segunda-feira, 19 de julho de 2010

#7

Ah, garoto...

Não tem muito tempo eu estava pensando em você. Estava contando a ele como foi quando te conheci, como foi quando fiquei contigo pela primeira vez, como foi que não te namorei. Uma história que poderia ser engraçada, se não significasse todas as coisas que vieram depois, todos os desencontros que tive até hoje.

Ah, garoto! Ainda tenho a lembrança do nosso primeiro beijo. Você não foi o primeiro de fato, mas às vezes penso que é como se tivesse sido. Esses seis anos não me tiraram da mente o jeito como você sorriu pra mim quando levantei para ir embora, ou antes de me puxar para sua cama, sua mãe na cozinha falando alguma coisa contigo. Foi rápido, tinha gosto de baunilha, suas mãos ainda estavam geladas, e a gente riu no final. Uma risada do tipo cúmplice, antes da sua irmã entrar no quarto e perguntar se eu já tinha arrumado minhas coisas.

Eu era amiga dela, antes de ser qualquer coisa tua, mas ela sabia da gente e torcia por nós dois. Eu também torcia por nós dois, sabe? Só não acreditava que você, desapegado do jeito que era, poderia um dia perguntar se eu não queria ser tua namorada. Não esperava isso nem de brincadeira! Acontece que tu perguntou, perguntou no teu tom de sempre, como se fizesse piada, se eu não queria namorar contigo. Pediu três vezes, e na terceira parecia até verdade! "Namora comigo". E eu disse não.

Depois disso não houveram mais beijos, não houve você prendendo meu corpo na parede da sua casa, não houve você tentando pegar a bala da minha boca, ou eu tentando roubá-la da sua, não houve você me chamando de garota só pra me provocar, ou repetindo meu nome, Aninha Aninha Aninha, só pra eu ter motivos de te olhar. Depois disso não houve mais nós dois.

Pode ter sido uma grande coincidência, é claro, mas não sei. E é isso o que me mata, garoto, é isso o que acaba comigo - eu não sei. Não sei se tu estava falando sério, e depois que não houve mais nada entre a gente fiquei com medo de perguntar, ouvir que era sério sim, que tu queria, e então descobrir que eu tinha acabado de verdade com minhas chances de ficar contigo, do jeito que eu torcia pra ficar. Talvez tudo fosse diferente, se eu tivesse dito sim; toda a minha vida, todo o meu jeito de agir com os que vieram depois de você, mas eu não sei. Não vou saber nunca.

Por via das dúvidas, queria que tu soubesse. Tu não foi o primeiro beijo, garoto, mas foi o primeiro desencontro. Meu primeiro acidente de carro.

Como te esquecer, então?



Com carinho,

Aninha.

2 comentários:

Tangerina disse...

Nossa.

Bem. ♥

fernanda disse...

São esses desencontros que sempre ferram as coisas.