domingo, 18 de julho de 2010

#11

Minha tia disse que seu nome era Roberto. Ela disse também que você era o filho mais velho do meu tio-avô, que era bonito, que era simpático, rico e inteligente, e que se matou. Disse que o dia estava bonito, quando você chegou em casa e tomou uma caixa de veneno pra ratos.

Não lembro quantos anos ela disse que você tinha, mas lembro que disse que você era novo. Lembro também que de todas as mortes das quais tive conhecimento, a sua foi uma das que mais me tocou, sabe? Eu não te conheci. Tu seria meu primo, mas por algum motivo que ninguém sabe eu não te conheci.

Tu tinha tudo o que muita gente queria, diziam. Era o filho favorito do Tio, o que ele sempre pedia pra voltar pra casa, mas tu nunca voltava. Tu não era muito feliz lá, era? Mas ao mesmo tempo, tu também não era feliz aqui, se tu te matou.

Robertinho era como minha tia te chamava, e acho que era como todo mundo te chamava também. Eu queria ter te conhecido, sabe? De todos os primos, de todos os mortos da nossa família que não cheguei a conhecer, de todos os que de fato conheci e os quais até cresci junto, tu é aquele que me desperta a maior empatia, o maior carinho, o maior interesse.

Não sei por que, mas acho que eu gostaria muito de ti, e que talvez tu fosse um dos meus preferidos também, mesmo que meus motivos fossem diferentes dos do Tio. Tem algo em você, primo, algo na tua história, na maneira como tu fez as coisas, que eu não consigo esquecer, que eu não consigo ignorar. Não faço ideia do que passou pela tua cabeça, mas entendo isso de um jeito tão violento que depois que minha tia entrou de novo na casa dela, me reservei o direito de chorar por você, com você, nem sei.

Minha tia disse que tu deixou tuas coisas pra um amigo, inclusive tua bicicleta, que era teu bem mais precioso, o teu favorito. Ela disse que, na verdade, até mesmo a única carta que tu deixou foi pra ele, e que a família não reagiu bem a isso, como se tu te importasse mais com ele do que com quem era do teu sangue.

Minha tia não ligou. Acho que ela até entendeu, assim como eu penso ter entendido também.

Sabe, talvez não mudasse nada, mas eu gostaria de ter tido a oportunidade de mostrar a você todas as coisas que me fazem ficar, Roberto, ainda que me faltem as raízes – as mesmas que te faltaram. Tem sempre algo puxando a gente, primo, sempre. Especialmente a gente, que é meio diferente e carrega essa tristeza nos olhos como se fizesse parte de nós. Mas eu tenho tentado lembrar, primo, que essa tristeza não tem que fazer parte da gente não. E que uma hora ou hora a gente acaba encontrando algo pra preencher esse vazio dentro do peito – durante algumas horas, durante um dia, talvez pra sempre.

Um dia eu descubro, primo. Um dia eu descubro um jeito de tapar esse buraco por nós dois.

Da prima que você não conheceu,

Ana Carolina.

Um comentário:

Tangerina disse...

Sabe, eu tenho um tio que se matou. O nome dele é Alexandre e eu nunca o conheci também. Ninguém fala muito dele, eu nem sei como ele se matou ou o que ele deixou.

Eu te entendendo. É claro.