domingo, 22 de maio de 2011

unnamed

Rio de Janeiro, 29 de Abril de 1925

Sei, há tragédia em sua felicidade, meu amor. E sei, há tanto disso que me preocupa o fato de você ainda não ter chorado o suficiente, me preocupa o fato de você ainda não ter posto para fora toda essa tristeza, essa mágoa que te aflige o peito e te rouba o ar.


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quarta-feira, 18 de maio de 2011

under my skin II

Just for the record, não é que eu tenha esquecido tudo o que eu falei ou fiz, ou tudo o que eu ouvi e fizeram comigo. São o tipo de coisa que não dá pra esquecer mesmo, ainda mais eu, que não esqueço nunca. Mas o ponto aqui é que nunca me deram motivos, assim como eu nunca dei motivos, pra lembrar.

domingo, 15 de maio de 2011

para os matemáticos

Meus caros,

Não se desesperem acreditando que a menina de vocês vai a algum lugar só porque ela cresceu mais alguns centímetros. Para o bem de vocês, para o bem de todos, vocês precisam perceber que a menina de vocês continua no mesmo lugar. E se vocês a ouviam antes, se vocês consideravam o que ela dizia naquela época apenas porque achavam que ela estava de fora e teria uma visão diferenciada, é preciso que vocês saibam a verdade, vocês estavam completamente enganados a respeito dela.

Meus amigos, a menina de vocês nunca esteve fora dessa situação, apesar dos muitos esforços de vocês para poupá-la. Ela sempre esteve no meio, no centro de tudo, ainda que nada daquilo girasse em torno dela. Acreditem-me, não faço ideia de como ela foi parar no olho na tempestade, mas fatos são fatos. Ela nunca falou como quem olhasse de fora, mas sim como quem olhava de dentro, percebem? Até porque, bem, aquele que se encontra do lado de fora de uma pirâmide de três lados consegue enxergar apenas um desses lados, no máximo dois, talvez. E desde o início vocês concordaram que ela conhecia os três lados, meus amigos.

E então vocês se perguntam o que mudou, e eu digo que é só o cérebro exato de vocês lhes pregando peças. Num dado momento vocês passaram a acreditar que a pirâmide havia se desfeito em um quadrado, mas percebam, meus amigos queridos, que tudo isso continua sendo o problema de um trio. E que a menina de vocês continua no centro dessa pirâmide, girando em si mesma para enxergar a todos. 

O que eu preciso que vocês percebam e entendam e aceitem, meus amigos, é que nem mesmo ela, que está inserida nisso tudo, pode contrariar a física de uma forma geométrica: não existe maneira dela não dar as costas a alguém para ouvir outros dois. Então talvez agora ela só queira ficar sentada no centro, joelhos junto ao peito, e braços em volta dos joelhos, esperando de olhos fechados até tudo isso acabar.

Quando as paredes caírem, ela ficará livre para estar com vocês. Eu prometo.

Afetuosamente,

O Doutor.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

running over the same old ground

Você sabe.
 
Eu guardo toda essa coisa sentimental praquele momento no meio da noite onde só ficamos acordadas nós duas, depois que todo mundo já foi dormir na sua casa e na minha, e quando a gente pode finalmente se comportar como algo diferente de "best friends forever". Mas amanhã vai fazer três semanas que eu não falo contigo direito, sem correr, sem ficar preocupada com a conta do mês seguinte, sem ser interrompida toda hora pela droga que é o 3g do seu pai. E eu tô com saudades. De te contar sobre o meu dia, sobre minha professora que mais parece um macaquinho hiperativo, sobre o ícone do romantismo contemporâneo. Eu tô com saudades de te contar sobre as coisas que pensei no ônibus num momento em que eu não estava dormindo, saudades de comentar sobre algo que o Beto disse, ou sobre como ele reagiu quando me referi a você como "sua cunhada" pela primeira vez, ainda que ele soubesse disso desde o início. E às vezes eu acho que devia anotar todas essas coisas que me ocorrem, mas é tudo tão corrido que não dá. E quando a gente consegue se falar, a gente espreme em três minutos os assuntos que conversaríamos durante horas, e então depois desses três minutos o resto do tempo parece tão vazio.
 
Eu já estava preparada para os quilômetros, mas o peso deles parece dobrar, triplicar, se eu não ouço a sua voz e a sua risada, quando eu não escuto você sussurrando que eu preciso dormir logo antes de eu realmente ir dormir, quando eu não vejo as cores do seu nick, ou da sua janela, ou da sua fonte. E eu sinto falta disso tudo. São só detalhes, mas eu sinto falta disso como se eles sempre tivessem estado lá. É um "não poder" aumentado, onde além de não te ter ao alcance de um toque, eu não te tenho ao meu alcance de forma alguma. E com isso a saudade aumenta, a falta aumenta, essa sensação horrível de vazio aumenta.
 
Você sabe.
 
Eu vou cansando disso tudo, dessa falta, dessa ausência, do não te ouvir, do não te abraçar, do não te olhar de perto e o não tirar aquela mecha de cabelo do teu rosto. Eu vou cansando, me esgotando, mas ao invés de me fazer desistir, isso me motiva a correr atrás de alguma coisa parecida com um futuro, porque eu quero ter esse futuro contigo, eu quero que todos aqueles planos que a gente faz de madrugada aconteçam, um por um, cada um a seu tempo. E eu continuo cansando, e mesmo cansada o meu pedido é humilde, sua internet de volta enquanto não viável te ter por perto. Mas a vida, o destino, não sei, esses incidentes que não me deixam nem um nem outro.
 
Você sabe.
 
Eu estou cansada. E mesmo sabendo que é pedir demais, eu só queria você aqui.

terça-feira, 3 de maio de 2011

under my skin

Do mesmo jeito que abril veio, abril foi: agitado, conturbado, e com um punhado de mágoas entre as linhas do calendário. Coisas que a gente nunca esquece. Conversas duras, verdades ressentidas, sentimentos de Hiroshima. Coisas que a gente nunca esquece, mais pela marca que deixam na nossa pele, do que pela nossa vontade de lembrar. São as coisas que queimam. As coisas que cortam. Coisas que fazem a gente chorar feito criança - seja de tristeza, seja de decepção - um final de semana inteiro ou UM noite inteira de terça. Coisas que viram a gente de cabeça pra baixo, e que nos deixa com hematomas, que nos faz perder um pouco daquela flexibilidade, daquela paz de espírito que um dia veio no nosso pacote.


Acho que hoje meu peito tem um bocado dessas coisas, resquícios de abril e dos que vieram antes dele, que eu não vou esquecer - porque não dá pra simplesmente esquecer. E não é birra, não é teimosia. Mas só porque passou não significa que não doa mais. São aquelas cicatrizes que latejam loucas em dias de chuva. Cicatrizes de raio numa época em que eu ainda não posso dizer "all was well".


Quem sabe dezenove anos depois?