quinta-feira, 30 de junho de 2011

and in the end


the love you take is equal to the love you make.


Estava sentado no meio de uma pracinha, em cima da mesa de pedra que os senhores idosos usavam pra jogar cartas, ou que as crianças usavam para jogar damas com tampinhas de garrafa, os pés inquietos batendo em um dos bancos, enquanto a cabeça descansava sobre os braços, que por sua vez descansavam sobre os joelhos. Cabelos escuros, pele clara, dezessete anos e bermuda e tênis surrados. Esse era Henrique. Os olhos cheios daquele vigor juvenil, o típico garoto adolescente que nada tinha a perder e tudo podia, no auge de sua saúde e vigor, embora não no auge de sua sabedoria.

Mas esse Henrique da praça era Henrique sozinho, esperando, olhando o relógio de cinco em cinco minutos, às vezes se distraindo com alguma mãe que passava com seu bebê em um carrinho, ou com crianças correndo pela rua, ou com uma briga de casal no prédio ao lado. Esse Henrique da praça era Henrique sem ninguém, Henrique sem os amigos, sem as piadas de menino que não sabe muito sobre a vida, que tem pai e mãe para pagar todas as suas contas e guardar suas meias, inquieto, ansioso e alerta. Esse Henrique sozinho era assustado, acuado, o vigor e o brilho da juventude dando espaço para o medo, a insegurança, toda aquela parte dramática do que é ser adolescente. Incompreendido, não levado a sério, eternamente irritado e revoltado com o mundo. Henrique sendo arrastado pelos minutos numa espera agonizante que o fazia pensar quando não queria pensar. Henrique nunca queria pensar.

O relógio marcou quinze horas, e os sinos da igreja em frente à praça badalaram quinze vezes. Henrique suspirou, aliviado. Henrique sorriu, otimista. Henrique cantarolou "we are the champions" e se sentiu vitorioso, os músculos outrora contraídos por causa da espera, por causa do estado de alerta, agora completamente relaxados, a sensação agradável de que tudo ficaria bem a partir daquele momento. Ficou de pé. Limpou a bermuda com as mãos, e desceu do banco e da mesa. Mal pisou no chão, e sentiu o primeiro golpe acertar suas costas de uma maneira muito desleal. Não quis olhar que horas eram simplesmente porque não importava mais, e preferia se defender como podia - mas eram seis contra um, e ele realmente não podia.

Henrique caiu no chão no quarto ou quinto golpe. Não eram só socos, não eram só chutes, eram também pedaços de madeira acertando seus braços, suas pernas, seu tórax e abdômen. Pequenas lascas se desprendiam daquilo que usavam para bater nele, e se fixavam em sua pele. Pequenas farpas doloridas, nas quais ele preferia se concentrar para abstrair todo o resto - como se pudesse. E os ouvidos zumbiam, a essa altura; identificava apenas alguns xingamentos e ofensas, como "filho da puta" ou "seu merda" ou "sua mãe é uma vagabunda, sabia?". Todos tinham o cuidado de não acertar sua cabeça, pra não matá-lo, mas ele queria morrer. Céus, como Henrique queria morrer. Engasgava com o próprio sangue, e queria chorar de dor. Com certeza tinha quebrado algumas costelas, e o braço direito estava num ângulo estranho. Por que ele não morria logo? Por que não perdia logo a consciência? Não diziam que se você sente muita dor, o corpo desliga teu cérebro? Por que o corpo dele não desligava? Henrique só queria apagar, mas levava mais um soco no estômago. Henrique só queria morrer, mas levava mais uma paulada nas costelas.

Quando eles pararam, não foi por clemência ou misericórdia tardia, mas sim porque foram vistos. Alguém na rua, finalmente. Ou alguém que se importasse o suficiente para afugentar os outros, mas ele jamais saberia. Henrique ficou deitado olhando o pro céu, os olhos castanhos fixos num ponto bem longe, enquanto ele mais rezava pra apagar de vez do que sentia isso acontecendo. E a ironia era que ele não acreditava em Deus.

Alguém chegou perto dele e falou alguma coisa que ele não ouviu. A pessoa saiu de lado gritando algo com alguém. Henrique continuou deitado olhando pro céu azul, o sangue começando a sufocá-lo, agora que não conseguia nem cuspi-lo. Cabelos desgrenhados, pele cheia de hematomas e arranhões pelo corpo, dezessete anos e muitos ossos quebrados. Esse era Henrique. Os olhos cheios daquele vigor juvenil, como se sua sobrevivência fosse apenas uma questão de força de vontade. Não era mesmo o auge de sua sabedoria. Mas esse Henrique da praça era Henrique, de qualquer forma.

(o relógio marcou quinze e trinta, e os sinos da igreja em frente à praça badalaram uma vez).

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