sexta-feira, 16 de julho de 2010

#17

Vó,

Não tem como pensar na minha infância e não lembrar de você. Aliás, pra ser sincera, a maioria das lembranças da minha infância estão relacionadas à senhora. A gente era tão próxima, Vó, naquela época, que às vezes eu me pego pensando no porquê da gente ter se afastado tanto. Lembro que a senhora me levava para a escola todos os dias, e no caminho nós sempre parávamos naquela padaria de esquina pra comprar um chocolícia pra merenda. Lembro que, apesar de caro, eu sempre pedia chocolícia porque era o que tinha a embalagem mais bonita, com aquela caixa de tons quentes, e dentro dela o biscoito naquele embrulho transparente - eu adorava aquilo, ainda não fosse nada demais.

Na volta do colégio, tinha um barzinho que ficava em frente ao armazém da Antônio Rêgo, e a senhora sempre parava lá pra tomar um ar antes de continuar o caminho; pagava uma cerveja pra senhora, e um 7 Up pra mim. Não lembro o que a senhora conversava comigo, nem lembro se a senhora de fato dizia algo, mas lembro da senhora passando as mãos pelo rosto antes de sentar do meu lado na cadeira e suspirar.

É engraçado, Vó. Lembrar dessas coisas hoje quando tudo parece distante demais – são uns dezesseis, quinze anos, já. É engraçado lembrar dessas coisas quando hoje a embalagem do chocolícia é diferente, quando o barzinho fechou, quando eu nem sei se ainda existe o 7 Up. E como se nada disso bastasse, fico lembrando e contando tudo através de carta, quando a senhora nem sabia ler direito, Vó.

Aliás, lembrança da minha infância também é quando eu tentava ensinar a senhora a ler. Era tão trabalhoso, eu era tão nova e achava tudo aquilo tão chato! Às vezes eu perdia a paciência com a senhora e deixava todos os livros de lado pra fazer qualquer outra coisa. Com oito ou nove anos eu era uma criança bastante difícil, fazia birra quando estava chateada por ficar enfurnada no quarto da senhora te ensinando o bê-a-bá.

Mais tarde, mais precisamente depois da senhora ter morrido, lembrei que o pouco que a senhora lia, a senhora lia por minha causa - isso ainda me emociona demais, Vó. A senhora tinha aprendido um pouco, afinal, e aquelas horas que antes eu julgava serem perdidas acabaram valendo um monte. Com aqueles óculos enormes e com a minha pouca paciência infantil, a senhora conseguia fazer um pouco daquilo que hoje eu amo – e que eu queria ter amado muito antes, pra poder ensinar isso a senhora também.

Ai, Vó. Quando a senhora morreu, grande parte da minha infância foi junto. Algo em mim meio que se desligou, como se uma luz tivesse sido apagada. Às vezes eu reacendo a lâmpada e nos vejo antigamente, com ajuda da minha mãe, que me lembra uma época em que não podia te ver de camisola que eu chorava e pedia pra senhora tirar a roupa feia, que a gente tinha que sair – não importando se já tivesse passado da meia-noite.

Sinto tanto a sua falta, Vó. Da sua comida, do seu cheiro, da sua voz! Não sinto falta da Vó que você era quando morreu, meio amarga, meio reclamona e sem paciência com a gente, aquela que dizia coisas horríveis pra mim. Sinto falta da Vó de quando eu era pequena, da Vó que significava e sintetizava toda a minha infância, tudo o que eu fui e tudo o que eu fiz. Sinto falta da gente, da época em que eu trocava o meu quarto pela cama da senhora e achava que tudo estava bem. Porque com a senhora tudo sempre estava bem, Vó.

Obrigada.

Devia ter dito isso antes, quando a senhora era viva ainda; devia ter dito que a senhora conseguiu me fazer feliz aquilo que a senhora não consegui pelos meus tios e pela minha mãe. Mesmo que tenha sido só durante aquela época, obrigada por ser meu momento tenro, Vó, o momento mais ingênuo e querido da minha vida. A senhora sempre esteve lá e sempre vai estar.

Com amor,

Li.

3 comentários:

Tangerina disse...

...

Não dá para dizer nada. Desculpa.

fernanda disse...

Também não sei o que dizer, por isso queria estar aí para um abraço.

Te amo e te desejo o melhor, sempre.

Diana disse...

"Mais tarde, mais precisamente depois da senhora ter morrido, lembrei que o pouco que a senhora lia, a senhora lia por minha causa - isso ainda me emociona demais, Vó"

Puta que pariu.

Me emociona também.