domingo, 4 de abril de 2010

arcano maior

Essa noite eu morri, mas era só um pesadelo. Eu morri, e continuei andando pela terra como se ela me pertencesse; como se eu pertencesse a ela, na verdade. Acho que tinha acabado de acontecer, ou não tinha acontecido há muito tempo. E eu não sabia como, mas as pessoas podiam me ver. Aliás, algumas delas só descobriam que eu estava morta depois de me ver. E eu tentava descobrir o que havia acontecido comigo, como eu havia morrido, mas ninguém me falava. Eles ficavam me mandando de um lado para o outro, só. "Teu irmão não sabe". E eu ia até ele. Ele me via e eu não podia abraçá-lo. Eu não podia mais muita coisa. Eu pedi desculpas. Um estalo, e eu encontrei outra pessoa, alguém que eu não me lembro de ter conhecido. Ela disse pra eu aproveitar porque não demoraria para as pessoas deixarem de me ver, e que eu iria gostar de falar com algumas pessoas que pareciam não estar ligando. Lembro de ter ido parar na casa de uma amiga - eu só podia aparecer em lugares os quais eu já tinha entrado. Ela estava sentada na mesa com o namorado preparando o almoço. Eu não podia vê-los, mas eu sabia. Fechei os olhos e tentei atravessar a porta, mas não consegui. Só a empurrei com muita força, como se tivesse chutado, mesmo que eu só a tivesse tocado com os dedos. Eu já não tinha o corpo físico, mas a energia aparentemente não podia atravessar nada sem que fizesse algum esforço. Tentei mais uma vez e consegui. Os dois me olharam, e ela comentou que não poderia ir por causa de taxas federais. Eu nem sei se existe isso de taxas federais. O namorado ia comentar alguma coisa, mas desistiu no meio do caminho; só levantou e disse que estaria na sala. Ela esperou ele sair pra me dizer que não só não poderia ir, como também não tinha vontade. Acho que estávamos falando do meu funeral. Ela disse que não ia e eras isso. Ela disse que aquela conversa também não fazia sentido, que ela não podia conversar comigo porque não podia ceder o tempo dela pra gente que já morreu. Que eu estava invadindo o espaço dela aparecendo ali, que ela não queria falar mais comigo, que eu tinha que superar tudo e deixar todo mundo esquecer e viver em paz. Aí eu gritei. Não lembro o que dizia enquanto gritava, só lembro que gritava muito. Mas não era raiva, não era com ela que eu estava gritando, era por minha causa, só. Era por frustração, era porque eu estava morta, era porque eu sequer sabia como havia morrido, era porque eu não poderia mais fazer parte da vida de ninguém porque já não havia mais esse espaço pra mim. Eu mal existia pra ocupar algum espaço! Eu gritava, e o meu grito era desespero.

Ninguém nunca parece pensar nisso, quando falam sobre vida após a morte. Que se o morto lembrar de sua vida anterior e de todas as pessoas que o cercaram, se o morto mantiver o sentimento que nutria por elas em vida, ele se descobrirá sozinho. Não foi o mundo que o perdeu, foi ele que perdeu o mundo. Acho que por isso gritei tanto. Porque me dei conta de que, mesmo morta, ainda possuía consciência de tudo.

Chorei tanto no sonho que acordei chorando também. Chorei, chorei, chorei, chorei. Uma tristeza tão grande, uma angústia tão grande, de repente o peso do mundo sobre minhas costas, de repente o peso da vida sobre minhas costas. Chorei de soluçar, e fui amparada pelo meu irmão. Chorei de soluçar porque me dei conta de que, ainda viva, eu já tinha consciência de tudo - e eu não queria ter.

(essa foi a primeira vez que tive medo de morrer).



2 comentários:

Julia disse...

mi.
:*

.moony. disse...

;___;

(isso me fez lembrar o meu pesadelo mais apavorante: eu estava enterrada, de pé, e podia ver o que acontecia acima de mim. minha irmã vinha me visitar, deixar flores, eu acho, e eu não conseguia sair de lá.)