sexta-feira, 12 de novembro de 2010

nirvana

Nada me dói. Nenhum osso, nenhum músculo, nenhum tendão. Talvez me doa só a cabeça, mas pelas noites ruins de sono, que mesmo sendo noites ruins de sono não abalam meu humor, não abalam meu espírito, e não mudam o fato de que o resto das coisas não dói. É uma sensação boa, essa, a de respirar sem angústia, sem tragédia, sem horror. Eu olho em volta, absorvo o mundo, me entrego ao mundo, estou em paz. Não feliz, não satisfeita, mas em paz. Uma serenidade tão boa que não me sinto compelida a me desfazer dela agora. A vida continua cruel e faceira, mostrando seus dentes arreganhados para mim, querendo minha jugular, querendo me rasgar tão fundo até alcançar minhas carótidas e impedir que meu coração irrigue o cérebro. Ela me quer de dentro pra fora, me quer carniça, me quer cadáver, e eu só a quero bem. Tudo bem. Eu aceito e digo que aceito pra que ela saiba. Vida, tá tudo bem. Esses dentes, esse sangue, esse desvairamento, esse esmagamento contra a parede. Tá tudo bem. Eu abraço a vida, e ela se debate entre meus braços, tremendo, com espasmos, com medo, sem mais dentes arreganhados ou sangue, só pavor. Eu abraço a vida, com mais firmeza ao invés de força, e ela se amansa entre os meus braços. Nada me dói, e ela não se dói. Estamos em paz.

Um comentário:

Atreyu disse...

Definitivamente sua crônica retrata um ápice de total realização pessoal e paz interir... o medo é que depois do ápice sempre vem a parte ruim... enfim LINDO (achei que tu fosse falar da banda, adoro eles)