segunda-feira, 29 de novembro de 2010

mashup

Toda história tem dois lados. Eu conheço uma que tem três.

Train

Sua paixão é seu nome. Oito vagões de suspiros e lágrimas e discussões e tentativas de entender o porquê desses trilhos não te levarem a lugar algum. Você acredita em músicas que falam de irmãos e de almas. Você é tão ingênua e tão cega. Eu te olho, e olho seu desgoverno e descontrole, e não acredito que você saiba o que está fazendo, não acredito que você saiba com quem ou o quê está lidando. Você tem a idade que tem, mas o mundo para do teu lado pra dizer que você é muito mais nova e inexperiente que ele, e eu queria muito que você entendesse e aceitasse isso.

Você fuma em estações vazias, e escreve nas paredes atrás dos bancos todas as coisas nas quais você pensa e as quais você gostaria que fossem verdade. Você tem uma marca de lábios no lobo frontal esquerdo do seu cérebro, e eu tenho certeza de que isso te mudou para sempre, mas mudou muito mais pela importância que você deu a tudo isso, do que pelo fato de ter mudado em si.

É sério, queria que você se ouvisse cantar sem todo esse som de metal contra metal, queria que você se ouvisse cantar como eu te ouço, e que sabe assim você não percebesse e entendesse que sempre haverá a possibilidade de não haver nenhum Mr. Mister tocando no rádio? Ainda que isso te doa, ainda que assim você não queira mais dançar. 

Hey, hey. Eu só não quero que você perca a si mesma essa noite.

Maroon 5

Eu olho pra você e me dá vontade de repetir pra sempre que tu será amada. Não sei se tão teus olhos, ou jeito que tu pede pra eu não me preocupar tanto, ou jeito que você se preocupa com o fato de eu me preocupar tanto. Você com essa coisa de falar alto e ter a última palavra, menina mimada, menina chorona. Você é esse personagem que eu daria tudo pra ter escrito, e penso que faz sentido você ser filha de quem é.

Mas aí eu te vejo quieta, aí eu te vejo impaciente e pixando muros com as suas lamentações, e entenda, eu sei de paredes, eu sou um quarto de paredes tatuadas, e sei exatamente do que você está falando quando você desabafa ou deixa pelo caminho um rastro dos pequenos pedaços de si mesma. São pistas. E é por isso que te encontro assim, refugiada, e eu quero que você diga tudo, e eu quero cantar junto contigo, e então você finalmente diz tudo e eu não acho que você precise se sentir culpada por isso: sou eu quem está pedindo que você cante, que você levante a sua voz por um momento. Te ouvir não é um favor, minha querida.

Lembra disso quando for dormir. Essa é a única música que eu consigo lembrar, mas pra mim tudo meio que remete a isso. Eu espero que tu seja amada, e eu acredito que tu será amada. Eu acredito em karma, tu vê. E te vejo de longe sem compor nada novo, e te vejo sozinha esperando por algo, talvez uma inspiração, talvez exercitando a paciência com os outros, consigo mesma, com o mundo.

Eu gosto de você pela lealdade. É ela quem me puxa pelo pulso e faz eu querer olhar dentro dos teus olhos e dentro da tua alma. Eu te acho bonita. Bonita o bastante pra ser amada de novo, pra ser amada por eles, pra ser amada por mim. Você me dá vontade de cantar junto.

Eu vou cantar junto contigo, e estou esperando que eles cantem também.

Beatles

A parte que eu conheço de você, e que eu acabo reconhecendo em mim, é essa impaciência latente para as pessoas num geral. E eu falo assim "pessoas num geral" porque sei que, como eu, quando você quer você pode ser apenas você, todo brincadeiras e aleatoriedades e confortável em si mesmo, sabe? Sem toda essa educação e polidez que te faz sorrir quase mecanicamente, desejando um bom dia a todos, e fazendo favores que você poderia fazer para qualquer um só porque você tem essa necessidade de ajudar as pessoas, mesmo que não se importe tanto, mesmo que não se importe a esse ponto.

Eu gosto da maneira como você canta que quer segurar as mãos de alguém, da maneira que você canta que amor é tudo o que se precisa, e que sempre haverá um campo de morangos para se andar. Eu adoro tudo isso, todo o seu discurso, porque me faz acreditar que as coisas podem realmente ser boas, já que você acredita tanto nisso, mas ao mesmo tempo é tão irônico que você, justo você que acredita no pra sempre, tenha se separado tão cedo! É tão irônico que parte de você tenha morrido!

Eu não sei. Você é essa banda que caiu no gosto popular, e certamente tem gente que não vai com a sua cara, mas há sempre quem se renda, há sempre quem se envolva contigo, ou queira se envolver. E você fica esperando que todos os seus fãs acabem se tornando como aquele que matou o John. Só que as coisas não são assim. Elas não precisam ser assim.

Quando coloco a sua existência dessa forma, fico confusa sobre tudo aquilo o que você representa. Você parece ter cantado músicas que nunca viveu.

Shuffle

Você toca os três. Você ouve os três. Você quer os três.

Hey, soul sister, please don't try so hard to say goodbye - I wanna hold your hand.



domingo, 28 de novembro de 2010

random notes

# ouço She Will Be Loved como note to myself.

# sempre que eu não sei como tô me sentindo, procuro fotos dos meus tênis pra usar como imagem de exibição. de alguma forma, ver aquele all star surrado e pintado de canetinhas me dá um ânimo e um tipo bizarro de esperança que não fazem sentido de ser, mas acho que faço isso talvez pra lembrar a mim mesma que eu sempre posso ter todas as estrelas sob meus pés.

# em dias como esse, eu penso que o Caio me entenderia, e fico esperando os Maurícios, os Paulos, e todas as pessoas a quem ele deu vida pra me fazer companhia. às vezes elas fazem companhia.  às vezes duas retas paralelas se encontram no infinito.

# quando eu me sinto meio perdida, ou desnorteada, ou distante das coisas e das pessoas, eu abro minha pasta de músicas e fico descendo e subindo o scroll como estou fazendo agora, procurando as músicas que mais se parecem comigo no momento, e as músicas que eu gostaria de ser. acabei de tocar The Only Exception, mas não pensei em ninguém.

# She Will Be Loved [play][repeat]

sábado, 27 de novembro de 2010

starts with you

No ano do SWU eu não fui a nenhum show do evento, e hoje eu nem me importo tanto, pra ser sincera.

Eu lembro do meu feriado, e sei que ele foi agradável. Eu penso no meu ano, e sei que ele valeu a pena.

E olhando agora pra trás, eu me sinto bem com tantas coisas! Eu me sinto bem com muitas coisas que começaram, que foram começadas por mim. E eu estou me sentindo orgulhosa por tudo isso. Por ter tido vontade, por ter feito as minhas vontades, por ter aproveitado os meus caprichos e corrido atrás das coisas que eu acreditava serem boas pra mim e que de certa forma foram mesmo - academicamente, profissionalmente, emocionalmente. É uma sensação tão engraçada e gostosa essa. Porque eu não acertei sempre esse ano. Mas o tempo todo eu tentava converter tudo pra um acerto.

2010 ainda não acabou. Tenho menos posts do que no ano passado. Mas de alguma forma eu sei que registrei mais as coisas, o mundo, tudo. Eu senti minha vida passando, e eu não era mera espectadora.

No ano do SWU, eu fiz as coisas começarem comigo.

E elas começaram.

u

Nesse exato momento, uma série de coisas está passando pela minha cabeça.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

significado

Você me faz pensar em uma música que começa com a gente cantarolando, antes de entrar qualquer instrumento ou vocal. Eu fico repetindo isso mentalmente até fazer algum sentido pra mim. Até que faz sentido. E quando faz sentido, tem um lago e um pôr-do-sol nascendo na minha cabeça, uma fotografia inventada de um lugar onde o som do vento nas árvores faz lembrar essa melodia que estou cantando pra você. É tudo um sonho, meu amor. Onde eu vou acordar de manhã e você não vai estar do meu lado. É tudo um sonho, meu amor. Onde eu vou acordar de manhã e vou perceber que não estou do teu lado. E isso me faz pensar. Talvez a gente seja esse sonho estranho na cabeça de alguém. Talvez a gente seja esse destino-fantasia durante uma fase REM. Alguma coisa aconteceu pra gente se cruzar, talvez o universo se alinhando, talvez Júpiter encontrando Urano, talvez Marte entrando em Escorpião, e todas as respostas astrológicas que a vida e os outros podem nos dar. Talvez um sonho, meu amor. Fruto de pálpebras caídas, cílios longos, olhos cansados. Eu e você assim, eu e você e bilhetes de amor, eu e você e calçadas e mãos dadas, eu e você e a paisagem bonita, a gente é o faz de conta mais bonito que eu tive o prazer de viver, de contar e de ser. A gente tem a nossa própria música-tema, e eu a cantarolo sem os instrumentos ou o vocal. Fica melhor assim. É um som que rima com paz. Até que faz sentido.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

nirvana

Nada me dói. Nenhum osso, nenhum músculo, nenhum tendão. Talvez me doa só a cabeça, mas pelas noites ruins de sono, que mesmo sendo noites ruins de sono não abalam meu humor, não abalam meu espírito, e não mudam o fato de que o resto das coisas não dói. É uma sensação boa, essa, a de respirar sem angústia, sem tragédia, sem horror. Eu olho em volta, absorvo o mundo, me entrego ao mundo, estou em paz. Não feliz, não satisfeita, mas em paz. Uma serenidade tão boa que não me sinto compelida a me desfazer dela agora. A vida continua cruel e faceira, mostrando seus dentes arreganhados para mim, querendo minha jugular, querendo me rasgar tão fundo até alcançar minhas carótidas e impedir que meu coração irrigue o cérebro. Ela me quer de dentro pra fora, me quer carniça, me quer cadáver, e eu só a quero bem. Tudo bem. Eu aceito e digo que aceito pra que ela saiba. Vida, tá tudo bem. Esses dentes, esse sangue, esse desvairamento, esse esmagamento contra a parede. Tá tudo bem. Eu abraço a vida, e ela se debate entre meus braços, tremendo, com espasmos, com medo, sem mais dentes arreganhados ou sangue, só pavor. Eu abraço a vida, com mais firmeza ao invés de força, e ela se amansa entre os meus braços. Nada me dói, e ela não se dói. Estamos em paz.

lembra mesura

Sentar e cruzar as pernas, descruzar as pernas e levantar, ficar inquieta e querer dançar. Dançar. Abrir os braços, então; olhos ao céu e preces sem destinatário, e quem sabe até um universo inteiro pra conceder? Dançar. Porque dançar sozinha ainda é dançar. Laços de pés e pontas dos dedos, se fazendo e desfazendo-se em si mesmos. Girar. Girar, girar e girar! Voltas em torno de si mesma e movimentos do mundo, pensando que talvez ela seja mesmo o mundo. Rir. Sorrir e rir, espremer os olhos e talvez gargalhar, são todas coisas muito diferentes mesmo. Cantar. Cantarolar porque é mais a cara dela, músicas antigas e músicas novas, até chover, até chorar, até cansar ou ao anoitecer, até clarear e talvez tombar, até até até morrer.
 
 
 
 
Olhos ao céu e preces sem destinatário, quem sabe o universo não concede?
 
 

sobre escrever

Quando tinha catorze anos, não sabia que tipo de pessoa eu era ou que tipo de pessoa eu viria a ser quando ficasse mais velha, mas já naquela época eu sabia e tinha certeza de qual sentimento gostaria de levar para o resto da minha vida.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

palavra é uma coisa engraçada, mesmo

No horário do almoço, o seguinte diálogo:

M: Esse doce tá ruim, tá estranho, tá preto!
B: Preconceituoso! Preconceituoso! Como assim preto? Agora tá ruim por que tá preto?
B cutuca as outras pessoas da mesa, e repete o discurso, apontando pra M.
B: Onde já se viu! Dizer que não gosta de preto!
L: Quem disse isso?
B: O M!
M: Eu não disse isso, eu disse que esse doce tá estranho, e tá estranho mesmo, ele tá preto!
B, apontando pra M: Tá vendo? Eu não disse?
L: Não vejo nada demais no que ele disse.
B: ... Não?
L: Não, ué. Você é que é o preconceituoso aqui. *L ri*
B: Como assim? Nãão! Mas por quê?
L: Porra, porque quem tá tendo o pensamento preconceituoso é você, oras.


Acho que o L tem um ponto.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nossa Senhora de Paris


Vestia-se como uma cigana, falava como uma cigana, dançava como uma cigana.

O Rei aprendera, desde cedo, deste antes de sua cabeça ostentar uma coroa e de se tornar rei, que se você tem o caminho cruzado por um animal que parece lobo, que rosna como lobo, e que caminha e se alimenta como lobo, não há dúvida alguma de que esse animal seja um lobo – e que deve ser eliminado, portanto, diziam os educadores. Apenas uma questão de segurança, reforçavam os conselheiros. Identificar e eliminar nada mais era do que um mecanismo de defesa, eles sentenciavam. Do contrário, toda a coroa poderia ficar à mercê de aproveitadores inescrupulosos, e, oh, é claro que o Jovem Príncipe e Futuro Rei não gostaria de colocar toda a sua família, a sua história, e seu nome em risco, não é? Não, não, é claro que não. 

O Rei aprendera ainda criança, ainda Pequeno Príncipe, e àquela altura já estava cansado de ter de lidar com esse tipo de gente, mas permanecia eficaz. Era exímio em identificar e em decretar a ordem de extermínio – tão fácil quando se possui uma coroa para exibir sentado num trono tão imponente! Seu reino estaria para sempre seguro, o nome de sua família, seu lugar na história!

Até que ela cruzou o seu caminho. Ela, que vestia-se como uma cigana; ela, que falava como uma cigana; ela, que dançava como uma cigana. Ele aprendera desde cedo, desde sempre!, e é claro, era claro, que ela era uma cigana. Soube disso no exato instante em que permitiu que seu olhar recaísse sobre ela e suas vestes miseráveis, assim que encontrou seus pés descalços desenhando formas irregulares sobre o chão de terra batida, fazendo com que a poeira tivesse a ousadia de alcançar seu nariz fino e alérgico, e então os olhos, agora irritados e lacrimejantes. Pobre Rei. Nunca chorara por ninguém, mas se permitiu derramar uma lágrima involuntária por causa dela. Deveria ter percebido naquele momento, tão exímio que era, que alguém que lhe tirasse lágrimas não deveria continuar respirando de maneira tão insinuante como ela fazia.

É verdade, talvez ele tivesse reparado demais na cor de sua pele, tão corada e bronzeada e castanha que era; parecia tão saudável, tão mais saudável que sua Rainha prostrada logo ao lado! Uma triste estátua de cera – bela, é claro que era bela!, mas triste. E de cera. Tediosa, era o que pensava.

O Rei não teve culpa. Era francês, e, ainda que reinasse a Bretanha, não poderia ter conhecimento da existência de Ana, uma vez que até então não era nascida. Logo, ele não sabia, como não saberia, dos perigos existentes em sucumbir a um capricho real. Mesmo o menor deles, mesmo que tal capricho se limitasse ao corpo cheio de cor de uma cigana qualquer. Pobre Rei. Religioso que era, pedia perdão a Deus todas as noites pela volúpia de seus pensamentos, e, depois, já com a cigana em seus braços e em sua cama, pedia perdão pelo adultério cometido contra sua Rainha de Cera.

O Rei nunca pediu perdão por aprisionar uma cigana num quarto; ele deveria saber, mas não sabia até então, que ciganos nasceram do vento, viviam com o vento, e morriam com o vento. Sua vida era rápida, tanto quanto seus pés conseguiam ser durante uma dança. O Rei nunca pediu perdão por isso, porque em momento algum julgou ser pecado deixá-la esperando, noite após noite, sem nunca deixá-la sair. Ele sabia, tinha certeza, de que ela entenderia seu medo de deixá-la ir embora. Já fazia tempo, ele se entregava às carícias dela com tanto desespero, acreditando ser correspondido com tanta fé e ingenuidade, que jamais percebeu que ela chorava não de emoção, mas sim por horror; que se no início ela resistia e agora aceitava seu toque, não era por amor, mas sim porque já não tinha mais forças para resistir. O Rei não via; deixou-se cegar pela pele cor de cobre, e pelos movimentos harmônicos de seus braços e pernas, e se um dia fora exímio agora era apenas tolo.

Pobre Rei. Os súditos comentaram (é claro!), Sua Rainha de Cera notou (como não?). Mas ninguém ousou elevar a voz para Sua Majestade enquanto este definhava uma doença que apelidara de amor - mais tarde, a isso dariam o nome obsessão, mas pra quem tudo era apenas capricho, qualquer continuidade que se desse ao sentimento podia ser amor, não é?

Afinal, tudo parecia tão diferente de uma mera vontade! Tão doce ele era ao presentear-lhe com jóias caras e roupas deslumbrantes, que não fosse o fato dele tirar-lhe a essência de sua existência, quem sabe ela, sua rom, não se apaixonaria de volta? Não, não por causa dos presentes, mas pela doçura nos olhos dele. Pelo carinho contido em sua voz. Tão real e tão intenso! Quem sabe a recíproca não fosse verdadeira com janelas sem grades e portas destrancadas? Oh, sim, ela sugeriu isso certa vez. Tão cansada, tão desesperançada, tão distante da saúde que tanto encantara o Rei. Ele assentiu, é claro. Tão cego, tão envolvido em sua mentira, tão distante de seu olhar crítico que outrora tanto lhe rendera elogios. Um pobre tolo apaixonado, era isso o que ele era; de Rei ostentava apenas o título, porque de si mesmo já deixara de ser dono.

Foi então que aconteceu: de Sua Majestade, ao Bobo da Corte! 

Nunca uma queda foi tão rápida, foi o comentário dos criados ao descobrir que, sim, ela fugira. Bastou uma noite sem amarras, e ela logo correra para longe do manto real, onde já se viu tamanho desaforo? Há quem diga que levou algumas das roupas e algumas das jóias, não haveria o Rei de sentir-se traído? Tantos anos ensinando o Rei a se proteger, tantos inimigos executados, e é derrotado por um rabo de saias! O que diriam os que vieram antes de nós, se fossem vivos? A França jamais será a mesma se o escândalo correr antes do Rei, se apressaram a dizer os conselheiros, e eles estavam certos, como sempre estiveram.

Bastou um decreto. O Rei pensou que ela era uma Cigana muito tola, se acreditava numa fuga bem sucedida. Lamentou o feito porque decidiu que viveria com ela até o fim de seus dias, se ela não tivesse atravessado tantas portas e janelas para longe de si, mas a esse lamento os conselheiros deram um nome e chamaram feitiçaria - o Rei concordou e repetiu "feitiçaria, feitiçaria", mas quem diria? Bastou um decreto para tê-la novamente aos seus pés, jogada com violência por um de seus soldados. Quase sorriu de satisfação, não sentisse tanta dor por ter sido enganado e traído e roubado. Não era amor; era ódio e era repulsa e era vingança, mas não amor. Apesar de não estar vestida com nada que lhe dera, tinha absoluta certeza de que fora também roubado - era o que diziam, afinal! E ele acreditava, ingênuo, como acreditou na primeira dança dela, e então depois, quando acreditou em suas palavras de que poderiam ser felizes juntos- mas isso foi antes dela resolver pular uma janela. 

Bem. Ele esperou que ela também acreditasse que poderia ser feliz sem uma cabeça.

Tão bonito, o ele pensou, ao observar a cena do alto de Sua Majestade. A cabeça dela rolou em praça pública, no centro da Cidade Luz. A pedido do Rei, não houve vaso ou bacia aguardando pelo seu crânio, de modo que este caiu sobre o chão de terra batida com um baque surdo, e rolou suavemente  de um lado para o outro, como se dançasse, o sangue esguichando e manchando a terra, os músculos de sua face ainda contraídos, enquanto o restante de seu corpo tombava para o outro lado, dentro de um belíssimo vestido verde-esmeralda bordado em fios de ouro. Tão bonito! Em seu pescoço decapitado, uma jóia solitária - uma gargantilha de ouro somada a uma também esmeralda, talvez? Havia quem dissesse que fora presente do Rei, embora o boato fosse de que morreu usando tudo o que levara do palácio. O Rei sabia a verdade, entretanto: viveu sua cigana, morreu sua Rainha, uma de carne e osso. Um preço justo. Jamais admitiria que morresse de outra forma, não seria bom para sua imagem de Rei que ela morresse miserável ou sem que lhe tirasse algo além da vida. Deu-lhe roupas e tirou-lhe a cabeça, então. Sim, muito justo que perdesse a cabeça aquela que arrancara o coração do Rei. Era o que achava, e era o que não dizia a ninguém mais que não a si mesmo, ainda que os criados especulassem entre si. Muito justo, pensou, enquanto a poeira levantada pelo que restara da cigana alcançava seu nariz fino e alérgico - cigana. Deveria ter percebido antes, logo quando deixara escapar a primeira lágrima involuntária, e não a segunda, mas era muito justo que fosse assim.

Ao público e ao cadáver deu as costas. Repetiu para si mesmo, "feitiçaria, feitiçaria".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

o que a gente diz

 
Acho que as duas têm razão. Acho que há drama, acho que há exagero, mas só não acho que seja sobre o amor. Acho que é sobre a vida e a morte, sobre o jeito que Sarah enxerga a vida, essa ideia irônica de que ela é uma contagem regressiva para o funeral. Acho que amar ainda é observar alguém morrer, mas não desse jeito. Não necessariamente em uma tragédia, não necessariamente em um leito de hospital. Talvez tenha mais a ver com estar junto até a hora da morte, do que na hora da morte em si. É só uma hipótese. Eu não sou ela, e muito menos sou Sarah. Então não posso ter certeza.