quarta-feira, 19 de maio de 2010

o riff

3:04 AM

Ela ouve os primeiros acordes da música do Guns e simplesmente não acredita. "Cara, você sabe que horas são?", resmunga antes de ver o número. "Oi. Desculpa ligar a essa hora, não queria te acordar e- ". Reconhece a voz e reconhece o tom. "Não, não tinha visto que era você, não pede desculpa", interrompe antes de perguntar, "Que houve?". Cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta segundos de silêncio antes de "Tô aqui embaixo". "Ahn?". "Tô aqui embaixo, na sua portaria". Ela não pensa. Ela não precisa pensar. "Espera". Só levanta da cama, e, descalça, começa a procurar as chaves. Cinco minutos e ela abre a porta. Ela nunca foi boa com números, mas de repente passa pela sua cabeça que tem cento e vinte centímetros de distância separando uma da outra. Não que isso importe. Ela não tem que esperar muito até que a outra deixe o choro escapar pela garganta e pelos olhos. Na sua cabeça, as coisas acontecem em câmera lenta. Ela se deixa ser abraçada e retribui o gesto. Mais que isso, retribui o carinho. Ela nunca precisou de um motivo para estar lá, mas estava lá com a frequência de quem possui um bom motivo não só para estar como também para permanecer. E ela permanecia. Era uma boa amiga. Não sabia disso, ela mesma, mas a outra sabia. Era uma boa amiga. E guiava a outra para o corredor, e encostava o corpo na parede, e da parede ia ao chão. Oferecia o colo e oferecia mais, oferecia o tempo, oferecia o teto, oferecia a respiração e os batimentos cardíacos. Fechava os olhos, e por trás dele via a cena como se não estivesse nela. Suspirava ao invés de respirar. Deixava que a outra chorasse, e molhasse suas roupas e sua pele; deixava que a outra soluçasse; deixava que a outra decidisse não falar sobre aquilo.Tudo bem. O chão gelado, o corredor escuro, o meio da madrugada, e ela ali, mãos sobre o cabelo da outra, um abraço apertado, um choro dolorido interrompendo a noite. Tudo bem. Enquanto deixa sua cabeça descansar na parede, ela pensa que não faz mal estar ali. "Se eu tivesse que escolher qualquer outro lugar, continuaria escolhendo ficar contigo. Então de todos os motivos que tu tem pra chorar, não chora por ter me tirado da cama. Eu te amo. Eu te quero feliz. Eu te quero inteira", ela diz. "Achei que tu devia saber", sorri. Mas sorri daqueles sorrisos largos, aqueles que te fazem sentir em casa e bem. O tipo de coisa do qual tu não pode ficar indiferente.

3:16 AM

Ela cantarola o toque do Guns, "i hate to look into those eyes and see an ounce of pain", e simplesmente não acredita, "ohh, ohh, sweet child o' mine". Ri sozinha, antes de chamá-la para subir. "Sweet child o' mine".



Um comentário:

menina disse...

não dá pra comentar no último post, então eu vim aqui.
(:

amei o seu blog *-*
o 'post secret' mexeu comigo e sinceramente eu admiro essas pessoas que conseguem escrever coisas pequenas porém com sentimentos transbordando.

vou seguir.
beijinhos