sábado, 3 de abril de 2010

coletânea

1. Para o meu melhor amigo:

Queria dizer que amei você desde o início, desde o princípio dos tempos, mas ambos sabemos que essa seria uma mentira muito sem vergonha. Primeiro porque a gente não foi amigo de infância nem nada; nossa amizade começou só no colegial, amigos de ensino médio e do que veio depois. Segundo que ninguém ama assim de cara, assim de uma vez - pelo menos não eu, e você sabe disso. É por isso que não dá pra dizer que amo você assim, desde sempre, por mais que eu queira ou por mais que pareça. Mas eu queria que você soubesse disso. É tarde, eu sei. É bem tarde. Eu te vejo assim de longe, eu te vejo assim feliz, e queria dizer que você está indo muito bem, que você está no caminho certo. Acho uma pena não poder. Acho uma pena não poder dizer agora, e uma pena não ter dito antes. A gente é sempre meio idiota, né? Em ficar adiando as coisas importantes, o clichê da vida urbana. Em dar o devido valor às coisas e às pessoas depois que a gente simplesmente perde tudo. Kurt Cobain disse uma vez. Ou ao menos dizem que ele disse isso, naquela carta de suicídio. E eu queria ao menos ter dito isso em alguma carta, antes, mesmo uma de suicídio, porque daí pelo menos você saberia, talvez então você pudesse ficar tranquilo. Eu fico feliz que tu esteja bem, durante o dia você sempre está muito bem, mas daí eu te vejo durante a noite e sei que você não dorme pensando em tudo o que aconteceu. Eu não te conheço desde sempre, sabe, mas conheço o suficiente pra saber que o motivo da tua insônia sou eu, é aquilo, é a gente. Queria que você ficasse bem o tempo todo. Queria, queria muito, queria demais. Porque me dói te ver assim, parece que você fica fingindo uma coisa pra todo que não é verdade, e eu sei que é, o pior é que eu sei que você está bem, mas essa parte ruim que eu consigo ver e que talvez só eu consiga ver que me incomoda demais. Como se tivesse alguma coisa estranha crescendo dentro de você, uma angústia sem fim, uma tristeza sem fim, uma apatia sem fim. Eu sei que taí porque eu vejo e te vejo. Você nem percebe, às vezes. O problema é a insônia. O problema é que eu nunca pude dizer que te amava, é que tu nunca ouviu isso da minha boca, nem viu isso na minha letra. O problema todo é esse. Eu deixei você ser meu amigo, meu melhor amigo, mas não deixei você saber e ter certeza de que, se eu era tão feliz, era porque você tava comigo. Não deixei você saber que eu te amo. Você não ouve, mas eu te amo. Você não lê, mas eu te amo. Você já não me leva flores, mas eu te amo. Você não me deixa morrer em paz, mas eu te amo. Eu te amo sempre, eu te amo desde o início, desde o princípio dos tempos. Queria que você soubesse, que você acreditasse. Pra você dormir à noite, e pra eu finalmente deixar esse mundo. Pra que tudo seja leve pra nós dois.

2 comentários:

.moony. disse...

Alice disse...

Uaau.
Eu acho que tu é uma parte minha que sabe escrever muito bem, porque esse post praticamente descreve o que acontece comigo.
Por diversos motivos que não cabem aqui, eu não consigo/posso/sei como dizer isso pra ele.
E o jeito que tu escreveu... uaau.
Perfeito.
(: