quarta-feira, 28 de abril de 2010

coletânea II

2. Para a loira do banheiro:

Você ganhou esse apelido porque cheirava no banheiro da faculdade. Não era todo mundo que sabia. Era só o seu jeito de passar o tempo, de matar as aulas que você julgava serem chatas. Nunca me dei o trabalho de te julgar, e também nunca me interessei em fazer igual, mas as outras pessoas que sabiam diziam que você fazia isso porque era meio desajustada, porque tinha problemas demais em casa e que, apesar de não justificar, explicava muita coisa. Alguns vivem em busca da batida perfeita, do verso perfeito; você buscava uma onda que não acabasse nunca. As pessoas lamentavam. Ninguém nunca chegou pra você e disse "para, garota, para que isso vai acabar contigo um dia". Ninguém nunca quis ter esse trabalho ou essa responsabilidade. Mas todos eles comentavam uns com os outros sobre o seu estado. Eu inclusa, e me dá até vergonha disso, hoje em dia. Do teu lado o meu futuro sempre foi promissor. Deixa eu te contar um segredo? Tinha gente que fazia bolão pra ver quando você ia ter uma overdose que te matasse. Cruel, né? As pessoas podem ser bem cruéis, às vezes. Eu nunca entendi esse tipo de brincadeira, e mesmo agora não entendo. Era meio triste te ver magra demais, pálida demais, com olheiras demais. Eu me perguntava se sempre tinha sido assim, mas acho que não. Gosto de pensar que não. O problema é que você sempre foi meio invisível, entende? E talvez esse até fosse um dos motivos pra você se enterrar no pó, quem sabe. Eu certamente que não. A gente nunca foi amiga, mas eu bem que podia ter dito, naquela época, que tua vida não precisava ser um fracasso. Que você era bonita. Que você era adorável. Acho que você teria acreditado em mim, e é engraçado. Acabei não dizendo as coisas que queria dizer, e você também acabou não precisando delas. Eu não estava lá quando você se deu bem. Quando você deixou de ser a loira do banheiro. Fiquei feliz.

Lá no fundo, entretanto, fiquei também com um resquício de frustração por não ter participado da parte boa da sua história - vou te confessar, a ideia de não ter deixado coisas boas o suficiente na vida das pessoas é algo que me preocupa. Por isso fiquei surpresa, e contente!, quando te vi lá por mim. Você era mesmo muito bonita. Obrigada por ter me levado flores.




P.S.: Não é irônico, querida, que a despeito do seu título, quem acabou se tornando uma assombração fui eu?

2 comentários:

Julia disse...

Que bonito. E agridoce. Mas isso era de se esperar.

:* ♥

clah disse...

Concordo com a Julia. Adorei esse aqui.