domingo, 4 de julho de 2010

fragmento de três de julho

Aí eu encosto a cabeça no banco do ônibus, e ele pergunta o que tá me incomodando. Eu digo que nada, mas ele não acredita em mim. Diz que me conhece tempo o suficiente pra saber que tem alguma coisa errada comigo, e que até a UERJ eu vou dizer o que é, mas a UERJ passa e eu não digo nada. Ele continua me olhando com aquela cara de impaciência, que me irrita porque não tem mesmo nada demais e ele está só fazendo tempestade em copo d'água. Aí eu encosto a cabeça de novo no banco do ônibus e sorrio. A gente está no alto do viaduto, eu olho pela janela e vejo o Maracanã, os prédios da UERJ, e o joelho dele tá encostado no meu, e o braço dele tá encostado no meu, e meu sorriso se estende, e quando ele ameaça dizer alguma coisa eu digo que estou só curtindo o momento. Ele me olha com aquela outra cara, a de quem não entende, e eu explico que não estou estranha, que estou só curtindo o momento, porque vai acabar daqui a pouco, daqui a três ou quatro pontos de ônibus, mas essa parte eu não digo. Eu digo só que quero curtir o momento porque gosto de ficar em silêncio com ele, que o silêncio com ele ainda é agradável. Ele concorda e comenta que a gente dormiu junto muitas vezes. Sim, foram muitas vezes. E aí eu lembro do que Kundera falou certa vez, sobre o sono compartilhado ser o corpo de delito do amor, e eu olho pra ele e sinto tudo aquilo de novo, borboletas e mais borboletas, e fecho os olhos pra focar nos pequenos toques acidentais. O ponto dele chega e ele tem que descer, e antes de descer ele beija minha mão como se pertencesse a outro século, e depois disso ele vai embora, mas continuo acompanhando-o com o olhar. Ele se vira, sorri pra mim e lança uma daquelas piscadelas, o ônibus o ultrapassa e segue seu caminho - enquanto eu sigo o meu também.

Um comentário:

Phi disse...

Eu ainda não descobri, Cah. Ainda não descobri se é nos momentos que vives que existe a beleza, se é nas palavras com que os contas, ou se é, acima disso, em ti. Mas estou muito inclinada a aceitar a terceira opção - porque depois as outras são apenas sua consequência.
♥♥♥♥

(Tive uns dias difíceis, voltei a apagar tudo o que escrevi, e isso já não é uma novidade. Mas agora sinto-me diferente, mais forte. Como se rasgar os papéis significasse rasgar o passado, e agora eu pudesse finalmente mostrar-me. Tu ajudaste muito nisso, acredita.)