sexta-feira, 30 de abril de 2010

meus dois parágrafos

§ eu quero você, como eu quero
§ os outros são os outros e só



pra encerrar o mês.
pra lembrar num dia de chuva.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

a última flor do lácio

Reli teu recado tantas vezes, e a vontade de chorar contigo veio em todas elas. Pensei em escrever uma cena onde duas pessoas dividiam o momento que tu descreveu. Seria um jeito meio fantasioso, e talvez bonito, de nos colocar no mesmo espaço físico por alguns segundos, pra te dar meu colo, mas acho que uma vez fiz isso sem perceber, e acho que é o que eu gostaria de dividir contigo. Talvez tu não saiba, mas tu é alguém com quem eu gostaria de dividir um espaço para tatuar paredes; talvez tu não saiba, mas há algo em ti que eu admiro e me faz lembrar das coisas boas - de todas elas; talvez tu não saiba, mas há poesia em ti. Há essa rima, essa melodia de versos curtos que eu consigo enxergar nos teus comentários e textos, e que eu acho tão bonita e encantadora. E agora tu sabe, porque há coisas que precisamos saber ou ao menos ter certeza. Por outro lado, eu não sei dos motivos que te levaram a essa angústia, mas não saber não muda o fato de que me importo o suficiente para me preocupar. É que empatia é mesmo uma coisa muito bonita. E se não há terra que nos una agora, ao menos há língua, há palavra; especialmente essa.







Fica bem. ♥

coletânea III

(I, II)

3. Para o Seu Messias:

Eu estava tentando lembrar, quando o nome do senhor me veio à mente. Era o senhor quem gostava de Machado e me contava Dom Casmurro. Foi o senhor quem disse primeiro sobre o meu futuro, "Tu serás feliz, minha filha", citando seu livro preferido. Ah, Seu Messias! Não sei se o senhor sabe, mas eu morri cedo. Tão cedo que se conhecessem o senhor e a mim ao mesmo tempo, achariam um absurdo uma menina tão nova ir embora no lugar de um senhor tão idoso. Aliás, o senhor seria mais taxativo que eu no adjetivo, e me interromperia dizendo "velho mesmo" pra se referir a si mesmo. Acontece, Seu Messias, que velho é aquilo que está ultrapassado, e apesar da rugas no rosto, dos olhos cansados e dos cabelos grisalhos, nunca achei que o senhor fosse ultrapassado. Pra falar a verdade, o senhor sempre foi a minha plataforma PS3, com jogos de boas histórias, tipo Final Fantasy, sabe? Mas não, é claro que o senhor não sabe. Eu não permiti que o senhor soubesse disso antes de eu morrer. E agora eu olho para o senhor e para sua lojinha, aquela na qual eu parei tantas vezes com o pessoal da escola pra tomar uma coca-cola de cinquenta centavos - o senhor lembra da gente, Seu Messias?

Deve lembrar, eu espero que lembre. Mas como ia dizendo, o fato é que agora eu fico olhando o senhor, e me dá um aperto tão grande no peito, Seu Messias, quando te vejo assim tão triste pela Dona Marta, que acho que eu poderia até morrer de novo por causa da sua tristeza! É que nunca tive avô, sabe, então eu meio que acabei pegando o senhor emprestado sem o senhor saber... Ah, Seu Messias! Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Queria que o senhor soubesse que aquilo que o senhor disse pra mim aconteceu, aconteceu de verdade, mesmo que eu tenha ido tão cedo. Eu morri jovem, Seu Messias, mas fui feliz. Fui feliz até o último segundo do qual consigo me lembrar. Eu fui feliz, Seu Messias! E isso não vai trazê-la de volta, isso não vai fazê-la respirar de novo, isso não vai mudar muito as coisas, mas é que eu queria que o senhor soubesse. Eu queria tanto que o senhor soubesse...


coletânea II

2. Para a loira do banheiro:

Você ganhou esse apelido porque cheirava no banheiro da faculdade. Não era todo mundo que sabia. Era só o seu jeito de passar o tempo, de matar as aulas que você julgava serem chatas. Nunca me dei o trabalho de te julgar, e também nunca me interessei em fazer igual, mas as outras pessoas que sabiam diziam que você fazia isso porque era meio desajustada, porque tinha problemas demais em casa e que, apesar de não justificar, explicava muita coisa. Alguns vivem em busca da batida perfeita, do verso perfeito; você buscava uma onda que não acabasse nunca. As pessoas lamentavam. Ninguém nunca chegou pra você e disse "para, garota, para que isso vai acabar contigo um dia". Ninguém nunca quis ter esse trabalho ou essa responsabilidade. Mas todos eles comentavam uns com os outros sobre o seu estado. Eu inclusa, e me dá até vergonha disso, hoje em dia. Do teu lado o meu futuro sempre foi promissor. Deixa eu te contar um segredo? Tinha gente que fazia bolão pra ver quando você ia ter uma overdose que te matasse. Cruel, né? As pessoas podem ser bem cruéis, às vezes. Eu nunca entendi esse tipo de brincadeira, e mesmo agora não entendo. Era meio triste te ver magra demais, pálida demais, com olheiras demais. Eu me perguntava se sempre tinha sido assim, mas acho que não. Gosto de pensar que não. O problema é que você sempre foi meio invisível, entende? E talvez esse até fosse um dos motivos pra você se enterrar no pó, quem sabe. Eu certamente que não. A gente nunca foi amiga, mas eu bem que podia ter dito, naquela época, que tua vida não precisava ser um fracasso. Que você era bonita. Que você era adorável. Acho que você teria acreditado em mim, e é engraçado. Acabei não dizendo as coisas que queria dizer, e você também acabou não precisando delas. Eu não estava lá quando você se deu bem. Quando você deixou de ser a loira do banheiro. Fiquei feliz.

Lá no fundo, entretanto, fiquei também com um resquício de frustração por não ter participado da parte boa da sua história - vou te confessar, a ideia de não ter deixado coisas boas o suficiente na vida das pessoas é algo que me preocupa. Por isso fiquei surpresa, e contente!, quando te vi lá por mim. Você era mesmo muito bonita. Obrigada por ter me levado flores.




P.S.: Não é irônico, querida, que a despeito do seu título, quem acabou se tornando uma assombração fui eu?

sábado, 24 de abril de 2010

post it

Tenho ideias que não anoto porque gosto de deixá-las suspensas, como nuvens. Sem nunca levar em consideração que nuvens se dissipam.


sexta-feira, 23 de abril de 2010

a música continua tocando

Existe algo de bonito em juntar as últimas moedas da carteira pra comprar destilado e Coca-Cola com os amigos lá no Extra. Sentar numa daquelas mesas de pedra da Afonso Pena pouco antes da meia-noite, e descobrir que rum e Coca misturados, ambos quentes, são uma grande bosta, mas que quando a gente toma aquilo numa rodinha que consegue discutir sobre sexo e as obras de Machado de Assis, com o mesmo interesse, a gente releva. Ouvir os fogos em comemoração a um santo, e ver que o céu ficou iluminado como se fosse dia; cantar juntos uma música antiga do Panic enquanto ela toca no celular de estranhos; sentar no balanço e ver o quão alto a gente consegue chegar; fazer tudo isso até as duas e meia da manhã.  Existe algo de muito bonito nisso tudo, que não consigo transcrever com exatidão, mas que gostaria registrar. Talvez a noite não fosse tão boa se não estivesse com eles


.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

um espaço para Clarissa

Conheci essa menina há três anos; não lembro bem o motivo, e na verdade acho que isso não importa muito agora, mas o é que eu sei de verdade? O que eu sei é o que veio depois, logo em seguida ao esbarrão que deram nossas vidas. O que eu sei é que numa hora sequer desconfiávamos da existência uma da outra, e noutra hora já falávamos sobre os momentos de ouro da adolescência, como se fôssemos realmente velhas - o que não era o caso -, como se fôssemos realmente íntimas - o que também não era o caso. Naquela época a adolescência ficava a apenas dois ou três anos de distância, números inversamente proporcionais ao tempo durou nossa pequena conversa e o início de nossa aproximação. 

Cabe registrar aqui que sempre gostei de estranhos. E ela me parecia uma estranha simpática, alguém que numa olhada rápida jamais teria algo em comum comigo, salvo um ou dois livros, mas que três horas e meia depois e quem diria? Ela não sabia muitas coisas a meu respeito, nem era minha melhor amiga de todos os tempos, mas entendia com amplitude tudo o que sabia, porque  o que sabia era o que sentia com as mesmas preocupações e as mesmas proporções que eu. Não me admira o fato de ter gostado tanto dela como passei a gostar. Aquele carinho e cuidado de quem cuida de feridas sensíveis, as minhas e as dela.

Ela e eu não temos os gostos exatamente próximos, ou mesmo a linha de pensamento igual; não temos estilos de vida nem remotamente parecidos, e nossa posição em relação à sociedade é ridiculamente discrepante. Mas não peço que entendam, nem faço questão disso. Uma verdade? Já me dediquei a não suportar uma boa parte do que o mundo dela representava, para logo em seguida me sentir completamente entediada e indiferente em relação a ele, sem que isso, entretanto, afetasse minha consideração por ela. Isso acontecia porque essa consideração era uma das coisas que eu julgava estar além, assim como a própria visão que eu tinha e tenho dela - a de que existe algo muito importante além daquilo tudo, além do que ela mostra, além do que as pessoas geralmente enxergam, além do que talvez ela mesma invente para si. 

Eu olho pra ela de longe porque de longe ela é tão vulnerável quanto eu, quanto você, ou quanto qualquer um. Tão vulnerável, e igualmente incapaz de desmentir isso. Mas sabe qual é o ponto importante? Pra mim ela não desmente - e fico grata pelos seguidos votos de confiança. Mas como não acho isso feio ou vergonhoso, conto aqui. Ela é algo entre mulher e menina, caminha sempre sobre essa linha, e não raro vive uma confusão em si mesma, "o que ser quando crescer?". Ela é bem mais bonita do que as pessoas pensam, e bem menos ruim do que gosta de mostrar - para si mesma e até para os outros. E de mim para ela, só um desejo: que ela veja em si mesma tudo o que eu vejo nela. Um dia, quem sabe? O que ver quando crescer.




-- a JK disse, certa vez, que tem coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro. A isso, eu só queria acrescentar que tem coisas que não se pode dividir com alguém sem acabar gostando um do outro - e que essa coisa chamada alma, essência, ou o sinônimo que preferir, é bem uma delas. Eu sempre gosto de quem divide comigo algo tão importante.

domingo, 18 de abril de 2010

o que eu quero dizer

que meu pc estragou no momento que eu mais precisava dele, que eu tenho tentado e tentado e tentado escrever, mas que todas as coisas que eu escrevo nunca saem tão boas quanto podem e deveriam sair, que isso me desespera, que isso me enraivece, que no meio da noite eu preciso conversar com alguém, com qualquer pessoa, que eu olho pra lista de contatos no meu telefone e recuso todos os nomes não porque eu acho que alguém não vai entender, mas porque sei que mesmo querendo conversar e mesmo que entendam, não vai adiantar nem mudar nada do que eu venho sentindo, que o que eu venho sentido está diretamente ligado ao fato de que as coisas que eu escrevo podem ser bem medíocres, e que essa consciência faz eu me sentir medíocre igual, porque mesmo que não pareça, mesmo que eu fantasie, mesmo que eu floreie cada texto e cada história, é só um jeito que eu tenho de me virar do avesso e me entregar para as pessoas, que apesar de eu não contar tudo o que acontece no meu dia, eu conto todas as coisas que eu sinto usando bocas de gente que só existe na minha cabeça e talvez dentro do meu peito, que eu invento diálogos só pra mim quando eu me sinto muito sozinha, que eu invento pessoas só pra mim quando eu me sinto muito sozinha, que eu faço isso não pra inventar aceitação, mas sim pra receber (auto)críticas relacionadas aquilo que tenho medo de contar e mostrar pras pessoas, que eu me cobro muito, que quando deito na cama, fecho os olhos e crio histórias pra ver se sonho com elas, que às vezes tenho medo do que sonho, que às vezes gosto tanto do que sonho que não quero acordar nunca mais, que eu tenho muito orgulho de alguns amigos, que sou muito grata a todos os meus amigos, que eu sinto falta de abraços e carinhos, que eu sinto falta de muitas coisas, que eu fico sem graça por sentir tanta falta, que eu me acho patética por isso (por sentir falta, e por ficar sem graça por sentir falta), que eu me sinto especial como dizem que eu deveria me sentir, mas que acho que isso não é o suficiente, que eu não sinto raiva de ninguém por isso, só de mim, por sentir que estou perdendo alguma coisa, por sentir que estou deixando de ver alguma coisa muito importante, que acho que não tenho conseguido escrever porque tem me faltado reconhecimento, que de uns tempos pra cá eu já não me sinto mais tão próxima das pessoas, que eu não me acho melhor que elas, mas muito muito muito diferente pra continuar sentindo alguma coisa por elas, que parece que meus estranhos de metrô não me encantam mais, que eu venho perdendo o interesse pelas histórias dos outros e pela minha própria, que a vida tem me dado sono, que eu tenho ficado entediada, que eu sou impossível de esquecer, mas difícil de ser lembrada, que eu ainda amo dias bonitos, que o dia de hoje está bonito, que estou me sentindo doente de amor e desapego, que eu quero vomitar, que eu acabei de perceber que vomitar e motivar tem as mesmas letras e que isso de alguma forma me soa muito engraçado, que eu tenho rido sem sentir vontade, que eu tenho vontade de rir sem estar feliz, que em algum momento meu coração se estilhaçou e eu não vi isso acontecer.

mas eu acho que já disse.



domingo, 11 de abril de 2010

tag


black balloon makes her fly.

Mas não agora.

god, save the queen

Permita-me dizer que estou do teu lado. Permita-me ficar ao teu lado. Rir contigo minhas alegrias e confidenciar minhas tristezas, e te mostrar que confio minha vida a você. Permita-me te ouvir. Receber tua cabeça sobre meu colo, correr meus dedos pelos teus cabelos, enquanto você narra suas histórias fantasiosas e mentirosas adicionando verdade em cada vírgula, em cada sílaba que decide partilhar. Permita-me acreditar em você. Permita-me não porque eu peço, mas porque eu quero, quero muito!, quero tanto que tu não fazes ideia do quanto pesa o meu peito e minha consciência por não conseguir. Então permita-me, conceda-me a graça de crer. Crer na tua existência, na tua dança, nos teus gestos, no teu amor. Porque se assim não for, e eu repito, se assim não for, acho que terei de cortar a tua cabeça.


E eu não gostaria de coroar uma cabeça decepada.



-- o motivo foi ele, mas era só uma questão de tempo até meus pulsos se renderem a elas.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

dedicatória

i'll never talk again, oh boy you've left me speechless
you've left me speechless, so speechless
and i'll never love again, oh boy you've left me speechless
you've left me speechless, so speechless





o que eu queria agora






quarta-feira, 7 de abril de 2010

postsecret

1. No trabalho, a notícia de que dois colegas tiveram suas casas destruídas. Uma delas teve o teto sobre seu corpo, sobre o corpo de sua mãe, e sobre o corpo de sua filha. Teve a sorte de sair de lá com um pé quebrado, a filha com pontos na cabeça, e uma mãe em estado grave, porém viva, apenas não sentindo as pernas. O preço que elas pagaram foi só a casa e tudo o que havia dentro, talvez um pouquinho mais. A natureza deixou que levassem a roupa do corpo; no caso do rapaz, a chuva foi mais impiedosa. A enxurrada levou o corpo das duas crianças, ele só conseguiu segurar uma, e a água-a-terra-o-lixo se encarregaram da outra. Não bastou levar a casa, a natureza também tomou o sobrinho dele. Não tinha como não ser triste.

2. Às vezes eu olho alguns posts daqui e vejo que eles estão sem comentários. Eu não ligo muito. Acho legal quando alguém vê algo que gosta e manifesta, fico imensamente feliz, mas também não é como se eu fosse ficar irremediavelmente chateada com o contador a zero. Acho que o que me chateia de verdade é quando saio dos meus contos - que também não deixam de ser confissões, diga-se -, posto de cara limpa, e aí sim o contador a zero. Quarenta e nove hits, mais de sessenta page views, e o contador a zero. A sensação que me dá é a de que falei horas e horas para uma multidão que me viu, que me deu atenção por alguns instantes, e que me deu às costas logo em seguida. Sexo casual sem despedida, espero que tenha sido bom pra você enquanto fumo meu cigarro sozinha. Não, não acho que seja por mal; não estou pedindo que falem algo da boca pra fora só pra me agradar - um pirulito para uma criança mimada -, isso é só um desabafo. Sim, ainda posto aqui pra isso, e é isso o que estou fazendo, sem cobrança, só um desabafo. E se cheguei até aqui, foi pela minha frustração. Minha escada para as reclamações tardias, porém consideráveis. Hoje eu cheguei em casa cansada demais pra fingir que não me sinto sozinha, e que às vezes postar aqui só parece piorar as coisas. Mas é só às vezes.

3. Ele me ligou. Com todos os pormenores complicadores, com todos os impedimentos claros e óbvios, com todos os motivos do mundo pra não ligar, ele me ligou. E depois de fechar o flip do celular, me perguntei por que o outro não fez o mesmo quando o nosso caso sempre foi muito, muito mais fácil. Confesso, apesar de tudo o que está acontecendo a minha volta, pensar nisso me deixou um pouco mais triste.



terça-feira, 6 de abril de 2010

olá, estranho

Ela só queria ir para o cursinho, chegar na hora pra variar. "Aqui mesmo ou mais à frente?", perguntou o motorista. Abriu a boca para responder, mas um rapaz foi mais rápido: "Mais à frente!", ele gritou. Que saco. Olhou rápido para o garoto - pelo menos era bonitinho. Desceu um ponto depois do que deveria, por causa do rapaz e porque a chuva já tinha alagado a outra rua. Não era como se desse pra andar, de qualquer forma; chovia forte, o guarda-chuva era daqueles bem vagabundos, e água começava a subir. Se abrigou embaixo de uma marquise pensando que era uma droga ter saído mais cedo do trabalho pra não conseguir chegar à aula a tempo. O garoto do ônibus, também sob a marquise, puxou assunto. "Eu ia levar essas compras pro meu filho em Jacarepaguá, mas com essa chuva não tem como. Vou ter que voltar pra casa sem elas". Tem um filho, que pena. Era mesmo bonitinho. Mas chuva não passava, os bueiros transbordavam um a um, e as pessoas continuavam a falar. Em quinze minutos de conversa, descobriu nome, idade, e metade da vida do garoto; ele não descobriu nada dela que não fosse idade ou apelido. Quando a chuva estiou um pouco, ela ofereceu uma carona pra ele em seu guarda-chuva. Certamente não seria muita coisa, mas também daria pra evitar um estrago maior. Saíram da marquise sob votos de boa sorte, e foram em direção ao ponto de ônibus dele, na Saens Peña. Pensou que no quão engraçada e deslocada era aquela situação, no meio de tanta gente apreensiva por causa do temporal recente e, agora, mais contido. Ele mencionou que estava morrendo de fome, e ela deu algumas indicações de onde ele poderia ir, uma delas próxima ao seu curso. Mal sabia ela que a o caminho até o cursinho deu lugar a um rio de lama e água de esgoto. Se ainda havia alguma esperança de ter aula de literatura e física naquela noite, ela havia acabado de ser dizimada. "Bem, que tal o shopping? Tem mais variedade, mesmo". Uma pausa aqui. Devemos lembrar que, enquanto ela andava de um lado para o outro de braços dados com um estranho sob seu guarda-chuva vagabundo, a cidade inteira estava parada tentando desesperadamente e sem sucesso voltar para casa. Obviamente ela não fazia ideia real do estado crítico em que os bairros a sua volta se encontravam, embora existisse uma certa desconfiança, mas também é verdade que não estava muito abalada nem em muita desvantagem geográfica em relação aos demais cidadãos cariocas. Retornando à nossa narrativa... Pensou que aquilo tudo parecia um de seus contos quando deu a ele uma nota de cinquenta reais para pagar seus chopps, ao que ele respondeu, em gesto, deixando sua carteira em cima da mesa, junto dela. "Só pro caso de você ter pensado que eu poderia fugir com o dinheiro", sorriu. "Eu não pensei!", ela devolveu, e era verdade. A essa altura, sim, ela sabia que a vida dele foi um tanto complicada quando mais novo, que ele próprio era mais novo que ela, ainda que tivesse um filho de um ano, e que morava com uma mulher que não era a mãe desse seu filho. Mas a essa altura, também, estava irresistivelmente encantada com a hipótese de ficar com ele naquela noite, talvez porque aquele encontro casual merecesse um desfecho do tipo. Não pensou mais no cursinho. Houve um momento em que pensaram em como avisar a mulher dele de que, no fim das contas, ele não tinha ido pra Jacarepaguá, e que ela não precisava se preocupar porque ele estava em local seguro, e que passaria nas Lojas Americanas ainda pra comprar alguma coisa. O problema todo consistia em fazer uma ligação do celular dela, sem que a mulher descobrisse que o número era de outra garota. Bem, o rapaz da barraquinha de chopp da Brahma foi a pessoa selecionada para interpretar o papel do amigo imaginário do  nosso querido estranho da chuva. Foi mesmo uma pena quando o Brahmeiro disse que não poderia falar ao celular por causa das câmeras, que não era permitido em horário de trabalho. Teria sido um plano genial e infalível! Ou não. Desistiram dos planos mirabolantes, então. Além do chopp, pediram uma pizza, e foi ele quem pagou a conta. Fez tanta questão que ela, sem graça, aceitou e agradeceu. Foram de verdade para as Lojas Americanas: ele queria comprar um ovo de páscoa para sua mulher, e ela queria comprar balinhas de caramelo para o garoto de quem gostava. Sim, pode parecer engraçado, mas mesmo pensando que seria muito legal ficar com o seu estranho da chuva naquela noite, não tinha como simplesmente não falar do outro. Dele. Falou, então, e o estranho entendeu. Na fila do pagamento, a mulher dele ligou, esbravejou, e desligou o telefone na cara dele. Ele ficou chateado e desistiu do ovo de páscoa - "Acho que ela não merece mais", comentou dando de ombros. No caixa, ele só passou um Trident, e a atendente perguntou "Vocês estão juntos?". Os dois se olharam, "Não. Quero dizer, mais ou menos", e sorriram. Desceram até o primeiro andar em direção à saída, a noite de playlist aleatória se aproximava do fim. "Você vai pra onde?", ele perguntou. "Pra casa, mas não sei se de ônibus". "Ah, pensei em te dar carona, mas não vai dar. Vou ter que ir de táxi, senão ela fica louca", ele riu. Ela riu também, e disse "Bem, então acho que é aqui que a gente se separa". Mas não foi necessariamente o que aconteceu. Era pra ser um tchau, era pra ser um beijinho sem graça no rosto, mas o tal beijinho teve outro destino, e no fim das contas ele a beijou de verdade. Foi um daqueles beijos com bastante vontade, como se tivesse sido esperado a noite inteira - e talvez tenha sido; ao menos foi da parte dela. Foi um longo beijo na chuva, na frente de uma plateia estagnada e metaforicamente abraçada ao seu porto seguro numa cidade embaixo d'água. Quando se separaram, um "Uau" mútuo. Até entraram de novo no shopping, até se beijaram mais vezes, prolongando a noite enquanto dava e enquanto podiam - e ela podia mais do que ele -, mas se aquele fosse o conto de Cinderela, então o relógio já teria batido há uns bons quinze minutos, o que significava que não duraria mais tempo. Do shopping até a saída foram se beijando, da saída e enquanto atravessavam a rua foram se beijando. Não tinham como ser mais irresponsáveis, mas a pista estava vazia mesmo. Ou parada. E riam, riam, riam. Poderiam apostar que Cinderela não se divertiu tanto. Mas ele tinha que ir, e a noite tinha sido boa, de qualquer forma. "Ok, acho que agora sim a gente se separa", ela disse, e ele a beijou de novo. Não era como se conseguissem parar, sabe? Mas pararam. "Foi um prazer te conhecer", ele disse, seguido de outro beijo. "Igualmente", ela respondeu, seguido de outro beijo, finalmente o último. Disseram tchau, e ele atravessou a rua. Talvez se encontrassem de novo, talvez não, mas também não pensaram muito a respeito. Acho que, na verdade, só se preocuparam em fazer a noite valer a pena - e ela valeu. Numa noite em que a cidade vivia o caos, se eles conseguiram se deixar alheios a tudo, então a noite valeu. Adeus, estranho; de verdade, foi um prazer te conhecer.


-- se ainda houver dúvidas, então sim, ela era eu.


domingo, 4 de abril de 2010

arcano maior

Essa noite eu morri, mas era só um pesadelo. Eu morri, e continuei andando pela terra como se ela me pertencesse; como se eu pertencesse a ela, na verdade. Acho que tinha acabado de acontecer, ou não tinha acontecido há muito tempo. E eu não sabia como, mas as pessoas podiam me ver. Aliás, algumas delas só descobriam que eu estava morta depois de me ver. E eu tentava descobrir o que havia acontecido comigo, como eu havia morrido, mas ninguém me falava. Eles ficavam me mandando de um lado para o outro, só. "Teu irmão não sabe". E eu ia até ele. Ele me via e eu não podia abraçá-lo. Eu não podia mais muita coisa. Eu pedi desculpas. Um estalo, e eu encontrei outra pessoa, alguém que eu não me lembro de ter conhecido. Ela disse pra eu aproveitar porque não demoraria para as pessoas deixarem de me ver, e que eu iria gostar de falar com algumas pessoas que pareciam não estar ligando. Lembro de ter ido parar na casa de uma amiga - eu só podia aparecer em lugares os quais eu já tinha entrado. Ela estava sentada na mesa com o namorado preparando o almoço. Eu não podia vê-los, mas eu sabia. Fechei os olhos e tentei atravessar a porta, mas não consegui. Só a empurrei com muita força, como se tivesse chutado, mesmo que eu só a tivesse tocado com os dedos. Eu já não tinha o corpo físico, mas a energia aparentemente não podia atravessar nada sem que fizesse algum esforço. Tentei mais uma vez e consegui. Os dois me olharam, e ela comentou que não poderia ir por causa de taxas federais. Eu nem sei se existe isso de taxas federais. O namorado ia comentar alguma coisa, mas desistiu no meio do caminho; só levantou e disse que estaria na sala. Ela esperou ele sair pra me dizer que não só não poderia ir, como também não tinha vontade. Acho que estávamos falando do meu funeral. Ela disse que não ia e eras isso. Ela disse que aquela conversa também não fazia sentido, que ela não podia conversar comigo porque não podia ceder o tempo dela pra gente que já morreu. Que eu estava invadindo o espaço dela aparecendo ali, que ela não queria falar mais comigo, que eu tinha que superar tudo e deixar todo mundo esquecer e viver em paz. Aí eu gritei. Não lembro o que dizia enquanto gritava, só lembro que gritava muito. Mas não era raiva, não era com ela que eu estava gritando, era por minha causa, só. Era por frustração, era porque eu estava morta, era porque eu sequer sabia como havia morrido, era porque eu não poderia mais fazer parte da vida de ninguém porque já não havia mais esse espaço pra mim. Eu mal existia pra ocupar algum espaço! Eu gritava, e o meu grito era desespero.

Ninguém nunca parece pensar nisso, quando falam sobre vida após a morte. Que se o morto lembrar de sua vida anterior e de todas as pessoas que o cercaram, se o morto mantiver o sentimento que nutria por elas em vida, ele se descobrirá sozinho. Não foi o mundo que o perdeu, foi ele que perdeu o mundo. Acho que por isso gritei tanto. Porque me dei conta de que, mesmo morta, ainda possuía consciência de tudo.

Chorei tanto no sonho que acordei chorando também. Chorei, chorei, chorei, chorei. Uma tristeza tão grande, uma angústia tão grande, de repente o peso do mundo sobre minhas costas, de repente o peso da vida sobre minhas costas. Chorei de soluçar, e fui amparada pelo meu irmão. Chorei de soluçar porque me dei conta de que, ainda viva, eu já tinha consciência de tudo - e eu não queria ter.

(essa foi a primeira vez que tive medo de morrer).



do modo indicativo


Hoje eu devia ter ido à casa dela, mas não fui. O telefone tocou umas duas ou três vezes, "Você vem?", até que na terceira eu respondi que "Não, não vou. Não tô afim". E isso não me assusta. Não sei se deveria assustar, mas se deveria, simplesmente não assusta. Nem naquela época, há cinco anos, eu me senti assim. Lembro que ainda era bom estar junto deles; lembro que ainda era bom rir com eles, rir das mesmas coisas que eles riam; lembro que eu costumava me divertir. Não sei o que mudou. Talvez eu, talvez eles, talvez todo mundo. Nós éramos todos amigos, e antes de todos, éramos amigas nós cinco, as cinco amigas improváveis, as melhores. Até o dia em que não éramos mais; até o dia em que não eram mais muita coisa pra mim. Não sei, sinto que alguma coisa foi embora. Eu amava demais aquelas meninas. As quatro. E queria dizer que ainda as amo, mas falta alguma coisa muito importante pra que isso seja verdade. Eu lembro que contava minhas coisas pra elas, lembro que conversava até o dia amanhecer, lembro que a casa elas era minha casa e vice-versa, lembro que eu me sentia confortável na presença delas. Até o dia em que isso mudou. Tudo mudou. Eu olho pra elas com um carinho inimaginável, pra quem teoricamente já não ama, mas às vezes sinto tédio também. Na maioria das vezes o tédio. Uma impaciência muito muito grande, uma vontade de estar o mais longe possível. E uma saudade enorme, extensa, mas que não alcança a intenção de estar junto de novo. Nós éramos as melhores, éramos o nosso próprio orgulho, vias sem segredos, comunicação infalível, intimidade graduada! Aí acabou, como acabam a maioria das coisas. Numa reticência de três pontos hesitantes. E eu sinto muito. Sinto muito por isso, sinto muito por tudo. Mas é que falta alguma coisa muito importante pra eu voltar; pra gente voltar. Tudo ficou no "éramos". Sinto muito pelo pretérito. Que ironia. Pretérito imperfeito.



free hug




sábado, 3 de abril de 2010

coletânea

1. Para o meu melhor amigo:

Queria dizer que amei você desde o início, desde o princípio dos tempos, mas ambos sabemos que essa seria uma mentira muito sem vergonha. Primeiro porque a gente não foi amigo de infância nem nada; nossa amizade começou só no colegial, amigos de ensino médio e do que veio depois. Segundo que ninguém ama assim de cara, assim de uma vez - pelo menos não eu, e você sabe disso. É por isso que não dá pra dizer que amo você assim, desde sempre, por mais que eu queira ou por mais que pareça. Mas eu queria que você soubesse disso. É tarde, eu sei. É bem tarde. Eu te vejo assim de longe, eu te vejo assim feliz, e queria dizer que você está indo muito bem, que você está no caminho certo. Acho uma pena não poder. Acho uma pena não poder dizer agora, e uma pena não ter dito antes. A gente é sempre meio idiota, né? Em ficar adiando as coisas importantes, o clichê da vida urbana. Em dar o devido valor às coisas e às pessoas depois que a gente simplesmente perde tudo. Kurt Cobain disse uma vez. Ou ao menos dizem que ele disse isso, naquela carta de suicídio. E eu queria ao menos ter dito isso em alguma carta, antes, mesmo uma de suicídio, porque daí pelo menos você saberia, talvez então você pudesse ficar tranquilo. Eu fico feliz que tu esteja bem, durante o dia você sempre está muito bem, mas daí eu te vejo durante a noite e sei que você não dorme pensando em tudo o que aconteceu. Eu não te conheço desde sempre, sabe, mas conheço o suficiente pra saber que o motivo da tua insônia sou eu, é aquilo, é a gente. Queria que você ficasse bem o tempo todo. Queria, queria muito, queria demais. Porque me dói te ver assim, parece que você fica fingindo uma coisa pra todo que não é verdade, e eu sei que é, o pior é que eu sei que você está bem, mas essa parte ruim que eu consigo ver e que talvez só eu consiga ver que me incomoda demais. Como se tivesse alguma coisa estranha crescendo dentro de você, uma angústia sem fim, uma tristeza sem fim, uma apatia sem fim. Eu sei que taí porque eu vejo e te vejo. Você nem percebe, às vezes. O problema é a insônia. O problema é que eu nunca pude dizer que te amava, é que tu nunca ouviu isso da minha boca, nem viu isso na minha letra. O problema todo é esse. Eu deixei você ser meu amigo, meu melhor amigo, mas não deixei você saber e ter certeza de que, se eu era tão feliz, era porque você tava comigo. Não deixei você saber que eu te amo. Você não ouve, mas eu te amo. Você não lê, mas eu te amo. Você já não me leva flores, mas eu te amo. Você não me deixa morrer em paz, mas eu te amo. Eu te amo sempre, eu te amo desde o início, desde o princípio dos tempos. Queria que você soubesse, que você acreditasse. Pra você dormir à noite, e pra eu finalmente deixar esse mundo. Pra que tudo seja leve pra nós dois.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

rock's prayer


Não tem a ver com o delineador ou lápis de olho. Não tem a ver com unhas pretas e tatuagens e correntes. As pessoas têm essa mania de enxergar errado. Isso tudo na verdade é rock 'n' roll, e não tem nada a ver com cabelos repicados de pontas coloridas. Tem a ver é com a guitarra gritando e berrando com você, com o baixo te segurando os braços, com a bateria te empurrando, segurando tua cabeça e fazendo ela balançar. Não tem muito a ver com sexo não, como as pessoas gostam de dizer. Rock não é música pra você dançar até o chão, pra você se esfregar no carinha que te olha como se você fosse a porra de um baby beef, pronto pra ser comido; rock não é música de acasalamento. Rock não tem a ver com o que mostram na TV, com a maconha e a cocaína, com uma 9mm e o suicídio, com doenças sexualmente transmissíveis. Rock não é nada disso. O problema todo, o problema de verdade, é que rock mexe com a cabeça antes mexer com corpo. Antes de você pensar em dançar ou de pular ou de gritar, a música já invadiu o teu cerébro e então já era. É o caos harmônico. É tanta energia, é tanta vibração, que eu entendo as pessoas enlouquecerem por causa disso; eu entendo as pessoas ficarem desesperadas pra encontrar uma maneira dessa energia se esgotar. Daí elas cheiram; daí elas trepam; daí elas estouram a cabeça com uma arma, às vezes com uma FUCKING arma, tipo uma 12 - 9mm what? Eu fico vendo essas pessoas. Daqui do alto eu vejo todo mundo, daqui do alto eu sinto todo mundo, a alma de todo mundo. Eles deixam um pouco da alma deles aqui no palco, eles gritam, eles se jogam, eles invadem o espaço da gente enquanto a gente invade o espaço deles. A gente se joga em cima da multidão e a multidão nos mantém no alto. É a coisa mais bonita do mundo. É por isso que eu grito. É por isso que eu grito toda a minha alma, pra que eles tenham um pouco dela também. Uma troca justa, sabe? Porque eu sinto pena deles. Não de todos, mas daqueles que vão sair daqui pra trepar com estranhos enquanto estiverem completamente bêbados e descontrolados, sinto pena daqueles que enfiaram na cabeça que têm que morrer e que vão tomar alguma merda ao passar por aquele portão, sinto pena daqueles que estão ali no canto negociando a onda que terão quando o show acabar. Só que eu não posso parar de cantar, eu tenho que continuar cantando e oferecendo minha alma pra eles. Rock é isso. É essa entrega, é todo mundo se entregando a alguma coisa de alguma forma. É só que algumas pessoas se entregam às coisas erradas, e eu não posso fazer nada por elas. E agora você pensa que eu poderia simplesmente avisá-los, que eu poderia alertá-los, "hey, vocês estão acabando com suas vidas, não façam isso por favor". Mas a verdade é que seria inútil, porque isso não tá nas minhas mãos. Eu canto pra eles, eu grito pra eles, eu jogo minha alma e minha vida na cara deles, esfrego, escrevo, toco isso na guitarra, no baixo, na bateria, e eles não vêem. Eles cantam comigo tudo o que eu desejo pra eles, tudo o que eu gostaria que eles percebessem, e mesmo assim eles não vêem. É por isso que eu digo que não está nas minhas mãos, ou mesmo nas minhas cordas vocais. Eu deixo eles viverem. Eu deixo eles fazerem o que eles quiserem, porque eu os respeito. Acima de tudo, eu os respeito. Eles gritam o meu nome, amanhã eles vão estar roucos por minha causa, como eu poderia não respeitá-los? Discordo pra cacete da maneira que eles descarregaram, que eles se desmagnetizam, mas não é minha responsabilidade. É coisa do som. O problema todo é que o som liberta, ele te impulsiona à liberdade, e não é como se todo mundo soubesse o que fazer com a liberdade. Eu tô aqui pra cantar, só. O rock é minha música, o rock é minha vida, o rock é meu destino. Poderia ser o de muita gente que está aqui. Então eu canto, canto, canto. Porque ao contrário do que dizem, eu não sou um Deus. Eu só estou aqui para servir, e nenhum servo contraria o seu Senhor. A multidão pede, a multidão grita, a multidão clama. E tudo o que sai desse microfone é Amém. Assim seja.