sexta-feira, 17 de setembro de 2010

#4

Aos meus queridos:

Enquanto escrevo essa carta, vejo você dormindo, Teso, e vejo você se distraindo, Beto. Enquanto escrevo essa carta, vejo vocês dois assim de longe mesmo estando perto, e me pego lembrando da época em que não haviam espinhas ou pelos nos rostos de vocês; época em que a voz saía meio aguda, totalmente infantil, e a língua enrolava e vocês não conseguiam pronunciar o "ele" do meu nome: "Caronina", vocês diziam e repetiam e gritavam e faziam birra.

Enquanto escrevo essa carta me dá uma saudade tão grande daquela época, meninos, porque eu soube, eu sempre soube, que ela não duraria muito. Logo logo vocês teriam a minha idade e, por deus!, eventualmente fariam as mesmas coisas que eu, e isso era tão aterrorizante! Sempre foi aterrorizante demais pensar que um dia vocês poderiam se magoar e se machucar tanto quanto eu, senão mais, entendem? A ideia dos seus corações quebrados, partidos, me dói tanto tanto tanto, que é como se fosse a minha dor multiplicada infinitas vezes por números exponenciais, intransponíveis e inimagináveis! Eu nunca desejei isso pra vocês, sempre quis que vocês tivessem as minhas coisas boas, jamais isso, jamais esse sentir demais, esses corações colados às pontas dos dedos, esses olhos de caleidoscópio e esse peito inflável, os braços e os sonhos ao redor do mundo. Mas meu desejo foi em vão, e vocês cresceram rápido, cresceram tocando músicas tristes e escrevendo tragédias de amor. Tão teatrais! Tão dramáticos, tão sinceros, tão ingênuos!

Queria dizer que nada disso vai doer, meninos. Queria dizer que depois de um tempo melhora, mas eu já esbarrei naquilo que vocês não têm coragem de me mostrar e sei que não tem mais volta. O peito de vocês vai inflar tanto que vai parecer prestes a explodir, e vocês vão querer que exploda de uma vez, mas daí ele vai esvaziar aos poucos até que comece tudo de novo.

Vocês não são como eu, sei disso. Calhou só de vocês também amarem demais, e é por isso que sei que vão sofrer demais, também, porque vocês vão sentir tudo, e tudo será de verdade, e a verdade é sempre confusa, muitas vezes dolorida, mas é também uma espécie de compensação quando todo o resto vai mal e uma espécie de benção quando tudo vai bem - acreditem, algumas coisas podem ir bem, também. Mas isso vocês já sabem. Não nasceram sabendo, mas aprenderam rápido, porque escritores que são, compositores que são, apaixonados que são, o mundo se encarregou de ensinar.

Ah. Sou a irmã mais velha aqui e me sinto tão ausente! Queria que vocês soubessem que não precisam passar por tudo isso sozinhos. Essa quest não precisa ser solitária, vocês não precisam ser mártires, sempre aparece um guerreiro novo pra fazer parte do grupo, e eu não ligo de ser a Maga de Cura de vocês, de qualquer forma, não ligo nem de morrer tentando, se for o caso. Eu quero só que vocês fiquem bem, meus amores. Esse sempre foi o meu desejo pra vocês. O maior deles.

Amor pra sempre da irmã de vocês,

Carolina.

Nenhum comentário: