terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

twenty years

Vinte anos há dois dias e não vejo nenhuma diferença. Ah, sim, então o primeiro dígito mudou. Bem, não tive nenhuma crise aos dez, portanto não vejo motivo para ter uma crise aos vinte. Ah, é só mais um ano pra verdadeira maioridade. Bem, o mais importante nisso é que eu terei idade pra casar sem precisar do consentimento dos meus pais, mas não é como se eu estivesse desesperada para assinar um contrato de matrimônio. Vinte anos há dois dias, e não sinto como se fosse realmente grande coisa. Não tive O momento saudosista porque momentos saudosistas eu tenho sempre - tipo sábado, quando passei pela rua da escola e parei na lojinha de um senhor que vendia salgados, doces, refrigerantes -, nem me sinto velha como muita gente sugeriu que eu deveria me sentir. Eu me sinto normal. Talvez com um ano mais de fragmentos de lembranças, mas só também. Vinte anos. Só preciso me lembrar de dizer a idade certa quando me perguntarem de novo, porque de resto, tudo bem. Não devo ser absolutamente nada do que imaginei que seria quando tinha dez anos, mas tudo bem. Não me sinto triste, nem frustrada, nem arrependida, então isso deve ser um bom sinal.

Feliz aniversário (atrasado!) pra mim!


E um agradecimento especial a todos que lembraram, ligaram, deixaram recado, enviaram SMS e me fizeram boas surpresas. As coisas não teriam a mesma graça sem as palavras e os gestos de vocês, rá ♥




domingo, 14 de fevereiro de 2010

e tudo é permitido no carnaval...

Há anos atrás, quando era pequena, eu gostava de carnaval. Foi algo que lembrei a meio caminho de Laranjeiras - enquanto ia pra casa de uma amiga -, depois de ver uns rapazes todos fantasiados de Homem-Aranha. Fiquei com vontade de tirar foto, mas eles estavam longe demais para a câmera do meu celular, então deixei ficar registrado na cabeça mesmo. Achei legal ver aquela gente daquele jeito, e me deu uma saudade gostosa da época em que eu me fantasiava, e minha avó saía comigo à noite pra brincar na praça. Lembro dos confetes, das serpentinas, e dos balões e das arminhas de água. Lembro das essências que os Clóvis usavam,e que era sempre uma ansiedade gostosa quando a gente sentia o cheiro doce do perfume deles, e em seguida os via virando a esquina, todos coloridos com suas sombrinhas, bastões, leques e máscaras sinistras - eu nunca tive medo deles, e, na verdade, aquela era uma das coisas mais bonitas que eu já tinha visto até então. Fiquei com saudade.

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Enquanto via o desfile das escolas do grupo de acesso, pensei que não tinha como não achar bonito aquela gente se divertindo. Lá em cima, a gente pulava e cantava com a animação deles, e muita gente chorava, e era bonito e tenso ao mesmo tempo, porque a Harmonia ficava louca quando alguma fantasia de desfazia, ou quando alguém entrava atrasado. Um sem número de desconhecidos sendo aplaudidos e fotografados como estrelas, e pensar que essas pessoas podem ser enfermeiras, professoras, garis, mecânicos... Devem ser os cinquenta minutos mais felizes das vidas deles, e a gente nem sabe.

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..., até mesmo ser feliz.

(há quem seja)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

os guardadores de segredos

Quando entrou no quarto de Clarisse pela primeira vez, encontrou-a deitada na cama olhando o teto. Ainda não havia ocorrido que talvez ela estivesse pensando em como escrever sua história ali, como vinha fazendo com o resto do cômodo. Demorou alguns segundos para olhar em volta, mas quando olhou, se encantou com as paredes tatuadas - sua caligrafia fina e geralmente bem-cuidada amontoada em pequenos fragmentos de histórias de sua vida, todas gravadas em torno de si. Achou bonito e poético - Clarisse sempre poderia dizer que sua vida estava ali, e ela realmente estava. Achou corajoso, também - se expor assim para qualquer um que atravessasse por aquela porta. Achou ainda inovador, e sentiu um pouco de inveja por isso, por ser uma das boas ideias que nunca teria primeiro. Mas nada superou o encanto. Nada nunca superou o encanto de ver, pela primeira vez, aquele quarto tatuado. E agora, dois anos depois da primeira vez, as duas estavam sobre aquela mesma cama, olhando aquele mesmo teto. O único espaço em branco. E tudo doía. O corpo todo, as mãos, os braços, as pernas, e até os pensamentos. O peito doía e tinha medo de respirar fundo. Doía sentir muito, doía sentir demais. Quando Clarisse começou a chorar, segurou seu pulso, entrelaçou seus dedos e os apertou com força, tão firme que pareciam inseparáveis e indissolúveis. Clarisse gritou e ela quis gritar junto. Empatia não é uma coisa bonita? Podia sentir as lágrimas dela molhando o lençol sobre a cama e sob elas, podia sentir as próprias lágrimas escorrendo pelo rosto e atingindo os fios, os tecidos, o colchão. As unhas de Clarisse formavam feridas em sua pele enquanto choravam juntas, enquanto caminhavam juntas, enquanto suas vidas faziam parte das mesmas paredes. Talvez fosse um daqueles momentos em que se descobre que não há mais para onde ir ou com quem ficar, a não ser juntas. Quis dizer que tudo ficaria bem e que ficaria ali pra sempre. Talvez tenha dito, talvez tenha dito em voz alta e não só em pensamento. Um aperto de mãos mais forte, as unhas cravadas na pele uma da outra, e pequenas gotas de sangue atingindo fios, tecidos, e colchão. Clarisse soluçava e não importava o porquê ou o motivo, importava só que doía e que doía nela por doer demais em Clarisse. Dois anos de histórias divididas em canetas esferográficas e canivetes, sobre tinta suvinil e papel de parede. Abraçou Clarisse por tudo isso. Beijou a curva de seu pescoço sem qualquer malícia, só porque estava perto e pra mostrar que estava perto, e disse que a amava porque essa era a verdade. Empatia é mesmo uma coisa muito bonita. O encanto pelo quarto tatuado nunca foi embora, e agora, como ele, também tinha marcas em suas mãos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

dunhill

Você morreu, e no lugar de velas eu acendo cigarros para você. Um por dia, o mesmo horário, o mesmo lugar. É como se fosse o encontro de nós dois, eu te esperando pra variar, eu deitada na pedra pra variar, eu olhando o mar pra variar. Mas você nunca demorou tanto, nem me afligiu tanto, nem me deixou tanto. No fim da tarde você aparecia, me abraçava, suas mãos na minha cintura e seus lábios roçando minha testa. Era um amor tão bom e fácil. Nunca houve cigarros antes disso, porque nunca houve necessidade de consumir nada enquanto eu consumia você, enquanto eu era consumida por você. As besteiras que a gente acaba fazendo por amor. Se é que foi amor. Se é que é amor, e eu gosto de pensar que é. Que foi. Porque daí é bonito lembrar, e não parece tão tolo quando eu faço minhas tolices. Os dias passam e eu penso que talvez o romantismo seja a desculpa certa pra se cometer erros, como os quais eu cometo todos os dias. Eu não fui a primeira a perder alguém, e tenho certeza de que não serei a última. Minha história é só mais uma história no meio de tantas outras. Eu não tenho pena de mim, nem da minha vida, nem da minha perda. Eu só gosto fazer constatações das coisas que vão passando diante dos meus olhos e que eu não quero se percam no vazio - e elas não vão se perder no vazio, porque eu vou consumi-las. Como faço com os cigarros, como fiz com você. E aí tudo acaba. Como a gente, como o resto, como o mundo. Boas histórias não são boas sem um bom final. Um cigarro por dia: isso pode durar pra sempre, enquanto eu quiser viver. E eu quero.

sobre margens

Um longo corredor com cheiro de mofo e histórias de décadas atrás. Tinha um certo respeito pelo que era antigo. Admirou francamente as estruturas corroídas por traças e cupins, completamente tomada de infiltrações. A tinta das janelas descascando nascimentos, beijos roubados, pedidos de casamento, e quem sabe até carícias a frente do seu tempo. Tudo ali incrustado em gesso ou barro ou madeira fina do século XIV. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar ter vivido ali. Admirou de longe. Numa das janelas antigas, uma menina acenava para ela. Pelo que notou, acenava também para qualquer um que se aproximasse de si, um sorriso gentil no rosto, e pensou que talvez ela estivesse doente; e pensou que era triste pensar que talvez ela estivesse doente. Acenou de volta. A menina pareceu feliz. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar que aquela menina foi feliz numa outra vida, numa vida em que talvez não fosse doente ou que não fosse julgada como tal. Mas ela não acreditava em vidas passadas - mal acreditava nessa mesma. Tudo parecia um sonho, enquanto ela ia embora, deixando para trás uma menina que acenava, e uma vila do passado que resistia no centro de uma cidade de arranha-céus. Cenas que não fazem parte de livros de história.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

talvez eu goste do final

O boleto da faculdade é uma daquelas coisas que me deixam entre o chateada e o cansada. Sua chegada funciona mais ou menos como um lembrete de que tudo aquilo o que eu queria ter e fazer precisará ficar para depois, por não serem prioridade no momento. É frustrante.  Eu não quero parar de estudar! Eu só não queria ter de pagar para estudar. Não queria ter de escolher entre duas coisas que eu quero, e quero muito - uma que me realizará a longo prazo, e outras que me realizarão a curto prazo. 

Daí, entre um hold de choro e outro, pensei que melhor do que ficar reclamando não ter dinheiro ou o quanto é injusto ter que pagar pra receber educação, o que eu devo fazer é arranjar maneiras de conseguir a grana necessária pra tudo o que eu quero e/ou estudar a sério pra conseguir bolsa ou passar numa pública. Ninguém vai ficar com pena de mim e vai me bancar uma PUCRJ, ou vai me dar uma vaga nas federais, na estadual, se eu ficar fazendo beicinho. Quem tem de fazer isso por mim sou eu mesma. Se hoje o boleto da faculdade é uma daquelas coisas que me deixam entre o chateada e o cansada, então está na hora de eu pensar de modo diferente, deixar a chateação de lado, e recobrar o ânimo. Eu ainda gosto do que estudo. E vou gostar ainda mais quando não tiver de pagar - tanto - por ele. Vai dar tudo certo, de um jeito ou de outro.