque acha que não vai conseguir fazer com que ele pense diferente, ou sonhe diferente. Aliás, ela faz muito isso. Ela reclama das roupas dele, ela reclama do perfume que ele está usando, reclama do corte de cabelo, e reclama até do carro que ele dirige! Ela sugere que isso mude, que aquilo mude, e no fim desses meses ele acaba se tornando a pessoa dentro das expectativas dela que, de alguma forma, ainda não consegue atender as expectativas dela. E é por causa disso que ela começa a pensar em terminar, porque ainda existe alguma coisa que ela não consegue pedir pra ele mudar – e não, não é porque ele está falando sobre o casamento deles.

Ela quer terminar, ela sabe que quer terminar, ela sabe que não pode continuar, mas decide esperar por mais algum tempo contando que o carinha perceba todas as entrelinhas do relacionamento dos dois e descubra sozinho onde está dando errado e por que. Só que o cara é estudante de medicina e gosta de tirar fotos, ele nunca foi muito de enigmas, e não acha que é brincando de Decifra-Me Ou Te Devoro que as coisas se resolvem. Porque não é mesmo. Mas não é assim que ela pensa. O que ela pensa é ele já está com ela há tempo o suficiente pra entender que é assim que ela funciona, e ele deveria respeitar isso e tentar se colocar no lugar dela, então custava?

Aquela linda história de amor termina com ela dizendo todas as coisas que estavam erradas, listando todos os motivos pelos quais faz sentido eles acabarem. E o carinha da medicina não previu isso, ou ele até previu, mas imaginou que fosse só uma fase. Daí ele fica lá, parado, se perguntando como e porque as coisas chegaram naquele ponto. E se você ouvir a história dela, é claro que ela tem razão, é claro que tudo faz sentido, exceto o fato de que ela nunca falou sobre as coisas que incomodavam antes que elas se tornassem insuportáveis demais e então precisasse terminar por isso.

As coisas que você vai ouvir sobre isso, a versão dela pra como tudo aconteceu, vai girar em torno do quanto ela ficou sufocada por ele e pelos planos dele e pela atenção dele, ou então do quanto ela ficou frustrada pela inércia dele, pela ausência dele, pela falta de diálogo no relacionamento. Você vai acenar a cabeça, concordando com cada palavra que ela enfaticamente disser, porque no fim das contas tudo isso faz mesmo sentido, e vai pensar que talvez tenha mesmo sido culpa deles, e que, coitada, ela também é só uma vítima no meio disso tudo, e que eles simplesmente não eram pra ser, acontece, pelo menos eles podem ser amigos agora, não é? Só que não.

Talvez até fosse assim, talvez até fosse mesmo tudo culpa deles, se ela pelo menos tivesse tentado mais – e tentar não é sentar e esperar, e tentar não é querer que todas as coisas mudem até se encaixarem no seu padrão. Talvez tudo fosse diferente se, pelo menos, ela tivesse conversado sobre isso, se ela tivesse dado um sinal de alerta. E quem sabe assim ela não precisasse simplesmente perder as pessoas? Mas o único sinal de aviso que ela conhece é aquele que ela aprendeu com Chicago: dois tiros direto na cabeça.

Desculpe, acho que tive uma pequena digressão, mas olha, olha lá. Ela atravessa a porta. O loirinho de cabelos cacheados parece encantado, como se ela fosse uma sereia. Eu dou pouco mais de seis meses até acontecer tudo de novo. E você?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

quinze


things we lost in the fire

de repente não existem avencas, nem samambaias, e nem mesmo flores. eram quinze pra meia-noite quando o fogo começou. corremos nós duas para fora de casa e ficamos olhando. as fotos, as lembranças, as medidas de crescimento no batente da porta. tudo ia embora. meio metro de distância nos separava, e se fosse outra vida estaríamos nos dando as mãos, mas não era outra vida, e era só fumaça, e explosão, e um calor insuportável. e de alguma forma era bonito ver tudo ser consumido pelo vermelho e pelo laranja. ficamos apenas olhando. uma hora tudo ia desabar. uma hora tudo aquilo ia acabar. não importavam os esforços dos bombeiros. não importavam as preces de todas aquelas pessoas em volta. a gente sabia, como a gente sempre soube, embora a gente nunca esperasse: depois de tudo, só restaria o silêncio. nada mais.

a sing of love

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

reminiscências

Eu sentada numa mureta de pedra do Gasômetro, vendo o pôr-do-sol do Guaíba, e você do meu lado tirando a foto que seria uma das minhas preferidas pra sempre. A gente ri. Meu deus, como a gente ri. Como a gente se diverte, e faz piadas, e então você começa a fazer cócegas em mim, e eu detesto que façam cócegas em mim, mas as coisas entre a gente são tão gostosas que eu não consigo te afastar.

Estou sentada na mesma mureta de pedra, só que num dia diferente. O pôr-do-sol é tão bonito quanto o daquela tarde, mas você não está tirando nenhuma foto porque você não está aqui. E eu penso que é estranho demais não ter você por perto, não estar ouvindo o som das correntes da sua bicicleta ou da sua risada. Eu penso que sinto falta de você, das pequenas sardas no seu rosto e da cor dos seus olhos.

A cidade não mudou nada enquanto eu estive fora, mas eu sinto alguma coisa diferente. É como se eu não fizesse mais parte dela, como se estar aqui não fosse mais sinônimo de estar em casa. E talvez seja porque pra mim lugares são pessoas – como você disse certa vez.  E Porto Alegre era você do início ao fim. Porto Alegre era você nos pontos de ônibus, nos shoppings, nos cinemas antigos, em lanchonetes que pouca gente conhecia, na Redenção, aqui no Gasômetro. Então eu chego a essa conclusão desconfortável: estar aqui dói. Todas essas lembranças doem. Mas é você que dói mais que tudo.

x
x
x

O pôr-do-sol do Guaíba é lindo. Ele me faz lembrar de uma outra vida, que eu guardo com carinho e pra sempre.

 

domingo, 27 de maio de 2012

closing time

i know who i want to take me home
i know who i want to take me home
i know who i want to take me home

but you know who you want to take you home?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

in between

"It’s not just that she makes him a better person, she does, but he changes her too. Damon challenges her, surprises her, he makes her question her life, beliefs. Stefan is different, his love is pure, he’ll always be good for her. Damon is either the best thing for her or the worst".

-- The Vampire Diaries (S03E19 - Heart of Darkness)

all about

"Why don’t you let people see the good in you?"

"Because when people see good, they expect good. And I don’t want to have to live up to anyone’s expectations".


-- The Vampire Diaries (S03E19 - Heart of Darkness)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

teoria dos jogos

Se minha vida fosse um dilema do prisioneiro, eu seria (quase) sempre condenada a 10 anos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

rumours

"Por que você está chorando?"

"Você engole o que todo mundo diz e faz com você pra não ficar sozinha"

"Você é uma decepção"

"Se não fizerem nada com você, então não tem por que brigar, não é?"

"Eu sempre achei que você fizesse isso porque eu não estava na sua frente pra você fazer comigo"

"Eu desisto de você"

"Não tem nada que você faça que vai mudar isso"

"Não. Agora é tarde demais"

"Eu desisto de você"

segunda-feira, 2 de abril de 2012

física

Prova de vinte questões. Todas elas feitas, e a sensação de que finalmente você se sairia bem.


Até que você descobre que errou todas.

terça-feira, 27 de março de 2012

if life ain't just a joke

e cicatrizes. e marcas.

eu não estou feliz, mas me dá vontade de rir.

from the heart

eu odeio você.

quinta-feira, 22 de março de 2012

e não importa

Se você tentou, se correu atrás,
Se fez o calendário mudar, se pagou demais.

Se você chorou, se você lutou,
Se você morreu, se você voltou.

Se houveram feridas que cicatrizaram,
Se houveram feridas que nunca curaram.

Se você se afogou, se você ficou,
Se você fez tudo isso, se você amou.

Porque a única coisa que importa, no fim,
É exatamente aquilo que talvez você não possa dar.
E você vai olhar pra todo o resto e talvez pensar,
Que a vida não é mesmo justa, enquanto você continua lá.

sexta-feira, 16 de março de 2012

disenchanted

so i could watch all my heroes sell a car on tv

E então a barba cerrada e bem desenhada, os olhos claros espremidos nos cantos por causa do sorriso. Aquele sorriso. Diferente dos outros, iguais a tantos outros. Sorriso de quem sente pena. Sorriso de quem acha que sabe de tudo, de quem acha que entende tudo. Aquele sorriso de quem assente do alto da superioridade dos anos, dos cargos, dos títulos.

A minha vontade era dizer “você é um grande babaca, sabia?”.

Mas tudo o que eu disse foi “não é assim”.

Você acenou a cabeça, ainda sorrindo e ainda julgando, ainda afirmando de acordo com os seus conceitos – e talvez de acordo com os conceitos da maioria. E foi ali, naquele exato momento, que eu soube que você tinha morrido.

Doeu muito mais do que eu esperaria.

gwen

Eu sei que o horário é ruim, mas foi o único que eu consegui pra sua agenda tão ocupada, e com isso eu não quero dizer que você não tem tempo pra mim, eu só quero dizer que você é mesmo uma pessoa importante, de muitos compromissos, é por isso que eu gosto de você, porque você é organizado e consegue sempre arranjar um horário, e eu sei que você não faz isso por pena, eu sei que você gosta de mim, desculpe, estou sendo muito convencida, mas não pense isso, eu só quero dizer que reconheço o que você sente por mim, e que isso me deixa realmente feliz, porque eu gosto mesmo de você, mas não desse jeito, de gostar-gostar de você, eu gosto de você como gosto de um amigo, não que isso signifique que eu jamais gostaria de você de outra forma, eu só estou dizendo que gosto de você como amigo, não, eu realmente acho que alguém pode gostar de você de outra forma, eu até gostaria de você dessa forma, porque você é bonito, e engraçado, e parece sempre querer salvar o mundo, e não, eu quero dizer que você é uma boa pessoa, e não que é alguém pretensioso, eu não te acho pretensioso, eu te acho muito altruísta, e eu comecei a falar isso tudo porque eu realmente gosto de você e não queria que você pensasse que não gosto de você e- acho melhor parar de falar, sim.

bedtime

Aí eu fiquei chateada. E passou tanta coisa ruim pela minha cabeça só porque eu fiquei chateada! E eu fiquei chateada pelo tom de voz, pelo contexto, pelo que aquilo poderia significar, sabe? Bem, talvez não saiba. De qualquer forma, poderia significar não é a mesma coisa que significa. Eu tento me lembrar desse tipo de coisa quando esse outro tipo de coisa acontece. E às vezes não dá. Ou às vezes eu demoro a lembrar. E até que eu lembre, fica essa sensação ruim no peito, e essa vontade, boba até, de chorar sozinha no meu travesseiro até dormir.

quarta-feira, 14 de março de 2012

what logan said

Em algum momento das nossas vidas a gente comete a idiotice de ouvir o Mr. Echolls. E por mais que a gente dispense as vidas arruinadas e os derramamentos de sangue, a gente deseja, lá no fundo, que atravesse anos e continentes. A gente deseja que seja épico.

E então começa a tocar aquela música dos sinos, e o cara de quem você nunca esperaria ouvir uma declaração de amor diz a coisa mais genial de todos os tempos, do jeito dele, dramático feito ele, romântico ao estilo dele. E os sinos continuam a tocar, felizes e triunfantes. E você acha que eles vão se beijar, porque depois daquele discurso não tem como ela ir embora – quer dizer, quem não quer isso?

E é ali, naquele momento em que você espera eles se beijarem, que você concorda com o que ele disse. Você quer que eles se beijem porque você sabe que seria épico se fosse assim. Você espera. Você espera. Você espera.

Porque ninguém escreve canções sobre os que vêm fácil. E conforme os dias passam você percebe que é exatamente assim.

é,

obrigada por ter estado aqui essa noite. não mudou muita coisa, mas foi importante pra mim.
eu também amo você.

segunda-feira, 12 de março de 2012

it's clear in my head

knowing nothing is better than knowing at all

on my own

domingo, 11 de março de 2012

the forest again

there's so many wars we fought,
there's so many things we're not,
but with what we have,
i promise you that,
we're marching on

Um dia eu parei de acreditar que as pessoas valiam a pena, até que eu conheci vocês. E depois de anos eu voltei a rir sem achar que estavam rindo de mim; eu voltei a abraçar sem medo de parecer uma garota maluca; eu voltei a me relacionar como se isso não fosse ruim.

E aí vocês vieram e estragaram tudo. E aí vocês vieram e encontraram algo maior pelo que lutar. Não importava o preço.

Em algum momento vocês prometeram. E eu odeio vocês por não cumprirem essa promessa. E odeio mais ainda por vocês acharem que tudo o que eu fiz foi ir embora - "porque é isso o que ela sempre faz". E odeio ainda mais por não enxergarem o quanto vocês me machucaram. E odeio ainda mais por terem deixado as coisas chegarem nesse ponto pra fazer o que eu pedi e implorei por meses.

Eu odeio vocês porque quando eu fui pra merda daquela floresta aceitar o meu destino, vocês não estiveram comigo until the very end - e vocês odiaram a única pessoa que esteve.

sexta-feira, 9 de março de 2012

this picture

Flu,

Hoje é um daqueles dias em que a memória das folhas secas me vem com mais lembrança. O cheiro de cigarro, chocolate e caderno novo. Sua letra fina no meio da página, como uma anotação ou um lembrete de algo que eu sei que você gostaria que eu levasse para o resto da vida.


É um daqueles dias em que acreditar parece difícil. Quase impossível. Por causa daquelas malditas forças das quais a gente falava no meio da madrugada, lembra? Que parecem fazer o mundo ficar mais lento, de modo que até o que é estático pareça ainda mais sem movimento.


Eu comecei a rasgar papéis por causa disso. Porque eu sabia que precisava me mover. Porque eu sabia que, se eu não fizesse assim, não ia demorar pra eu começar a sentir o peso da gravidade, o peso nos ombros, o peso na vida. Mas acho que não deu muito certo. Anote isso, querida: rasgar papéis não ajuda; só faz você pensar em como é possível sentir alívio destruindo coisas.


Então eu parei. E foi como se o tempo parasse. E foi aí que eu lembrei daquele dia. Das folhas secas. O dia d’A passagem. Lembrei das grades azuis dos portões e dos teus olhos cor-de-vinho. Os olhos tristes, e aquele sorriso quebrado. Eu lembrei de como o tempo parecia passar devagar aquele dia. Tão devagar que dava pra ver as partículas da poeira da calçada dançando no ar. Suas franjas caindo nos olhos, e nossas jeans completamente sujas – como se a gente realmente fosse se importar.


As folhas também pareciam cair devagar, Flu. Era como se a gente não existisse. Era como se a gente estivesse num lugar diferente do tempo e do espaço, num lugar diferente do mundo, onde ninguém mais além de nós duas era capaz de entrar – e, exatamente por isso, ninguém mais poderia ver.


Hoje eu me senti assim de novo. E você se lembra do que aconteceu naquela noite, não lembra?


(ela acreditava em anjos, e por acreditar eles existiam)

Eu preciso acreditar que ninguém nunca quer isso de verdade.

.