sábado, 6 de fevereiro de 2010

dunhill

Você morreu, e no lugar de velas eu acendo cigarros para você. Um por dia, o mesmo horário, o mesmo lugar. É como se fosse o encontro de nós dois, eu te esperando pra variar, eu deitada na pedra pra variar, eu olhando o mar pra variar. Mas você nunca demorou tanto, nem me afligiu tanto, nem me deixou tanto. No fim da tarde você aparecia, me abraçava, suas mãos na minha cintura e seus lábios roçando minha testa. Era um amor tão bom e fácil. Nunca houve cigarros antes disso, porque nunca houve necessidade de consumir nada enquanto eu consumia você, enquanto eu era consumida por você. As besteiras que a gente acaba fazendo por amor. Se é que foi amor. Se é que é amor, e eu gosto de pensar que é. Que foi. Porque daí é bonito lembrar, e não parece tão tolo quando eu faço minhas tolices. Os dias passam e eu penso que talvez o romantismo seja a desculpa certa pra se cometer erros, como os quais eu cometo todos os dias. Eu não fui a primeira a perder alguém, e tenho certeza de que não serei a última. Minha história é só mais uma história no meio de tantas outras. Eu não tenho pena de mim, nem da minha vida, nem da minha perda. Eu só gosto fazer constatações das coisas que vão passando diante dos meus olhos e que eu não quero se percam no vazio - e elas não vão se perder no vazio, porque eu vou consumi-las. Como faço com os cigarros, como fiz com você. E aí tudo acaba. Como a gente, como o resto, como o mundo. Boas histórias não são boas sem um bom final. Um cigarro por dia: isso pode durar pra sempre, enquanto eu quiser viver. E eu quero.

Um comentário:

Julia disse...

eu acho que tu não leu, mas me lembrou muito um conto da lygia fagundes telles que tá no livro Antes do Baile Verde. não consigo lembrar do nome... acho que é O Saxofone, algo assim. a personagem e tal.

:*