domingo, 11 de julho de 2010

sem cartas para elise

Desisti das cartas. Fiquei paranóica por causa delas e entrei em pânico de novo, não conseguia escrever nem metade do que queria dizer - não conseguia escrever nada, na verdade, e isso estava começando a me fazer mal.

//

Então numa aula eu era Lavínia lasciva em lilás e era fácil e divertido, e talvez eu estivesse com o diabo no corpo, porque não foi difícil agir como se nada tivesse acontecido, nem foi difícil não aparecer nos dias seguintes. Acontece que tive três casos rápidos, enquanto uma garotinha apaixonada não saia do meu corpo - e não dá pra ser devassa com uma garotinha apaixonada dentro do seu corpo.

Corri atrás dele duas vezes na semana, talvez um pouco mais, enquanto havia convites para Amsterdã na noite de quarta-feira e nas chamadas perdidas do celular. Não bebi uma gota de álcool, mas matei quatro aulas, uma delas pra fazer sexo, e isso o deixaria indignado. Tudo bem. Ele não precisa saber de nada disso, a vida segue e não é em função dele, mesmo. Mas também não faz mal convidá-lo para fazer companhia enquanto pago uma conta, e no caminho a gente dividir uma pipoca. Temos então cócegas, e conversas mórbidas sobre os riscos estatísticos dele morrer e eu ser a última pessoa próxima a vê-lo com vida. A hipótese me deixa obviamente assombrada, e de repente não existe muita perspectiva para o futuro.

A semana continua cheia, e voltando pra casa eu descubro que algumas amizades não encontram tempo para uma conversa importante, mas encontram tempo para ensaiar uma pegação com um pretendente. Tudo bem. Pra quem já esperou mais de um mês e foi esquecida ao longo desse tempo, o que são mais alguns dias? Isso não parece ser nada demais, até que uma das poucas pessoas que realmente se importam dá a notícia de que vai embora, e então a imagem dos dias seguintes com menos uma cadeira no almoço e todas as lembranças agradáveis e felizes e divertidas saltam na mente e me fazem chorar como criança. Sábado a gente se vê, eu sei, ela vai feliz, eu sei, mas vou sentir saudades e quero chorar um pouco por causa disso, vê?

O irônico nisso tudo é ser amparada  no sábado justamente por ele, enquanto choro copiosamente em seu ombro por sentir que na realidade talvez eu sinta mais falta deles do que eles de mim. Ele me abraça, me consola, dança no ônibus e canta musiquinhas aleatórias pra arrancar um sorriso do meu rosto, e promete estar por perto enquanto desce do ônibus para encontrá-la e ver se ela está melhor da febre, enquanto eu sigo meu caminho como de costume - dessa vez, com a sensação de que talvez eu esteja um pouco mais sozinha do que antes.

A garotinha apaixonada parece agonizar dentro de mim, mas todos sabemos que ela não morre e que ela sempre volta do coma.

Um comentário:

Phi disse...

Eu queria poder dar a notícia de que vou estar aí. Mas não posso, não agora, pelo menos. Mas posso fazer muita força para que, pelo menos, me sintas aí.

Espero que fiques bem, coração. ♥♥♥