quarta-feira, 11 de agosto de 2010

eterno retorno

Começo a escrever esse post às 23:39.

Dá pra fechar os olhos e sentir o frio. Eu tô apaixonada, tô tão apaixonada por ela. Dia vinte a gente se encontra direito, só nós duas. Dia vinte a gente se vê com calma, e aí eu descubro se ela sente o mesmo, porque parece que sente, juro que parece. De repente o brilho da tela do computador refletindo no meu rosto, e então aquela sensação estranha de algo fora do lugar ao ouvir meu tio chamando no meio da noite. Foi um feliz dia dos pais, mas fica aqui a dúvida se ainda era dia dos pais ou se já era o dia seguinte a ele. E ele, o tio, bate na porta umas três vezes, e sou eu que o encontro, os olhos arregalados e os lábios se movendo rápidos, a voz entrecortada perguntando pelo pai. Chama ele lá, sua vó não tá bem. Desce um frio pela espinha, e o medo de que o mal dela se repita daquele jeito enquanto subo as escadas de dois em dois degraus. Ô pai, o tio tá chamando lá embaixo, parece que a vó não tá bem. E o pai desce, porque chamar a mãe, que é filha dela, é algo fora de questão, todo mundo tem medo que a mãe fique nervosa de novo, o suficiente pra desencadear todos aqueles problemas. 

Quinze segundos. 

Eu sento de novo na minha cadeira macia e fico olhando a tela do computador: eu tô apaixonada, tô tão apaixonada! E perco tanto tempo estando apaixonada, que quando percebo o pai já subiu de novo pra ver se a mãe deu falta dele na cama, e vem me dizer então que se a mãe por acaso acordar, pra dizer que ele tá lá vendo umas coisas do computador, porque ele não quer que ela veja como é que tá a vó. Ela tá ruim assim, pai? Ele franze o cenho daquele jeito preocupado que eu conheço e diz que tá, tá sim. Banheiro tá todo sujo de sangue, vou ajudar seu tio a limpar lá embaixo enquanto sua tia leva ela pro hospital. Eu fico parada no corredor. A tia-vó tinha morrido um dia antes, o enterro foi naquele dia, eu sentiria falta, que sensação bizarra essa. O pai coloca a mão no meu ombro, antes de me dar as costas e descer a escada de novo. Eu volto pra minha cadeira macia, volto a olhar a tela do pc, e volto a ficar apaixonada. Só que agora eu estou preocupada também.

Uma noite inteira.

E acordo, e a vó continua no hospital, e o pai tá em casa às 11h da manhã e isso é estranho, e a gente vai pro trabalho juntos, e eu percebo que é um dia muito bonito de agosto. Dia onze segunda-feira e céu azul sem nuvens, sol agradável, dia muito bonito mesmo de agosto. Mesmo no trabalho, mesmo do trabalho. E eu apaixonada, preocupada, externando apatia.

Duas horas e meia.

Estou falando com um homem que acabou de bater o carro e precisa de um guincho. Eu peço um momento pra ele porque minha supervisora quer falar comigo, mas quando ouço a voz do meu pai no telefone dela, eu sei que é porque minha vó não tá mais viva.

...

A vida é uma coisa muito estranha mesmo, né? Eu já chorei, chorei, chorei. Tô aqui presa num engarrafamento na linha vermelha, vendo o pôr do sol da janela do táxi, e o corpo da minha vó tá em algum lugar que eu não sei onde. Última vez que vi minha vó foi na última sexta-feira, e tenho medo de vê-la morta e de lembrar dela morta. Não quero. Penso no meu primo de nove anos e no quanto isso vai doer pra ele; penso nos meus irmãos e no quanto eu não queria que eles chorassem por isso nessa idade; penso na minha mãe e fico morrendo de medo de tudo aquilo voltar. Não penso em mim mesma porque não sobra tempo pra pensar em mim mesma enquanto o sol se põe, minha vó se põe, e eu não. Eu fico aqui vendo o trem passar.

Não sei quando.

Na certidão de óbito diz que ela sofreu duas paradas cardíacas. Não resistiu à segunda porque tinha perdido muito sangue. Penso ah, então foi assim. Então foi assim.



Engraçado como não lembro dia onze no ano passado, mas lembro dia onze há dois anos.
Termino esse post às 00:20.
Hoje.

2 comentários:

r. disse...

doce e triste. :*

.moony. disse...

*emotico do abraço que fica estranho reproduzido aqui*