terça-feira, 6 de abril de 2010

olá, estranho

Ela só queria ir para o cursinho, chegar na hora pra variar. "Aqui mesmo ou mais à frente?", perguntou o motorista. Abriu a boca para responder, mas um rapaz foi mais rápido: "Mais à frente!", ele gritou. Que saco. Olhou rápido para o garoto - pelo menos era bonitinho. Desceu um ponto depois do que deveria, por causa do rapaz e porque a chuva já tinha alagado a outra rua. Não era como se desse pra andar, de qualquer forma; chovia forte, o guarda-chuva era daqueles bem vagabundos, e água começava a subir. Se abrigou embaixo de uma marquise pensando que era uma droga ter saído mais cedo do trabalho pra não conseguir chegar à aula a tempo. O garoto do ônibus, também sob a marquise, puxou assunto. "Eu ia levar essas compras pro meu filho em Jacarepaguá, mas com essa chuva não tem como. Vou ter que voltar pra casa sem elas". Tem um filho, que pena. Era mesmo bonitinho. Mas chuva não passava, os bueiros transbordavam um a um, e as pessoas continuavam a falar. Em quinze minutos de conversa, descobriu nome, idade, e metade da vida do garoto; ele não descobriu nada dela que não fosse idade ou apelido. Quando a chuva estiou um pouco, ela ofereceu uma carona pra ele em seu guarda-chuva. Certamente não seria muita coisa, mas também daria pra evitar um estrago maior. Saíram da marquise sob votos de boa sorte, e foram em direção ao ponto de ônibus dele, na Saens Peña. Pensou que no quão engraçada e deslocada era aquela situação, no meio de tanta gente apreensiva por causa do temporal recente e, agora, mais contido. Ele mencionou que estava morrendo de fome, e ela deu algumas indicações de onde ele poderia ir, uma delas próxima ao seu curso. Mal sabia ela que a o caminho até o cursinho deu lugar a um rio de lama e água de esgoto. Se ainda havia alguma esperança de ter aula de literatura e física naquela noite, ela havia acabado de ser dizimada. "Bem, que tal o shopping? Tem mais variedade, mesmo". Uma pausa aqui. Devemos lembrar que, enquanto ela andava de um lado para o outro de braços dados com um estranho sob seu guarda-chuva vagabundo, a cidade inteira estava parada tentando desesperadamente e sem sucesso voltar para casa. Obviamente ela não fazia ideia real do estado crítico em que os bairros a sua volta se encontravam, embora existisse uma certa desconfiança, mas também é verdade que não estava muito abalada nem em muita desvantagem geográfica em relação aos demais cidadãos cariocas. Retornando à nossa narrativa... Pensou que aquilo tudo parecia um de seus contos quando deu a ele uma nota de cinquenta reais para pagar seus chopps, ao que ele respondeu, em gesto, deixando sua carteira em cima da mesa, junto dela. "Só pro caso de você ter pensado que eu poderia fugir com o dinheiro", sorriu. "Eu não pensei!", ela devolveu, e era verdade. A essa altura, sim, ela sabia que a vida dele foi um tanto complicada quando mais novo, que ele próprio era mais novo que ela, ainda que tivesse um filho de um ano, e que morava com uma mulher que não era a mãe desse seu filho. Mas a essa altura, também, estava irresistivelmente encantada com a hipótese de ficar com ele naquela noite, talvez porque aquele encontro casual merecesse um desfecho do tipo. Não pensou mais no cursinho. Houve um momento em que pensaram em como avisar a mulher dele de que, no fim das contas, ele não tinha ido pra Jacarepaguá, e que ela não precisava se preocupar porque ele estava em local seguro, e que passaria nas Lojas Americanas ainda pra comprar alguma coisa. O problema todo consistia em fazer uma ligação do celular dela, sem que a mulher descobrisse que o número era de outra garota. Bem, o rapaz da barraquinha de chopp da Brahma foi a pessoa selecionada para interpretar o papel do amigo imaginário do  nosso querido estranho da chuva. Foi mesmo uma pena quando o Brahmeiro disse que não poderia falar ao celular por causa das câmeras, que não era permitido em horário de trabalho. Teria sido um plano genial e infalível! Ou não. Desistiram dos planos mirabolantes, então. Além do chopp, pediram uma pizza, e foi ele quem pagou a conta. Fez tanta questão que ela, sem graça, aceitou e agradeceu. Foram de verdade para as Lojas Americanas: ele queria comprar um ovo de páscoa para sua mulher, e ela queria comprar balinhas de caramelo para o garoto de quem gostava. Sim, pode parecer engraçado, mas mesmo pensando que seria muito legal ficar com o seu estranho da chuva naquela noite, não tinha como simplesmente não falar do outro. Dele. Falou, então, e o estranho entendeu. Na fila do pagamento, a mulher dele ligou, esbravejou, e desligou o telefone na cara dele. Ele ficou chateado e desistiu do ovo de páscoa - "Acho que ela não merece mais", comentou dando de ombros. No caixa, ele só passou um Trident, e a atendente perguntou "Vocês estão juntos?". Os dois se olharam, "Não. Quero dizer, mais ou menos", e sorriram. Desceram até o primeiro andar em direção à saída, a noite de playlist aleatória se aproximava do fim. "Você vai pra onde?", ele perguntou. "Pra casa, mas não sei se de ônibus". "Ah, pensei em te dar carona, mas não vai dar. Vou ter que ir de táxi, senão ela fica louca", ele riu. Ela riu também, e disse "Bem, então acho que é aqui que a gente se separa". Mas não foi necessariamente o que aconteceu. Era pra ser um tchau, era pra ser um beijinho sem graça no rosto, mas o tal beijinho teve outro destino, e no fim das contas ele a beijou de verdade. Foi um daqueles beijos com bastante vontade, como se tivesse sido esperado a noite inteira - e talvez tenha sido; ao menos foi da parte dela. Foi um longo beijo na chuva, na frente de uma plateia estagnada e metaforicamente abraçada ao seu porto seguro numa cidade embaixo d'água. Quando se separaram, um "Uau" mútuo. Até entraram de novo no shopping, até se beijaram mais vezes, prolongando a noite enquanto dava e enquanto podiam - e ela podia mais do que ele -, mas se aquele fosse o conto de Cinderela, então o relógio já teria batido há uns bons quinze minutos, o que significava que não duraria mais tempo. Do shopping até a saída foram se beijando, da saída e enquanto atravessavam a rua foram se beijando. Não tinham como ser mais irresponsáveis, mas a pista estava vazia mesmo. Ou parada. E riam, riam, riam. Poderiam apostar que Cinderela não se divertiu tanto. Mas ele tinha que ir, e a noite tinha sido boa, de qualquer forma. "Ok, acho que agora sim a gente se separa", ela disse, e ele a beijou de novo. Não era como se conseguissem parar, sabe? Mas pararam. "Foi um prazer te conhecer", ele disse, seguido de outro beijo. "Igualmente", ela respondeu, seguido de outro beijo, finalmente o último. Disseram tchau, e ele atravessou a rua. Talvez se encontrassem de novo, talvez não, mas também não pensaram muito a respeito. Acho que, na verdade, só se preocuparam em fazer a noite valer a pena - e ela valeu. Numa noite em que a cidade vivia o caos, se eles conseguiram se deixar alheios a tudo, então a noite valeu. Adeus, estranho; de verdade, foi um prazer te conhecer.


-- se ainda houver dúvidas, então sim, ela era eu.


Um comentário:

.moony. disse...

não, eu não duvidei! -q
so fucking real.