quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nossa Senhora de Paris


Vestia-se como uma cigana, falava como uma cigana, dançava como uma cigana.

O Rei aprendera, desde cedo, deste antes de sua cabeça ostentar uma coroa e de se tornar rei, que se você tem o caminho cruzado por um animal que parece lobo, que rosna como lobo, e que caminha e se alimenta como lobo, não há dúvida alguma de que esse animal seja um lobo – e que deve ser eliminado, portanto, diziam os educadores. Apenas uma questão de segurança, reforçavam os conselheiros. Identificar e eliminar nada mais era do que um mecanismo de defesa, eles sentenciavam. Do contrário, toda a coroa poderia ficar à mercê de aproveitadores inescrupulosos, e, oh, é claro que o Jovem Príncipe e Futuro Rei não gostaria de colocar toda a sua família, a sua história, e seu nome em risco, não é? Não, não, é claro que não. 

O Rei aprendera ainda criança, ainda Pequeno Príncipe, e àquela altura já estava cansado de ter de lidar com esse tipo de gente, mas permanecia eficaz. Era exímio em identificar e em decretar a ordem de extermínio – tão fácil quando se possui uma coroa para exibir sentado num trono tão imponente! Seu reino estaria para sempre seguro, o nome de sua família, seu lugar na história!

Até que ela cruzou o seu caminho. Ela, que vestia-se como uma cigana; ela, que falava como uma cigana; ela, que dançava como uma cigana. Ele aprendera desde cedo, desde sempre!, e é claro, era claro, que ela era uma cigana. Soube disso no exato instante em que permitiu que seu olhar recaísse sobre ela e suas vestes miseráveis, assim que encontrou seus pés descalços desenhando formas irregulares sobre o chão de terra batida, fazendo com que a poeira tivesse a ousadia de alcançar seu nariz fino e alérgico, e então os olhos, agora irritados e lacrimejantes. Pobre Rei. Nunca chorara por ninguém, mas se permitiu derramar uma lágrima involuntária por causa dela. Deveria ter percebido naquele momento, tão exímio que era, que alguém que lhe tirasse lágrimas não deveria continuar respirando de maneira tão insinuante como ela fazia.

É verdade, talvez ele tivesse reparado demais na cor de sua pele, tão corada e bronzeada e castanha que era; parecia tão saudável, tão mais saudável que sua Rainha prostrada logo ao lado! Uma triste estátua de cera – bela, é claro que era bela!, mas triste. E de cera. Tediosa, era o que pensava.

O Rei não teve culpa. Era francês, e, ainda que reinasse a Bretanha, não poderia ter conhecimento da existência de Ana, uma vez que até então não era nascida. Logo, ele não sabia, como não saberia, dos perigos existentes em sucumbir a um capricho real. Mesmo o menor deles, mesmo que tal capricho se limitasse ao corpo cheio de cor de uma cigana qualquer. Pobre Rei. Religioso que era, pedia perdão a Deus todas as noites pela volúpia de seus pensamentos, e, depois, já com a cigana em seus braços e em sua cama, pedia perdão pelo adultério cometido contra sua Rainha de Cera.

O Rei nunca pediu perdão por aprisionar uma cigana num quarto; ele deveria saber, mas não sabia até então, que ciganos nasceram do vento, viviam com o vento, e morriam com o vento. Sua vida era rápida, tanto quanto seus pés conseguiam ser durante uma dança. O Rei nunca pediu perdão por isso, porque em momento algum julgou ser pecado deixá-la esperando, noite após noite, sem nunca deixá-la sair. Ele sabia, tinha certeza, de que ela entenderia seu medo de deixá-la ir embora. Já fazia tempo, ele se entregava às carícias dela com tanto desespero, acreditando ser correspondido com tanta fé e ingenuidade, que jamais percebeu que ela chorava não de emoção, mas sim por horror; que se no início ela resistia e agora aceitava seu toque, não era por amor, mas sim porque já não tinha mais forças para resistir. O Rei não via; deixou-se cegar pela pele cor de cobre, e pelos movimentos harmônicos de seus braços e pernas, e se um dia fora exímio agora era apenas tolo.

Pobre Rei. Os súditos comentaram (é claro!), Sua Rainha de Cera notou (como não?). Mas ninguém ousou elevar a voz para Sua Majestade enquanto este definhava uma doença que apelidara de amor - mais tarde, a isso dariam o nome obsessão, mas pra quem tudo era apenas capricho, qualquer continuidade que se desse ao sentimento podia ser amor, não é?

Afinal, tudo parecia tão diferente de uma mera vontade! Tão doce ele era ao presentear-lhe com jóias caras e roupas deslumbrantes, que não fosse o fato dele tirar-lhe a essência de sua existência, quem sabe ela, sua rom, não se apaixonaria de volta? Não, não por causa dos presentes, mas pela doçura nos olhos dele. Pelo carinho contido em sua voz. Tão real e tão intenso! Quem sabe a recíproca não fosse verdadeira com janelas sem grades e portas destrancadas? Oh, sim, ela sugeriu isso certa vez. Tão cansada, tão desesperançada, tão distante da saúde que tanto encantara o Rei. Ele assentiu, é claro. Tão cego, tão envolvido em sua mentira, tão distante de seu olhar crítico que outrora tanto lhe rendera elogios. Um pobre tolo apaixonado, era isso o que ele era; de Rei ostentava apenas o título, porque de si mesmo já deixara de ser dono.

Foi então que aconteceu: de Sua Majestade, ao Bobo da Corte! 

Nunca uma queda foi tão rápida, foi o comentário dos criados ao descobrir que, sim, ela fugira. Bastou uma noite sem amarras, e ela logo correra para longe do manto real, onde já se viu tamanho desaforo? Há quem diga que levou algumas das roupas e algumas das jóias, não haveria o Rei de sentir-se traído? Tantos anos ensinando o Rei a se proteger, tantos inimigos executados, e é derrotado por um rabo de saias! O que diriam os que vieram antes de nós, se fossem vivos? A França jamais será a mesma se o escândalo correr antes do Rei, se apressaram a dizer os conselheiros, e eles estavam certos, como sempre estiveram.

Bastou um decreto. O Rei pensou que ela era uma Cigana muito tola, se acreditava numa fuga bem sucedida. Lamentou o feito porque decidiu que viveria com ela até o fim de seus dias, se ela não tivesse atravessado tantas portas e janelas para longe de si, mas a esse lamento os conselheiros deram um nome e chamaram feitiçaria - o Rei concordou e repetiu "feitiçaria, feitiçaria", mas quem diria? Bastou um decreto para tê-la novamente aos seus pés, jogada com violência por um de seus soldados. Quase sorriu de satisfação, não sentisse tanta dor por ter sido enganado e traído e roubado. Não era amor; era ódio e era repulsa e era vingança, mas não amor. Apesar de não estar vestida com nada que lhe dera, tinha absoluta certeza de que fora também roubado - era o que diziam, afinal! E ele acreditava, ingênuo, como acreditou na primeira dança dela, e então depois, quando acreditou em suas palavras de que poderiam ser felizes juntos- mas isso foi antes dela resolver pular uma janela. 

Bem. Ele esperou que ela também acreditasse que poderia ser feliz sem uma cabeça.

Tão bonito, o ele pensou, ao observar a cena do alto de Sua Majestade. A cabeça dela rolou em praça pública, no centro da Cidade Luz. A pedido do Rei, não houve vaso ou bacia aguardando pelo seu crânio, de modo que este caiu sobre o chão de terra batida com um baque surdo, e rolou suavemente  de um lado para o outro, como se dançasse, o sangue esguichando e manchando a terra, os músculos de sua face ainda contraídos, enquanto o restante de seu corpo tombava para o outro lado, dentro de um belíssimo vestido verde-esmeralda bordado em fios de ouro. Tão bonito! Em seu pescoço decapitado, uma jóia solitária - uma gargantilha de ouro somada a uma também esmeralda, talvez? Havia quem dissesse que fora presente do Rei, embora o boato fosse de que morreu usando tudo o que levara do palácio. O Rei sabia a verdade, entretanto: viveu sua cigana, morreu sua Rainha, uma de carne e osso. Um preço justo. Jamais admitiria que morresse de outra forma, não seria bom para sua imagem de Rei que ela morresse miserável ou sem que lhe tirasse algo além da vida. Deu-lhe roupas e tirou-lhe a cabeça, então. Sim, muito justo que perdesse a cabeça aquela que arrancara o coração do Rei. Era o que achava, e era o que não dizia a ninguém mais que não a si mesmo, ainda que os criados especulassem entre si. Muito justo, pensou, enquanto a poeira levantada pelo que restara da cigana alcançava seu nariz fino e alérgico - cigana. Deveria ter percebido antes, logo quando deixara escapar a primeira lágrima involuntária, e não a segunda, mas era muito justo que fosse assim.

Ao público e ao cadáver deu as costas. Repetiu para si mesmo, "feitiçaria, feitiçaria".

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