sábado, 6 de fevereiro de 2010

sobre margens

Um longo corredor com cheiro de mofo e histórias de décadas atrás. Tinha um certo respeito pelo que era antigo. Admirou francamente as estruturas corroídas por traças e cupins, completamente tomada de infiltrações. A tinta das janelas descascando nascimentos, beijos roubados, pedidos de casamento, e quem sabe até carícias a frente do seu tempo. Tudo ali incrustado em gesso ou barro ou madeira fina do século XIV. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar ter vivido ali. Admirou de longe. Numa das janelas antigas, uma menina acenava para ela. Pelo que notou, acenava também para qualquer um que se aproximasse de si, um sorriso gentil no rosto, e pensou que talvez ela estivesse doente; e pensou que era triste pensar que talvez ela estivesse doente. Acenou de volta. A menina pareceu feliz. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar que aquela menina foi feliz numa outra vida, numa vida em que talvez não fosse doente ou que não fosse julgada como tal. Mas ela não acreditava em vidas passadas - mal acreditava nessa mesma. Tudo parecia um sonho, enquanto ela ia embora, deixando para trás uma menina que acenava, e uma vila do passado que resistia no centro de uma cidade de arranha-céus. Cenas que não fazem parte de livros de história.

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