segunda-feira, 23 de agosto de 2010

#16

Ah,

É engraçado. Estou pensando aqui há algum tempo, e acho que seria muito mais fácil escrever sobre você do que está sendo escrever para você. É que eu te vejo assim, vejo todo esse teu jeito, e penso que poderia mesmo te escrever, que tu encaixa bem nas minhas histórias, essas tuas roupas, esses teus dentes, esse teu cabelo, sabe? Juro que não é pretensão, mas é que tu me dá essas vontades de pegar uma caneta e sair rabiscando coisas sobre música, sobre cantar e dançar na chuva um rock antigo, sobre usar all star e perder um trem. 

E tu vai além, tu me dá vontade de escrever e me dá vontade de viver isso tudo, também; me dá vontade de rir, de chorar, de abraçar, de estar junto, de sair pra tomar um chá - e eu nem gosto de chá! - ou uma coca-cola. Tu me inspira de um jeito tão adorável que queria muito que tu soubesse disso. Confesso que estou encantada!

E é engraçado pensar que nossas vidas poderiam ter se cruzado de outra maneira, há quatro anos, e que talvez até tenham se cruzado e que se isso aconteceu mesmo a gente nem tem noção de ter acontecido. Não sei. Só sei que os dias passam, e quanto mais tu escreve, quanto mais tu solta as coisas do teu dia-a-dia e de tudo o aquilo que eu não li no teu blog, mais me dá vontade de continuar falando contigo, de ir pra rua contigo e ver onde a gente pode chegar se a gente de repente resolver sair sem rumo.

É que tu parece ser boa companhia, sabe

Está sendo um prazer te conhecer, Rafa.

Todo o amor do mundo, 

Cah.


P.S.: Terei que te ver, quando for pra SP.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

faroeste caboclo

Enquanto descia do ônibus, voltando pra casa, pensei ter visto alguém que não via há anos. Um garoto que fez parte de parte da minha infância/adolescência. Não lembro o nome dele, pra sincera, lembro só de como era conhecido aqui no bairro - Mudinho. Na época em que o conheci, devia ter uns treze ou quatorze anos, enquanto eu tinha onze ou doze. Ele era surdo desde o nascimento, o que fez com que não aprendesse a falar também. 

Sabe, quando lembro do Mudinho, lembro da malícia. Lembro da maneira como ele olhava pra mim, e para o restante das coisas, para minha casa, e de certa forma para minha vida. Ele chegou a roubar algumas vezes, mas não aqui. Lembro da minha tia de consideração, aquela que o acolheu e decidiu que tomaria conta dele, falando alto sobre como ele não tinha mais jeito. Teria sido a segunda ou terceira vez que ele fazia isso, e ela já não sabia o que fazer, que ela estava tentando dar uma vida melhor pra ele, mas que ele continuava com esses maus hábitos.

Não tenho certeza se o Mudinho era má pessoa. Em algum desses natais, lembro de tê-lo visto receber um presente, algo infantil e que no momento não me recordo com exatidão do que seja, e de ter ficado boba e genuinamente feliz com o agrado. Parecia criança de novo, feliz e só feliz, sem aquele olhar estranho, sem aquela gana de ter e de ter e de ter.

Sempre tive um pouco de medo dele. Não pela cor da pele, não pela condição social, não porque ele se comunicava de maneira agressiva ou produzindo sons altos e ininteligíveis. Tinha medo dele por causa daqueles olhos pretos que me engoliam, que pareciam sugar minha alma e desejar minha vida com todas as forças. Tinha medo do que ele poderia fazer pra ter isso tudo, porque eu sempre senti que ele queria demais, com uma intensidade assustadora, e que poderia fazer e faria qualquer coisa, se tivesse a oportunidade.

Mas não era bem sobre isso que eu queria falar. Eu queria falar que há alguns anos, talvez uns dois anos, eu encontrei o Mudinho na rua, e ele estava todo mal vestido e mal cuidado. Ele estava discutindo com alguém, e se movimentava estranho, como se dançasse, como se estivesse bêbado, como se estivesse louco. O Mudinho ainda tinha aquele olhar intenso, mas devia ser como o olhar de alguém que tivesse acabado de morrer. Era meio desvairado, sabe? Mas também era fora de foco, triste, assustador - algo suficientemente forte pra rasgar tua pele e teus músculos, se fosse algo capaz de cortar.

Não sei. As coisas pro Mudinho foram muito difíceis e muito ruins desde o início, e isso me fez pensar que às vezes a vida da pessoa começa assim, toda ferrada e toda errada desde o início, e que é possível que essa vida termine do mesmo jeito, toda ferrada e toda errada também. Não que a vida do Mudinho tenha acabado, sabe, mas quais as chances dele se recuperar agora na vida adulta de toda uma vida fodida? O que é o mundo pra ele senão um lugar desgraçado, onde ele não teve um pingo de sorte?

Mais uma olhada rápida na lembrança que tenho dele, e uma pergunta que não espera por resposta: "por onde é que tu anda, Deus?".

flight 2231

Então eu fui pra Bahia.

Segunda-feira minha chefe perguntou se eu poderia ir pra Bahia com ela, a trabalho, e eu disse que sim. Terça-feira, seis e meia da manhã, já estávamos fazendo o check-in no Galeão para o vôo rumo a Salvador. Tudo muito rápido, sabe? Achei engraçado, diferente, divertido, até! Ok. Acontece que, no fim das contas, estávamos viajando a trabalho, então não havia ninguém me esperando em Salvador, e ninguém me esperando na cidade onde ficaríamos, Vitória da Conquista. Foi bem estranho. Primeira vez que viajei assim, pra longe, foi pra encontrar a Júlia, e quando cheguei em Porto Alegre lá estava ela no aeroporto, junto do Thi, me procurando com os olhos e esperando por mim, sabe? Lembrei disso duas vezes, enquanto retirava minha mala da esteira, em Salvador, e enquanto descia do avião, em Conquista.

As pessoas me perguntam por que não tenho vontade de ir para o Nordeste, por que não tenho interesse em conhecer os lençois do Maranhão. Sabe, não é que não seja bonito. Conquista era uma cidade normal, pra mim, com gente normal. Achei um pouco mal cuidada, é verdade, e sei que tem muito potencial pra crescer, mas é que lá faltou todo o BOOM de se fazer uma viagem, sabe? Ao menos pra mim. Faltou o amor. Essa paixão que me move, faltou gente que me fizesse ver a beleza das pequenas coisas em Conquista, faltou gente que amasse demais aquela pequena cidade pra que eu pudesse olhar duas vezes pra ela. 

Eu não tenho vontade de ir pro Nordesde ou de conhecer os lençois do Maranhão porque lá não tem uma Júlia, não tem uma Gy, uma Mylla, uma Ferfa e uma Beli, e mais um monte de pessoas que me façam olhar pra essas cidades duas vezes e pensar que é um dos lugares mais bonitos que eu visitei. Sabe, eu precisei de alguém pra me mostrar que o Rio de Janeiro poderia ser mesmo muito bonito, então não é preconceito. Não faço questão dos monumentos não, dos pontos turísticos. Porque pra mim, no fim das contas, pontos turísticos são os lugares pelos quais eles andam e são felizes - seja shopping, seja praça, seja a última rua da cidade, ou um meio-fio qualquer.

Viajar a trabalho não tem metade da graça de se viajar a passeio, mas acho que na verdade o que muda tudo é o fato de ter alguém te esperando ou não no portão de desembarque doméstico.

domingo, 15 de agosto de 2010

todos os caminhos até aqui

Tenho um pressentimento muito forte sobre algo que deve acontecer até o final desse mês e/ou início do próximo mês. É algo que tem a ver com ele, comigo, com a vida como ela é hoje, e com como ela será se isso der certo. E pela maneira como as coisas tem acontecido, tudo me leva a crer que vai dar certo - e eu espero mesmo que dê, ainda que. Bem. Falo mais sobre isso depois.

#8

Oi, querida.

Vou ser sincera contigo desde o início: primeira vez que vi  esse item, pensei que não escreveria pra ninguém. Sempre achei que jamais conseguiria escolher um, só um amigo, quando eu tenho tantas pessoas queridas ao meu redor. Tu não foi meu primeiro pensamento, mas a vida é mesmo engraçada, tu vê. Estava relendo a lista, e percebi que, na verdade, eu não poderia escrever pra mais ninguém que não fosse você, aqui. Ainda que já tenhamos nos visto duas vezes, caminhando pra um terceiro encontro; ainda que nossa amizade nem possa ser considerada apenas de internet.

My Favorite One. Foi como te chamei há uns dois anos, lembra? Um trocadilho bonitinho com o teu apelido, e com meu sentimento por você. Minha querida favorita, embora eu nunca tivesse enumerado os motivos para tanto - e mesmo hoje, mesmo depois desse tempo todo, confesso que não sei se conseguiria enumerar ou justificar isso.

É que tu é linda, corazón. Tu é adorável, apaixonante! E desde o início eu quis te proteger de todas as coisas ruins, e eu sei que isso não cabe a mim. Sei que às vezes é necessário que passemos por momentos difíceis, e que por mais que eu queira e deseje que tu não tenha esses momentos difíceis, tu vai tê-los e vai ter de enfrentá-los. E eu vou estar do teu lado, eu vou querer estar do teu lado, pra tu surtar, pra tu chorar, pra tu não falar nada, pra te fazer rir, pra te levar pro topo, pra te mostrar como é bonito o Arpoador - e te lembrar que tu merece coisas tão bonitas quanto ele.

Me espera. Usa aquele pingente quando der, revê as fotos do Arpoador! Tu disse que já tem uma ideia de roteiro pra minha visita, e eu acho que já tenho uma ideia de como amenizar essas suas vontades de não estar em lugar algum do mundo. Vou te mostrar, enquanto estiver aí. Não vai demorar muito, logo logo estou aí. Me espera, My Favorite One

Daquela que te ama tanto,

Holly Golightly.


P.S.: Estou te devendo um ligação.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

eterno retorno

Começo a escrever esse post às 23:39.

Dá pra fechar os olhos e sentir o frio. Eu tô apaixonada, tô tão apaixonada por ela. Dia vinte a gente se encontra direito, só nós duas. Dia vinte a gente se vê com calma, e aí eu descubro se ela sente o mesmo, porque parece que sente, juro que parece. De repente o brilho da tela do computador refletindo no meu rosto, e então aquela sensação estranha de algo fora do lugar ao ouvir meu tio chamando no meio da noite. Foi um feliz dia dos pais, mas fica aqui a dúvida se ainda era dia dos pais ou se já era o dia seguinte a ele. E ele, o tio, bate na porta umas três vezes, e sou eu que o encontro, os olhos arregalados e os lábios se movendo rápidos, a voz entrecortada perguntando pelo pai. Chama ele lá, sua vó não tá bem. Desce um frio pela espinha, e o medo de que o mal dela se repita daquele jeito enquanto subo as escadas de dois em dois degraus. Ô pai, o tio tá chamando lá embaixo, parece que a vó não tá bem. E o pai desce, porque chamar a mãe, que é filha dela, é algo fora de questão, todo mundo tem medo que a mãe fique nervosa de novo, o suficiente pra desencadear todos aqueles problemas. 

Quinze segundos. 

Eu sento de novo na minha cadeira macia e fico olhando a tela do computador: eu tô apaixonada, tô tão apaixonada! E perco tanto tempo estando apaixonada, que quando percebo o pai já subiu de novo pra ver se a mãe deu falta dele na cama, e vem me dizer então que se a mãe por acaso acordar, pra dizer que ele tá lá vendo umas coisas do computador, porque ele não quer que ela veja como é que tá a vó. Ela tá ruim assim, pai? Ele franze o cenho daquele jeito preocupado que eu conheço e diz que tá, tá sim. Banheiro tá todo sujo de sangue, vou ajudar seu tio a limpar lá embaixo enquanto sua tia leva ela pro hospital. Eu fico parada no corredor. A tia-vó tinha morrido um dia antes, o enterro foi naquele dia, eu sentiria falta, que sensação bizarra essa. O pai coloca a mão no meu ombro, antes de me dar as costas e descer a escada de novo. Eu volto pra minha cadeira macia, volto a olhar a tela do pc, e volto a ficar apaixonada. Só que agora eu estou preocupada também.

Uma noite inteira.

E acordo, e a vó continua no hospital, e o pai tá em casa às 11h da manhã e isso é estranho, e a gente vai pro trabalho juntos, e eu percebo que é um dia muito bonito de agosto. Dia onze segunda-feira e céu azul sem nuvens, sol agradável, dia muito bonito mesmo de agosto. Mesmo no trabalho, mesmo do trabalho. E eu apaixonada, preocupada, externando apatia.

Duas horas e meia.

Estou falando com um homem que acabou de bater o carro e precisa de um guincho. Eu peço um momento pra ele porque minha supervisora quer falar comigo, mas quando ouço a voz do meu pai no telefone dela, eu sei que é porque minha vó não tá mais viva.

...

A vida é uma coisa muito estranha mesmo, né? Eu já chorei, chorei, chorei. Tô aqui presa num engarrafamento na linha vermelha, vendo o pôr do sol da janela do táxi, e o corpo da minha vó tá em algum lugar que eu não sei onde. Última vez que vi minha vó foi na última sexta-feira, e tenho medo de vê-la morta e de lembrar dela morta. Não quero. Penso no meu primo de nove anos e no quanto isso vai doer pra ele; penso nos meus irmãos e no quanto eu não queria que eles chorassem por isso nessa idade; penso na minha mãe e fico morrendo de medo de tudo aquilo voltar. Não penso em mim mesma porque não sobra tempo pra pensar em mim mesma enquanto o sol se põe, minha vó se põe, e eu não. Eu fico aqui vendo o trem passar.

Não sei quando.

Na certidão de óbito diz que ela sofreu duas paradas cardíacas. Não resistiu à segunda porque tinha perdido muito sangue. Penso ah, então foi assim. Então foi assim.



Engraçado como não lembro dia onze no ano passado, mas lembro dia onze há dois anos.
Termino esse post às 00:20.
Hoje.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

#14

Minha querida Annie,

Essa não ia ser pra você. Ia ser uma carta triste pra outras pessoas, mas não ia ser pra você. Ia ser uma carta cheia de mágoas, cheia de raiva, mas não pra você. E não ia ser pra você porque não queria te chamar de "a pessoa de quem me afastei", sabe? Acho que era doloroso demais pensar nisso, pensar que realmente me afastei de você a ponto de te cogitar como destinatário - e seria mais doloroso admitir isso em forma de carta.

Tu vê, tu sempre foi minha querida, e eu te fiz tantas e tantas promessas de estar perto! E de repente eu me vi tão longe que comecei a sentir vergonha de mim mesma, ao mesmo tempo que não sabia nem tinha ideia de como voltar. E eu quis muito, quis demais voltar pra você, voltar pra um espaço tempo onde a gente podia ser próximas como antes, já que era uma sensação muito estranha estar tão distante - mais que os quilômetros que separam a gente, Belinha.

Tu sempre foi minha querida, ainda é. Marco uma viagem, e a consciência sempre pesa porque penso que devia estar te vendo, antes de todas as outras pessoas, porque tu foi minha primeira promessa de abraço, de viagem, disso tudo. Não faço por mal, de verdade. Não marco as datas nem os lugares por critério de afinidade, juro pra ti! Comigo não tem isso de ser mais ou menos amigo, tu sabe - bem, eu espero que tu saiba, que tu lembre. Eu marco mesmo por oportunidade, talvez pelo fator proximidade no momento, não sei. Talvez se a gente estivesse mais próximas eu fosse praí; na verdade, na verdade talvez se as nossas vidas estivessem mais próximas eu estivesse indo praí - percebi agora que o coração sempre tá próximo, e que o que atrapalha um pouco mesmo é a vida. Não sei, querida. Eu te amo, Beli, amo tanto! Nos tempos difíceis, mesmo longe, mesmo com essa distância estranha entre a gente, tu foi minha âncora, sabe? Tu foi a lembrança boa no meio de toda aquela coisa bizarra na qual eu me vi de repente. Eu te amo demais, minha querida.

Queria te pedir desculpas por todas as minhas promessas quebradas até agora, por atraso em ir te ver, pela minha ausência nos momentos complicados, nos momentos onde eu costumava estar presente. Queria que tu soubesse que sempre pensei em você, durante todo esse tempo, e que ainda penso quando penso DG, quando penso clarinete, quando penso vinho barato na última rua da cidade. Queria que tu soubesse que em momento algum deixei de cruzar meus dedos por você.

Years, for you and I, Annie.

Daquela que te ama pra sempre,

Cah.

domingo, 8 de agosto de 2010

e se não sim

- Hey, hey. Olha pra mim. No que é que você tá pensando?
- Que isso é o máximo que eu vou conseguir de você.
- Ah. (...)
- Que foi? Não me olha assim, foi tu quem perguntou.
- Eu sei. Mas é que eu sempre espero que seja outra coisa.
- Eu sei. Tu sempre sabe, e ainda assim tu sempre espera. Isso me ofende um pouco.
- ...
- Não vai perguntar por que me ofende?
- ... É que eu acho que sei.
- Ah. Ah! Não me surpreenderia mesmo se soubesse...
- É que tu acha que vai ser assim pra sempre...
- E tu acha que é só questão de tempo.
- Sim.
...
- Tá. Mas e se for pra sempre?
- Eu sei. Eu sei, mas e se não for?



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

fragmento nº 2

- E você? Tá feliz?
Ele responde sem sorrir.
- Não completamente.
Ele não fala, ela espera.
Ele ainda não fala, ela insiste.
- Porque...
Ele olha pra ela em dúvida.
- Eu sinto que falta alguma coisa...
Ela-pergunta-ele-responde-ao-mesmo-tempo.
- Alguma coisa importante(?).

fragmento nº 1

- Você tá feliz?
Ela responde com um sorriso.
- Não.
- Por que não?
Hesita antes de começar a justificar.
- Não sei dizer. Acho que...
Olha pra ele e fica em dúvida.
Olha pra ele e continua em dúvida.
Responde, enfim.
- Acho que falta alguma coisa importante.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ah

não se isso está reprimido ou suspenso. penso que poderia facilmente gritar, facilmente falar em voz em volta essas coisas nas quais estou pensando agora, se não me faltasse a coragem e me sobrasse a vergonha.