quarta-feira, 31 de março de 2010

rosa

Ela é tão bonita. Com esses pulsos finos e dedos longos, com esse nariz pequeno e reto, e esses olhos de cílios grandes. Ela tem esse rosto em formato de coração, o queixo fino, a linha do maxilar bem definida, os cabelos curtinhos e repicados. Ela tem esse sorriso tímido, e unhas bem cortadas; tem essa mania que envolve colocar os cabelos atrás das orelhas, quase sempre, sempre que pode, sempre. Ela tem esses dentes pequenos, essa boca também pequena. Tem essas sardas suaves no nariz e nas maças do rosto, nada muito aparente, sempre muito discretas, que nem ela mesma. Ela veste essas roupas bonitas, de bonitos cortes e bonitas cores. Tem esses braços longos, é alta, tem essa pele bem clara. Talvez chegue a ser um pouco pálido, o tom de pele, mas tem as bochechas rosadas que não são assim por causa maquiagem. Acho que ouvi a voz dela uma vez. Era fraca, era baixa, era fina sem ser estridente; não era rouca. Lembrava sinos, pequenos guizos, sinos dos ventos. Acho que ela falou comigo só uma vez. Eu fico olhando pra ela, todo esse jeito de menina frágil, do tipo que se partiria não em pedaços, mas em estilhaços, caso ouvisse uma voz num tom mais alto, caso fosse tocada com um pouco menos de delicadeza. Todo esse jeito de porcelana trabalhada, de louça cara para ocasiões especiais, toda dada a frescuras e toda feita para frescuras. Eu fico olhando, e às vezes ela retribui o olhar, assim por cordialidade, assim por educação, e acho que ela não nota que eu olho pra ela sempre e sempre do mesmo jeito de quem observa muito, bastante, talvez demais. Eu fico olhando, e às vezes ela deixa escapar um meio sorriso, os pequenos dentes aparecendo na pequena boca, os lábios úmidos porque ela tem essa mania de molhá-los com a língua. Ela tem essas unhas pintadas de rosa. Ela tem esse cabelo castanho escuro, ela tem essa nuca branca, esses braços brancos, esses pulsos brancos, nenhuma tinta no corpo. Ela não faz o meu tipo, ela não tem piercings, ela não tem tatuagem, ela não pinta o cabelo, ela não parece ser muito interessante ou não parece ter opiniões muito interessantes, mas eu olhei pra ela um dia e desde esse dia eu não consegui deixar de olhar. Ela tem sobrancelhas finas, desenhadas num arco bonito e simétrico, e um perfume que lembra uma época boa da minha vida. Ela tem todas essas coisas, ela é todas essas coisas, ela não é muitas dessas coisas nem tem todas essas coisas, talvez seja tudo produto da minha cabeça, talvez seja eu romanceando a imagem dela, a existência dela, ela por inteiro. Não sei, só sei que talvez. E ela acaba de entrar na sala, ela acaba passar por aquela porta, ela acaba de olhar pra cá. Nossa. Ela é tão bonita.



terça-feira, 30 de março de 2010

black



O mundo sempre escurecia atrás dos seus dedos. Era engraçado. Essa coisa de você chegar por trás, de eu sentir sua respiração na minha nuca e meus pelos eriçarem, de nada disso ter uma conotação sexual. Era engraçado a gente ser tão íntimo e tão distante de ter uma relação de casal - quando todo mundo insistia que nós estávamos perdendo tempo negando um amor escondido, reprimido pelas nossas vontades. Mas nunca foi assim. Todos sempre estiveram enganados, como ocorre na maioria das vezes. A gente fazia das nossas vidas uma boa história, mas era algo que ninguém entendia - ou talvez só estivessem ocupados demais torcendo pelo nosso primeiro beijo; pela nossa primeira transa; pela primeira troca de juras de amor. Eu não sei, sinceramente. Só lembro de nós dois acompanhados um do outro. Só lembro de nós dois rindo um pro outro. Só lembro de nós dois sendo um do outro. Sem beijo, só abraços. Uma maneira diferente de se engolir, de se entregar, de se amar.

Era o seu corpo envolvendo o meu, ao invés de me invadir; era o meu corpo envolvendo o seu, ao invés de te abrigar. Era uma relação de igual pra igual, sempre foi - e a gente sempre querendo que os outros vissem a mesma beleza que nós. O mundo sempre escurecia atrás dos seus dedos, quando você tapava meus olhos, e acho que você tapou meus olhos durante muito tempo, por muitos motivos. O maior deles, desconfio, era que você sempre quis me poupar. Fosse de cenas maldosas, fosse de cenas cruéis. E é engraçado. Pensar que sua misericórdia sempre esteve envolta em escuridão. Digo isso porque um dia você foi embora, e de repente me vi sem a outra metade do que seria eu. Havia luz demais, havia espaços demais, havia vazio demais. Tudo tão dolorosamente branco. Como uma folha de papel desafiando um autor frustrado. Nossa história interrompida no meio de uma página. Você e eu inacabados, e uma multidão insatisfeita com nosso não-desfecho. Meu corpo envolvendo um espaço vazio, e seu corpo deixando uma lacuna na minha vida. Tudo tão dolorosamente branco. Um dia você simplesmente não estava mais lá, e eu me dei conta de que nunca mais o mundo escureceria atrás dos seus dedos - não havia mais tinta que preenchesse o mundo.



segunda-feira, 29 de março de 2010

new surrender

Hoje foi o show do Anberlin aqui no Rio, e acho que deixei minha alma lá no palco, junto com a minha voz. Foi sensacional. Sensacional do início ao fim, com o Stephen se jogando pra cima da galera, as palhetas e baquetas sendo lançadas, Anberlin prometendo voltar, todo mundo pulando e cantando todas as letras. Foi o máximo. Hoje acordei a pessoa mais feliz do mundo, hoje eu sou a pessoa mais feliz do mundo, hoje eu vou dormir a pessoa mais feliz do mundo! Não dá nem vontade de dormir, pra ver se continua. Foi simplesmente FODA.

E eles não tocaram Inevitable, mas tudo bem. Valeu a pena do mesmo jeito, cada centavo, cada grito, cada minuto. Foi foda demais, valeu demais, e mesmo isso parece muito pouco pra dizer o quão feliz eu fiquei e estou. Sei lá. Só sei que, oh, oh things are gonna change now, for the better; they're gonna change. ♥




quinta-feira, 25 de março de 2010

white

A bem da verdade é que eu adoraria deitar a cabeça no teu colo e deixar o tempo passar enquanto só fico de olhos fechados. Podia ser debaixo de uma árvore, podia ser no portão de casa - da minha ou da sua -, podia ser na cama. Eu não ligaria. Receber um cafuné já estaria bom. Um carinho na cabeça, um silêncio compartilhado, duas respirações compassadas. Coisas simples, um pouco de familiaridade. É o tipo de coisa que a gente deseja quando chega do trabalho, quando chega da faculdade; depois de um dia inteiro levando porrada da cidade inteira, sabe?, do cara que cortou a nossa frente no trânsito, da mulher do banco que fez a gente esperar horas pra não resolver o nosso problema, do motorista que parou o ônibus um ponto depois do que a gente tinha sinalizado. Um gesto de carinho, calor humano, um entendimento mudo. É o tipo de coisa que a gente meio que reza pra ter em algum momento do dia, depois de encarar tantos prédios altos e cinzas, que diminuem e descolorem a gente só por diversão. Tanto prédio e tanta gente que a gente acaba se sentindo um pouco sozinho e esquecido no meio disso tudo. Eu me sinto. Mas tudo passa quando vem o colo, quando seus dedos alcançam os fios do meu cabelo, quando você me dá aquele beijo no rosto ou na testa ou aquele abraço inesperado. Todas essas coisas pequenas e boas, os gestos simples e mudos. E então tudo passa quando você está aqui pra fazer eu me sentir em casa. Meu grande amigo, meu namorado, minha melhor amiga, meu amigo-irmão, minha amiga de infância, minha namorada, meu companheiro, minha confidente. Tudo passa quando qualquer um de vocês está aqui pra fazer eu me sentir em casa. O único problema nisso tudo, o único mesmo!, é que, bem - não tem ninguém aqui.



she loves, she loves to dance in the dark

Hoje tirei o dia só pra mim. MP4 ligado o dia inteiro, volume alto, fones de ouvido. O bom de andar por aí com isso enfiado até os teus tímpanos é que as pessoas olham pra você e pensam duas vezes antes de te cutucar. No ônibus pra perguntar as horas, na rua pra pedir informação, no almoço pra comentar sobre qualquer coisa que você não dá a mínima. É bom, sabe? Pensar só na letra da música, só nela e em mais nada. Não fazer associações, não lembrar de ninguém, ouvir a música e sentir só música e cantar só música, sem raiva, sem saudade, sem mais nada. Meu momento apático. Aquele que eu me reservo o direito de ter pra não surtar, pra não gritar com ninguém, pra não perder a paciência. Olha que diplomática eu sou! Olha que amor de pessoa eu sou! Claro, há quem ache uma tremenda falta de educação ficar ouvindo música o dia inteiro e não dar atenção para a vida alheia, mas é só um dia. Um dia em que eu resolvi tirar férias do mundo sem que o mundo precisasse tirar férias de mim - e ele não precisava de férias de mim, hoje é dia comercial, cara! E agora que tomei fôlego de novo, acho que já posso voltar ao meu normal e parar de deixar as pessoas preocupadas só porque tirei o dia pra curtir minha música em silêncio.


quarta-feira, 24 de março de 2010

não tem a ver com ele

mas é algo que me afeta de um jeito tão estranho que nem consigo escrever a respeito - do que estou pensando, do que pensei o dia inteiro. É algo que me deixa com nós na garganta e nos dedos. Frustrante.


domingo, 21 de março de 2010

O Jardim Botânico



Início da Sessão: terça-feira, 16 de março de 2010






@ cah          .even just for a while
@ I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy

(01:19) cah          .even just for a while:
'cabou, ju
(01:19) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
o quê?
(01:19) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
a recessão da oi? :/
(01:20) cah          .even just for a while:
não, hahaha
(01:20) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
conte
(01:23) cah          .even just for a while:
só acabou. a gente conversou durante três horas, eu chorei com ele. falei tudo. todas as coisas que passaram pela minha cabeça, o que eu inventei pra mim, o que eu descobri tarde.
(01:23) cah          .even just for a while:
eu falei tudo tudo tudo
(01:23) cah          .even just for a while:
tudo o que não consegui dizer pra ti, nem consegui colocar num post, nem num caderno
(01:24) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
._.
(01:24) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
e ele?
(01:28) cah          .even just for a while:
ele disse tudo, também. disse que se perguntou o porquê muitas vezes, sem resposta. disse que não vê chance, nem quer que eu fique presa a ele. disse que gostaria que ele ficasse marcado do jeito que eu marquei ele. disse que eu tenho um lugar na vida dele, no coração, na pele que nenhuma outra pessoa vai tirar. disse que me amou, disse que me ama agora, mas diferente. disse que não quer me ver triste, que não aguenta mais olhar pra mim e ver que falta alguma coisa no meu sorriso. que não quer ser o motivo de eu estar "com uma peça faltando", porque ele não suporta a ideia de me ver sofrer - por ele, por qualquer coisa.
(01:29) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
._.
(01:29) cah          .even just for a while:
ele pediu pra eu prometer que da próxima vez que eu sentir que vou ser feliz, pra eu não ter medo. pra eu não hesitar, nem recuar.
(01:29) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
e tu?
(01:32) cah          .even just for a while:
eu prometi. ele me fez prometer que eu não me fechasse, que eu não me escondesse, porque não era justo. ele me fez prometer não resistir à minha felicidade, não atrasar, nem sabotar, nem nada
(01:33) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
._.
(01:33) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
(01:35) cah          .even just for a while:
eu disse que não queria ele fosse uma cicatriz. e que não queria que eu fosse uma cicatriz pra ele. a gente combinou de ser uma tatuagem. algo que a gente escolheu desenhar na nossa pele, por vontade própria.
(01:35) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
que amor
(01:39) cah          .even just for a while:
eu disse que era o dia mais triste e mais feliz. triste porque era uma despedida de tudo, do "nós" como a gente o conheceu e concebeu e sonhou por um tempo. e feliz porque finalmente a gente se entendeu, feliz porque a gente aceitou que ninguém teve culpa, e que a gente se amou desse jeito meio louco, que a gente ainda se ama, e que a gente ainda vai se amar.
(01:40) cah          .even just for a while:
eu disse que ele seria o meu parágrafo. que eu tinha terminado ali, e que eu achava que seria um dos melhores. que, né, a história da minha vida ia continuar, mas que ele seria o meu preferido, e teria esse lugar no meu peito.
(01:40) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
._. ♥
(01:43) cah          .even just for a while:
eu disse também que ele não foi meu primeiro beijo, e que a gente nem teve de fato uma transa, mas que era como se ele tivesse sido o primeiro, porque no fim das contas ele foi o primeiro no mais importante - a dizer que me amava, a sentir isso, e ainda a transformar esse amor em um outro tipo de amor, algo que não vai acabar mesmo que a outra parte de tudo tenha acabado.
(01:44) cah          .even just for a while:
ele disse que vai lembrar de mim quando casar e tiver filhos, porque foi comigo que ele viveu um romance de verdade. de juntar todos os cartões postais de uma cidade numa noite de terça-feira.
(01:44) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
que coisa mais will e lyra
(01:44) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
._.
(01:44) cah          .even just for a while:
eu disse que a gente daria uma boa história.
(01:45) cah          .even just for a while:
e, nossa, hahahaha
(01:45) cah          .even just for a while:
HAHAHAHAAH, tu falou bem, agora
(01:45) cah          .even just for a while:
eu me senti assim.
(01:45) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
hahaha sim, eu vi
(01:46) cah          .even just for a while:
digo, eu sei que vou vê-lo amanhã. mas é como se parte da minha alma tivesse se desprendido hoje, sabe? a parte que viveu tudo. é como se ela estivesse indo embora pra me dar um descanso.
(01:46) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
melhor, né?
(01:48) cah          .even just for a while:
melhor.
(01:48) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
(01:50) cah          .even just for a while:
e foi isso.
(01:50) cah          .even just for a while:
só pra dizer que eu tô bem, hahaha
(01:51) cah          .even just for a while:
digo, na medida do possível, hahahaha
(01:51) cah          .even just for a while:
mas vou ficar
(01:51) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
vai
(01:51) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
é claro, não duvido disso
(01:51) I'm more of a crying-on-the-inside kind of guy:
(01:52) cah          .even just for a while:
vou dormir, querida
(01:52) cah          .even just for a while:
obrigada por ouvir, por estar presente e tal
(01:52) cah          .even just for a while:
amo você :*
(01:52) cah          .even just for a while:

quarta-feira, 10 de março de 2010

a história das nossas vidas

Faz pouco mais de dois meses. Eu disse que falaria dele como se tivesse morrido, já que era assim que sentia sua falta. 

Quando ele se afastou, metade das coisas que eu fazia para me divertir ou para me distrair acabou perdendo um pouco do sentido, um pouco da graça. Não fiz muita coisa além de trabalhar; tentei ocupar os espaços vazios com academia, cogitei de novo as aulas de violão, mas no meio do caminho até aqui desisti de tudo. Não adiantava ficar fazendo as coisas por e com raiva - de mim, dele, do destino, do mundo. Depois, eu já não estava mais tão triste, mas ficava triste com uma certa freqüência - algo mais leve, algo cinza, quase apático. Por um tempo, vivi o luto que eu havia previsto para mim mesma, mas era um luto burro, porque ele nunca morreu de verdade - e eu já desconfiava que não morreria nunca pra mim.

Essa semana a gente se falou de novo. Desejei um feliz aniversário atrasado, aquele que eu deveria ter desejado na semana passada. Quando a gente se abraçou, praticamente todas as coisas pareceram ter voltado ao seu lugar. Foi bom. Senti alívio. Ele ainda olhava pra mim daquele jeito - não, não do jeito apaixonado, mas do jeito que a gente se olhava lá no nono andar da UERJ, enquanto falávamos sobre nossas vidas e víamos que isso era bom. Entramos num consenso de que o oitavo e fatídico andar seria pra sempre esquecido, já que nenhum dos dois gostava ou suportava lembrá-lo, mas também não decidimos agir como se nada tivesse acontecido entre o último abraço em setembro e esse novo abraço em março. A gente sabe que muita coisa aconteceu, que muita coisa mudou, que o mundo continuou a girar. Mas é que no meio disso tudo, no meio dessa loucura toda, esse sentimento de nove andares de graduação que a gente um pelo outro nunca mudou - e a gente também soube disso.


Não é um final feliz. Não é nem um final, propriamente dito. Isso só... é.

E eu fico feliz por ainda sermos alguma coisa juntos.



terça-feira, 9 de março de 2010

completamente apaixonada

(e),só.






e não, eu não estou triste.



domingo, 7 de março de 2010

e no momento eu estou

pensando em coisas que me fazem sorrir.

quarta-feira, 3 de março de 2010

papel de parede

Hoje foi seu aniversário. Fiquei o dia inteiro espreitando sua felicidade, assim de longe, assim quietinha, assim do alto. Vi as pessoas correrem até você com presentes nas mãos ou com os braços abertos. Pensei em te comprar alguma coisa, deixar na tua porta, na tua mesa, no teu armário uma surpresa agradável e sem remetente. Tu logo saberia que era eu. Mas eu não comprei nada, nem deixei nada em lugar nenhum. Não tive coragem, nem tive ânimo, nem tive estômago. Hoje foi seu aniverário, e fiquei na ponta oposta da tua festa, uma penetra por acidente, por estar no lugar errado e na hora errada. Não ouvi o discurso que você fez porque eu tentava falar mais alto e rir mais alto que a sua voz, disfarçando o desconforto e a vontade de estar bem longe. Só ouvi as palmas. Achei que fosse morrer com aquela famosa musiquinha de "com quem será", se a cantassem. Fiquei aliviada por não cantarem. Vi você se levantar e cumprimentar uma série de pessoas que não eram eu, e senti inveja de não estar em todas as fotos que eu queria estar. Você sorria, e eu também. Você não me via, e eu te segurava pelas beiradas, pela visão periférica, pelas laterais dos meus olhos que tentavam não denunciar onde estava minha atenção. Você passou do meu lado, e eu prendi a respiração. Tive medo de tremer demais, de ofegar demais, e me entregar mais do que eu já havia me entregado. Quando cantaram pra você, não bati palmas com os outros. Fiquei brincando com um guardanapo de papel, ocupando as mãos vazias e o peito e as ideias também. Hoje foi seu aniversário, e eu estava lá. Mas era como se não estivesse.

terça-feira, 2 de março de 2010

avenida presidente vargas, 595

Ele está parado em frente ao caixa olhando as opções, até que me pergunta:

"Tu não vai comer nada?"

"Não", eu digo sem vontade.

Ele me olha com aquela cara de quem não ficou satisfeito com a resposta e insiste mais uma vez:

"Tu não vai comer nada? Mesmo?"

"Já disse, não"

Ele vira as costas para o caixa e fica me olhando de cara feia. Eu nem ligo.

"Tu disse que estava passando mal, não comeu o dia inteiro. Não vem com essa agora"

"Que foi? Não tô com fome, é sério"

Ele suspira. Diz que tudo bem e me dá as costas de novo.

"Um número quatro pra mim, e pra ela um milk shake de chocolate e batatas fritas"

A menina do caixa sorri pra gente, com aquele ar de quem entende que somos um casal, e que no fim das contas ele só está tomando conta de mim.

"Ele é um idiota", me apresso em dizer.

"Ela é teimosa, irresponsável, e louca. Não dê ouvidos", ele diz sorrindo. A menina do caixa e um outro rapaz que estava prestando atenção começam a rir. O rapaz diz que não entende as mulheres, e a menina diz que eu tenho sorte dele ser assim.

"Não acredito que vocês estão do lado dele!", eu finjo reclamar, mas a verdade é que ouvir que eu tenho sorte amoleceu um pouco minha relutância em aceitar o agrado dele. Eu sorrio para o menino e a menina, indicando que tudo bem. Ele sorri satisfeito, pelo apoio recebido e pela minha desistência.

Ele pega os pedidos, a gente agradece aos dois, e então sai da fila.

Enquanto subimos as escadas para o segundo piso, penso que adoraria que fôssemos um casal de verdade, mas a gente não é. Ele é só meu amigo, e dentro de poucos minutos até isso ele vai deixar de ser.

E pensar que ainda agora estávamos juntos escolhendo rosas...