sexta-feira, 14 de maio de 2010

trechos de música

Essa noite sonhei com a Guta, e ela parecia feliz. Daí você me pergunta "que Guta?", e eu tenho que te lembrar, a Guta que a gente conheceu alguns anos atrás, a Guta que a gente deixou de falar alguns anos atrás... Não sei se isso é suficiente pra que você lembre. Talvez eu tenha que te dizer como ela era, mas a verdade é que a memória sempre foi falha com relação a traços e olhos, cabelos e dentes, então espero que você entenda. Eu também não lembro dela. Eu poderia muito bem dizer as coisas que sei, então, mas a verdade é que também não sei muito sobre ela, a não ser da música. Guta e eu trocávamos muita música. Se tivesse de procurar em minhas coisas, seria facilmente capaz de encontrar uma lista de artistas e canções que conheci por indicação dela, as poucas lembranças boas... Enquanto vou te contando isso, você finalmente se lembra. "Uma menina que mudava a cor dos cabelos, hun?" Mas ela já não era tão menina assim quando a conhecemos. Era jovem, só, e preciso te dizer, "menina" dá um ar muito infantil e inocente à cena, e ela não era nenhum dos dois, a Guta. Não, não. Ela era jovem e só. E mudava a cor dos cabelos, sim, mas só às vezes, muito menos do que muita gente que a gente conhece! ...E agora que você franziu o cenho, penso que seria melhor se eu parasse de minar a lembrança que você tem dela, já que essa parece ser a única. E nem faz tanto tempo. Alguns anos só, pouquíssimos anos desde a última vez que nos vimos. Devo dizer, foi uma música triste nossa última conversa. Você já viu aquelas séries onde dois grandes amigos acabam se tornando inimigos? Não te parece triste, quando você para pra pensar nisso, especialmente se você levar em consideração as boas lembranças deles? Pois é. Nossa amizade não foi uma dessas de seriados e filmes. Nossa amizade talvez nem tenha sido amizade direito - ou talvez tenha sido, mas só na música. Quando lembro da Guta, sempre lembro da música. Não que eu aprendesse muito sobre alguma banda ou algum estilo, nunca foi isso, nunca foi sobre lições de partitura ou de vocal; a coisa toda tinha a ver é com cantar junto. Era fácil. Gostar de música com a Guta era só cantar junto. Não precisava ser impecável, não precisava ser perfeito; cantar junto sempre bastava, fosse a letra chiclete, a melodia grudenta, ou a história bobinha. Bastava e acabava aí. Amizade de quatro minutos e trinta e dois segundos. Folk, blues, piano, female vocal, indie rock. Falando assim soa até bonito, né? Mas não era bonito de verdade, nunca foi. Disso eu não lembro, mas eu sei; e sei que você sabe também, e não queria ter que te lembrar isso, mas é que nunca foi bonito, sempre foi feio demais. Estava estragado demais por dentro, as entranhas, os cenários comidos por cupins, as roupas corroídas por traças, todo um background do inferno. Lembrar da Guta é lembrar da música, mas também é lembrar tudo o que eu não entendo e tudo o que me faz mal. Não é engraçado? Não, não é... De qualquer forma, tudo isso pra contar o meu sonho. Essa noite sonhei com a Guta e ela parecia feliz. Foi a segunda vez que sonhei com ela, que segurava um livro e conversava comigo como se nunca tivéssemos tomado caminhos distintos. Ela me entregou o tal livro e pediu que eu lesse. Era algo que ela tinha escrito, e ela estava feliz por isso. Eu não entendia o gesto. Aceitei o presente, e me pareceu uma lembrança distante de algo que acontecia anos e anos antes, quando ela me mostrava histórias sem que eu pedisse por elas, como num acordo mudo. E se na época eu não me importava tanto, não me importaria ali com ela na minha frente, como não me importei de fato. Acontece que continuei sem entender o gesto. Fazia tempo, já,  tudo o que eu lembrava era que devíamos ser estranhas e que eu não queria mais que ela ficasse por perto, mas então ali estava ela, sorrindo, feliz. E eu acordei. Não tinha nada demais no sonho, era só isso, essa cena rodando pra sempre na minha cabeça, mas ela me fez pensar. Eu gostava da Guta, sabe? O tempo inteiro acreditei que ela fosse minha amiga, e hoje mesmo gosto de pensar que de alguma forma ela foi, mesmo que o tenha sido de maneira tão distorcida. Acordei sem mágoas dela. E você lembra o que ela me fez, não lembra? Mas é que acordei sem mágoas dela. Lembrar da Guta ainda é lembrar da música, e ainda é lembrar de todo o resto - todas as coisas ruins. Mas eu aceito ficar com as boas. E você me pergunta "por causa do sonho?", e eu te respondo que sim, por causa do sonho.  É que de repente passei a acreditar de verdade que tenham existido coisas boas, e foi tudo por causa do sonho. Não haviam mais mágoas; só boas músicas.

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