quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

(não) relacionados

6/dez – 9h

 

Enquanto setembro, outubro e novembro passavam voando, em algum lugar do tempo-espaço havia dias 11 e 15 e 27 acontecendo de novo, repetidas e incontáveis vezes, para que o presente continue como está.

 

E eu não posso evitar. Eu sempre volto no tempo.

 

Fecho os olhos, e de repente lá estou eu. Encostada entre dois carros, do outro lado da rua, atrás de uma árvore, olhando pelo vidro de uma loja, de um restaurante, sentada na mesa do canto.

 

Parece estranho, eu sei. Parece assustador, e eu entendo. Mas é a verdade. Às vezes eu só vejo a mim mesma e a tela do computador, e é como se eu fosse um fantasma, alguém invisível. Às vezes eu ouço minha própria voz e minha risada, e de repente toda aquela conversa faz sentido de novo, como se eu estivesse revivendo aquilo e sentindo as mesmas coisas.

 

Às vezes eu sento do seu lado enquanto você está se sentindo sozinha e sinto vontade de te abraçar, mas sei que não posso. Se não está no script, não pode acontecer assim.

 

Às vezes eu sento no meio-fio pra ver o carro parado no meio do caminho, sem gasolina, as chaves caindo, as risadas antes do jantar. Às vezes eu vejo o momento da foto, e é como se eu a estivesse tirando. A gente tão perto, e vocês não me vendo, mas sorrindo, e finalmente, e só assim, o shuffle acontece.

 

Às vezes eu passo de um cômodo para outro, e isso significa passar de um bairro para outro, e uma cidade para outra, e um estado para outro. E de repente Hiroshima se anuncia, e acontece a explosão atômica que deu fim e início a tudo – como a própria explosão que fez surgir o universo.

 

Eu abro os olhos de novo. E tudo o que vejo são ruínas.

 

6/dez – 11h

 

Eu rodopio no pátio enquanto os olhos dela se enchem de lágrimas (mas às vezes não tem lágrimas, e ela fica com aquele sorriso que faz eu me apaixonar de novo), e esse é o único momento em que eu sinto o mundo girar – quando eu estou girando com ele.

 

7/dez

 

Corre.

 

Pra pegar o ônibus, pra não perder o semestre, pra mudar de telefone.

 

Só corre. Vai atrás, não desiste, busca, insiste, ignora o resto, mantenha o foco, são só 19:30, e na verdade ele só vai às 21h, não tem internet, não tem laboratório, não tem ninguém, e você está cansada, querendo dormir, tendo que estudar, pensando em correr, então corre, talvez dê tempo de mudar as linhas, conseguir minutos, conseguir tempo, gastar uma grana que valha a pena, que faça sentido, então corre, você consegue, por sorte, por coisa de um dia, e você vê que vai dar tempo, e você está aliviada, e você corre, pra não perder o ônibus, e desvia de carros, e ouve gente xingando, e avança o sinal vermelho, e perde o ônibus, e espera outro, e espera o troco, e encontra alguém, e se distrai, e desce do ônibus, e esquece o troco, e corre atrás da nota, atrás da frequência, atrás da aprovação, e consegue, e corre atrás de um número, de uma pessoa, chamadas perdidas, e lembra do troco, e se frustra, e corre, e dá as boas notícias, e ouve aquelas notícias, e de repente um cansaço de correr, e procura os fones de ouvido, e os fones foram esquecidos, e a cabeça dói, e você quer chegar em casa, mas você já não corre mais, deixa seu corpo ir embora, deixa seu corpo ser levado, encosta a cabeça na poltrona e se deixa ir, desce do ônibus e espera de novo, espera, espera, espera, até que vem o próximo, e você continua cansada de correr, olhos fechados, seu ponto final, sua rua molhada de chuva, a porta da sua casa, um banho gelado, o barulho da chuva, a sua cama, dezembro saltando do seu peito, e você chora, você chora, você chora.

 

Porque você tem corrido, e você tem corrido tanto, mas você tem corrido pra quê?

Não corre.

Agora é hora de dormir.

 

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