segunda-feira, 3 de maio de 2010

coletânea IV

4. Para a putinha da turma:


Eu não lembro seu nome. Você dos cabelos curtos, da franja caindo nos olhos, da barra da saia roçando o meio das coxas. Você era muito branca, na época em que a conheci, e mesmo hoje isso não mudou. Lembro que você usava maquiagem forte nos olhos, e que gostava de pintar as unhas de vermelho – quantas não gostam? Lembro que, por causa disso, costumavam ter uma ideia errada de você. A putinha da turma. Eles não entendiam, e nunca se preocuparam em entender. Talvez você só gostasse de parecer a mulher que não era ainda, talvez o vermelho significasse apenas vermelho, talvez a maquiagem nos olhos fosse apenas pra realçar o que você tinha de mais bonito no corpo, os olhos. Cor-de-mel. Tão bonitos que os queria pra mim, confesso. Sempre quis. E mesmo agora eu os quero. Mas de que adianta querer? Acho que você quis muito que eles parassem de fazer comentários maldosos a seu respeito, como se você não passasse de um copo descartável, pra colocar a boca e depois jogar fora. Uma luva descartável pra colocar os dedos e depois jogar fora. Uma camisinha pra enfiar o pau e depois jogar fora. Mas o pior eram os boatos. "Ela me chupou ontem", "Ela ficou de quatro pra mim na semana passada", "Ela me deixou gozar na cara dela", "Ela engoliu tudinho, trabalho completo". Todos os garotos da turma numa rodinha, se vangloriando do quanto eles te bagunçaram, e do quanto você gostou. E você em seus recém feitos quatorze anos, descobrindo o quanto garotos podem ser cruéis. A verdade? Talvez você tenha ido um pouco mais longe com aquele garoto – qual era o nome dele? - por quem era apaixonada; talvez na hora h você tenha desistido de ir além por descobrir que na verdade ele era um filho da puta; talvez ele tenha espalhado pra todo mundo que te comeu só pra não ficar feio pro lado dele - oras, seria só uma reputação pela outra, não é? E ele não ligava mesmo pra você... Acontece. Assim como os boatos, todos eles, não demorariam a acontecer de verdade. E dali a um tempo você estaria não com um, mas com dois, três garotos na sua casa. Ou na casa de um deles. Fica triste, a partir daqui. Não tanto pra mim, mas pra você. A putinha da turma. A escola acabou, e você de unhas vermelhas, maquiagem pesada nos olhos, e barra da saia roçando o meio das coxas. Você sorri e é triste. Você faz sexo e é triste. Mais ainda quando te pagam por isso, porque você não precisava. Você não precisa. "Ela chupa como se fizesse isso desde sempre". E tudo parece uma grande piada de mal gosto, quando o cara começa a te bater mais forte. Você diz que o preço vai ter que subir por isso, por causa dos hematomas, mas ele não liga. Ele não liga pra você do mesmo jeito que o Fábio – lembrei o nome – não ligava na escola. E você pensa que talvez o nome desse cara também seja Fábio. E o Fábio vai continuar te batendo até que não precise pagar pela noite. E você pensa que talvez a putinha da turma finalmente morra essa noite. Ele não liga pra você. Eu posso te receber com flores, mas ele não liga mesmo pra você. Letícia. Agora eu lembro. A gente nunca pensa que aquilo que a gente faz aos outros na época de escola pode acabar com a vida de alguém, mas às vezes acaba. Às vezes acaba de verdade.

Que a terra seja leve pra você, Letícia; mais do que foi pra mim.


Um comentário:

r. disse...

isso me tocou de um jeito que poucas coisas que eu leio tocam. .-.