quinta-feira, 19 de agosto de 2010

faroeste caboclo

Enquanto descia do ônibus, voltando pra casa, pensei ter visto alguém que não via há anos. Um garoto que fez parte de parte da minha infância/adolescência. Não lembro o nome dele, pra sincera, lembro só de como era conhecido aqui no bairro - Mudinho. Na época em que o conheci, devia ter uns treze ou quatorze anos, enquanto eu tinha onze ou doze. Ele era surdo desde o nascimento, o que fez com que não aprendesse a falar também. 

Sabe, quando lembro do Mudinho, lembro da malícia. Lembro da maneira como ele olhava pra mim, e para o restante das coisas, para minha casa, e de certa forma para minha vida. Ele chegou a roubar algumas vezes, mas não aqui. Lembro da minha tia de consideração, aquela que o acolheu e decidiu que tomaria conta dele, falando alto sobre como ele não tinha mais jeito. Teria sido a segunda ou terceira vez que ele fazia isso, e ela já não sabia o que fazer, que ela estava tentando dar uma vida melhor pra ele, mas que ele continuava com esses maus hábitos.

Não tenho certeza se o Mudinho era má pessoa. Em algum desses natais, lembro de tê-lo visto receber um presente, algo infantil e que no momento não me recordo com exatidão do que seja, e de ter ficado boba e genuinamente feliz com o agrado. Parecia criança de novo, feliz e só feliz, sem aquele olhar estranho, sem aquela gana de ter e de ter e de ter.

Sempre tive um pouco de medo dele. Não pela cor da pele, não pela condição social, não porque ele se comunicava de maneira agressiva ou produzindo sons altos e ininteligíveis. Tinha medo dele por causa daqueles olhos pretos que me engoliam, que pareciam sugar minha alma e desejar minha vida com todas as forças. Tinha medo do que ele poderia fazer pra ter isso tudo, porque eu sempre senti que ele queria demais, com uma intensidade assustadora, e que poderia fazer e faria qualquer coisa, se tivesse a oportunidade.

Mas não era bem sobre isso que eu queria falar. Eu queria falar que há alguns anos, talvez uns dois anos, eu encontrei o Mudinho na rua, e ele estava todo mal vestido e mal cuidado. Ele estava discutindo com alguém, e se movimentava estranho, como se dançasse, como se estivesse bêbado, como se estivesse louco. O Mudinho ainda tinha aquele olhar intenso, mas devia ser como o olhar de alguém que tivesse acabado de morrer. Era meio desvairado, sabe? Mas também era fora de foco, triste, assustador - algo suficientemente forte pra rasgar tua pele e teus músculos, se fosse algo capaz de cortar.

Não sei. As coisas pro Mudinho foram muito difíceis e muito ruins desde o início, e isso me fez pensar que às vezes a vida da pessoa começa assim, toda ferrada e toda errada desde o início, e que é possível que essa vida termine do mesmo jeito, toda ferrada e toda errada também. Não que a vida do Mudinho tenha acabado, sabe, mas quais as chances dele se recuperar agora na vida adulta de toda uma vida fodida? O que é o mundo pra ele senão um lugar desgraçado, onde ele não teve um pingo de sorte?

Mais uma olhada rápida na lembrança que tenho dele, e uma pergunta que não espera por resposta: "por onde é que tu anda, Deus?".

2 comentários:

amanda disse...

por mais vazio/igual que esse comentário pareça, eu adoro o teu blog. não sei como me senti em relação a esse post, mas sei como já me senti em relação a tantos outros. tomei coragem pra voltar pro meu influenciada pela tua poesia/naturalidade em tudo aqui. :*

Bruno Melo disse...

Achei sua racionalidade perfeita. As pessoas sempre tendem a pensar que tudo vai terminar bem, e exatamente por não se preparar para qualquer futuro, acabam se decepcionando mais.

Eu mesmo devo admitir, que esperava no fim da história, que você tivesse encontrado o "mudinho" em uma vida diferente, e diferente para melhor.

Mas como você falou, a vida dele ainda não acabou, então ainda há uma chance, sei lá, eu gosto de esperança.

Adorei o texto ;*