quarta-feira, 21 de abril de 2010

um espaço para Clarissa

Conheci essa menina há três anos; não lembro bem o motivo, e na verdade acho que isso não importa muito agora, mas o é que eu sei de verdade? O que eu sei é o que veio depois, logo em seguida ao esbarrão que deram nossas vidas. O que eu sei é que numa hora sequer desconfiávamos da existência uma da outra, e noutra hora já falávamos sobre os momentos de ouro da adolescência, como se fôssemos realmente velhas - o que não era o caso -, como se fôssemos realmente íntimas - o que também não era o caso. Naquela época a adolescência ficava a apenas dois ou três anos de distância, números inversamente proporcionais ao tempo durou nossa pequena conversa e o início de nossa aproximação. 

Cabe registrar aqui que sempre gostei de estranhos. E ela me parecia uma estranha simpática, alguém que numa olhada rápida jamais teria algo em comum comigo, salvo um ou dois livros, mas que três horas e meia depois e quem diria? Ela não sabia muitas coisas a meu respeito, nem era minha melhor amiga de todos os tempos, mas entendia com amplitude tudo o que sabia, porque  o que sabia era o que sentia com as mesmas preocupações e as mesmas proporções que eu. Não me admira o fato de ter gostado tanto dela como passei a gostar. Aquele carinho e cuidado de quem cuida de feridas sensíveis, as minhas e as dela.

Ela e eu não temos os gostos exatamente próximos, ou mesmo a linha de pensamento igual; não temos estilos de vida nem remotamente parecidos, e nossa posição em relação à sociedade é ridiculamente discrepante. Mas não peço que entendam, nem faço questão disso. Uma verdade? Já me dediquei a não suportar uma boa parte do que o mundo dela representava, para logo em seguida me sentir completamente entediada e indiferente em relação a ele, sem que isso, entretanto, afetasse minha consideração por ela. Isso acontecia porque essa consideração era uma das coisas que eu julgava estar além, assim como a própria visão que eu tinha e tenho dela - a de que existe algo muito importante além daquilo tudo, além do que ela mostra, além do que as pessoas geralmente enxergam, além do que talvez ela mesma invente para si. 

Eu olho pra ela de longe porque de longe ela é tão vulnerável quanto eu, quanto você, ou quanto qualquer um. Tão vulnerável, e igualmente incapaz de desmentir isso. Mas sabe qual é o ponto importante? Pra mim ela não desmente - e fico grata pelos seguidos votos de confiança. Mas como não acho isso feio ou vergonhoso, conto aqui. Ela é algo entre mulher e menina, caminha sempre sobre essa linha, e não raro vive uma confusão em si mesma, "o que ser quando crescer?". Ela é bem mais bonita do que as pessoas pensam, e bem menos ruim do que gosta de mostrar - para si mesma e até para os outros. E de mim para ela, só um desejo: que ela veja em si mesma tudo o que eu vejo nela. Um dia, quem sabe? O que ver quando crescer.




-- a JK disse, certa vez, que tem coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro. A isso, eu só queria acrescentar que tem coisas que não se pode dividir com alguém sem acabar gostando um do outro - e que essa coisa chamada alma, essência, ou o sinônimo que preferir, é bem uma delas. Eu sempre gosto de quem divide comigo algo tão importante.

4 comentários:

Anônimo disse...

Não é novidade que tu consegue traduzir, muitas vezes, meus pensamentos - diferindo nas situações e nas ideias, igualando nos sentimentos e sensações. Acho que somos parecidas de uma forma meio abstrata, meio como Zusak poderia descrever. Não se trata de grandes visões de mundo e planos para o futuro, ou de formas de viver a vida e filosofias. E, mesmo assim, a semelhança existe e simplesmente... é. Aqui de novo tu conseguiu traduzir, palavra por palavra, o que eu penso/sinto em relação a ti. Acho que de todas as pessoas da minha vida, a que mais me deixa curiosa com a relação de semelhanças e diferenças é tu - porque é surpreendente como elas existam. Tantas, e sem entrarem em conflito. Fico feliz por tu ter entrado na minha vida, mais ainda por ter continuado. E confiado, e deixado que eu confiasse. Deixo beijos e desejos bons, e depois eu volto pra ler outro texto que com certeza vai me emocionar.

Julia disse...

É impressão minha ou é sobre a Gween Black? Parece!

clah disse...

Consegui logar agora. Li de novo, e preciso dizer que especialmente gostei dos parágrafos 3 e 4. O terceiro porque é aquele que joga as cartas na mesa, e mostra todas as diferenças, e logo em seguida as descarta. E porque eu me sinto de forma muito parecida - salvo um outro detalhe - em relação a ti. E o 4 porque... porque é o parágrafo do post. É aquele que o post se preparou nos parágrafos anteriores para apresentar. Aquele que vai lá no fundo, lá no fundo e faz sorrir e soltar uma ou outra lágrima. Enfim, ahahaha. Achei conveniente comentar de novo.

(e ah, tenho que te passar uns links - teus - no msn. queria te mostrar uma coisa!)

phi disse...

Eu só quero mesmo dizer que quem te tem na sua vida tem também muita sorte. ♥