segunda-feira, 19 de julho de 2010

#24


Não tinha certeza se era você até lembrar.

Quase dois anos atrás, tu me deu o Arpoador, querida. Numa quinta-feira de agosto, no terceiro dia, enquanto o sol se punha.

Não sei se você se recorda, mas naquela tarde eu estava dispersa. Era o terceiro dia sem minha avó, e eu tinha me encontrado contigo porque precisava desesperadamente sair de casa e porque precisava desesperadamente te ver. Era uma mistura de ansiedade, com confusão, com culpa, com tudo. Mas atravessar a prefeitura e te encontrar do outro lado, em frente à estação do metrô, fez meu corpo ficar mais leve. A gente se abraçou, e foi um abraço desajeitado, de quem não sabia o que esperar do momento seguinte. E, de fato, não havia momento seguinte porque não havia planejamento. Escolhemos o Arpoador por mero acaso, porque era seu lugar preferido, e porque eu tinha a vaga lembrança de que era um lugar bonito.

Não lembro de ter te contado sobre minha mãe, e sobre tudo o que aconteceu na minha vida no primeiro semestre de 2006. Tenho quase certeza de que não mencionei nada a respeito, então você não devia saber na época - como não sabe ainda -, que a única vez que eu tinha ido ao Arpoador até então foi antes de voltar para casa – depois da crise da minha mãe, depois de uma semana fora. Era final de maio de 2006, e foi um dos dias mais tristes da minha vida. Foi a primeira vez que a paisagem da pedra me engoliu, a primeira vez que eu quis desaparecer daquele jeito – porque ainda havia um medo muito grande de voltar para casa, para ela.

Quando voltei lá pela segunda vez, contigo, tinha tudo pra me sentir do mesmo jeito, a mesma tristeza querendo me levar com a maré, mas não – não foi isso o que aconteceu. Quando voltei lá pela segunda vez, contigo, foi como se aquilo fosse uma espécie de presente, uma recompensa. Hoje percebo que não só por você, mas por tudo. Pelo dia bonito, pelo clima ameno, pelo beijo que a gente trocou - marcando uma espécie de recomeço, pra mim. Você não sabe, mas naquele dia você me deu o Arpoador e uma nova vida, um novo sentido de continuar aqui – nessa cidade, nessa terra que não me prendia, e ainda não prende, mas que hoje ao menos me atrai com a força de um campo gravitacional.

Depois do Arpoador, você me deu todo o resto. Você me deu todas as lembranças que eu precisava para aprender a amar o Rio, meu lar.

Não foi você quem me fez ficar, coração, preciso deixar isso bem claro; mas foi você quem me fez buscar motivos para querer continuar aqui – e me fez ver beleza nos motivos que eu encontrava pra mim.

Sou imensamente feliz por isso.


Com amor,

Cah.

Um comentário:

Tangerina disse...

Que lindo.



(meus comentários são terríveis, mas, né)