terça-feira, 30 de março de 2010

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O mundo sempre escurecia atrás dos seus dedos. Era engraçado. Essa coisa de você chegar por trás, de eu sentir sua respiração na minha nuca e meus pelos eriçarem, de nada disso ter uma conotação sexual. Era engraçado a gente ser tão íntimo e tão distante de ter uma relação de casal - quando todo mundo insistia que nós estávamos perdendo tempo negando um amor escondido, reprimido pelas nossas vontades. Mas nunca foi assim. Todos sempre estiveram enganados, como ocorre na maioria das vezes. A gente fazia das nossas vidas uma boa história, mas era algo que ninguém entendia - ou talvez só estivessem ocupados demais torcendo pelo nosso primeiro beijo; pela nossa primeira transa; pela primeira troca de juras de amor. Eu não sei, sinceramente. Só lembro de nós dois acompanhados um do outro. Só lembro de nós dois rindo um pro outro. Só lembro de nós dois sendo um do outro. Sem beijo, só abraços. Uma maneira diferente de se engolir, de se entregar, de se amar.

Era o seu corpo envolvendo o meu, ao invés de me invadir; era o meu corpo envolvendo o seu, ao invés de te abrigar. Era uma relação de igual pra igual, sempre foi - e a gente sempre querendo que os outros vissem a mesma beleza que nós. O mundo sempre escurecia atrás dos seus dedos, quando você tapava meus olhos, e acho que você tapou meus olhos durante muito tempo, por muitos motivos. O maior deles, desconfio, era que você sempre quis me poupar. Fosse de cenas maldosas, fosse de cenas cruéis. E é engraçado. Pensar que sua misericórdia sempre esteve envolta em escuridão. Digo isso porque um dia você foi embora, e de repente me vi sem a outra metade do que seria eu. Havia luz demais, havia espaços demais, havia vazio demais. Tudo tão dolorosamente branco. Como uma folha de papel desafiando um autor frustrado. Nossa história interrompida no meio de uma página. Você e eu inacabados, e uma multidão insatisfeita com nosso não-desfecho. Meu corpo envolvendo um espaço vazio, e seu corpo deixando uma lacuna na minha vida. Tudo tão dolorosamente branco. Um dia você simplesmente não estava mais lá, e eu me dei conta de que nunca mais o mundo escureceria atrás dos seus dedos - não havia mais tinta que preenchesse o mundo.



2 comentários:

Diana disse...

Eu tenho calafrios até hoje de ler a palavra "branco", maldita seja Jana! xD

Mylla disse...