quinta-feira, 27 de maio de 2010

coletânea V

5. Para o meu melhor amigo:

Acho que a coisa mais engraçada em morrer é não conseguir lembrar. É essa coisa de abrir os olhos, assimilar o mundo, e não saber como você chegou ali, quem você é, ou pra onde você tem que ir. Foi assim comigo. Olhos abertos, e nenhum vislumbre do que veio antes, como se eu tivesse acabado de nascer - não é irônico? Mas diferente de quando se é criança, eu sabia o que eram as coisas, sabia falar, sabia andar. Só não sabia de mim mesma, vê? Comecei minha nova existência vagando por um prédio do qual eu não me lembrava. Observava tudo com curiosidade, inclusive as pessoas, e o fato delas não me perceberem não era algo que me causasse estranhamento, pra mim era bastante natural, até, e então eu te vi. Você cruzou a minha frente chorando, e eu soube naquele exato instante quem você era pra mim. Eu soube quem eu era pra você. "Amigos, é? Os melhores do mundo, pra sempre... Tá, não enrola, qual é o favor?". Você sequer precisou abrir a boca pra que eu ouvisse sua voz, numa lembrança distante; e então, a sensação de pânico, o desespero. Por tudo aquilo que a gente sabe, e por tudo aquilo que a gente percebe e simplesmente não consegue entender ou aceitar. O que eu senti não era físico, mas era dor do mesmo jeito. E eu quis chorar também, quis tocar o seu ombro, quis deitar no seu colo, quis gritar todo o meu terror e jogá-lo pra fora, entregá-lo ao mundo e ver se aquilo adiantava pra mim, mas não adiantava. Eu soube ali, enquanto te via descer as escadas correndo, que estava morta e que mais nada adiantaria pra mim. Soube não porque lembrei do que aconteceu, de como aconteceu, ou de quando aconteceu. Eu soube pelo teu peito, teus batimentos cardíacos te denunciando, soube pelo teu sentimento. Gosto de pensar que foi tua alma quem contou pra mim que eu tinha ido embora. Gosto de pensar muitas coisas, na verdade, mas acho que é porque isso é o que me resta no fim das contas. Já estou aqui há algum tempo e não encontrei mais ninguém. Tenho o mundo inteiro só pra mim. É diferente do que dizem quando se é vivo. Nem céu nem inferno. Só eu, vocês, e nenhuma lembrança do que foi minha vida. Talvez eu lembre de tudo, um dia, se você me ajudar. Não tenho pressa. Tua alma pode ir me contando as coisas aos poucos. Não tenho pressa. Queria que você pudesse me ouvir agora.


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