quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

a noite do beijo concedido

Houve uma época em que costumávamos sair da escola e ir até a Comandante Coimbra. Às vezes sentávamos no portão da Laís, às vezes no portão da Renata, às vezes ficávamos em algum ponto da calçada ou da rua, jogando cinco ou três cortes, mas aquela tarde-quase-noite era uma tarde-quase-noite especialmente diferente, talvez pela quantidade de pessoas sentadas na calçada, talvez porque estivessem todos respondendo a um caderno de perguntas ou conversando sobre ele. Era mais um daqueles dias em que a gente não sabia o significado das palavras "hora de ir pra casa", e já estava escurecendo. Lembro que, nessa ocasião, Pam estava empolgada porque o João estaria claramente dando em cima dela, ainda que Luly discordasse veemente disso, e afirmasse que na realidade era ela quem estava praticamente se jogando em cima do garoto - o que era tão verdade quanto revoltante, já que até então Pam namorava um amigo nosso.

Pam sempre se encontrava com o namorado por aquele horário, porque sua avó não permitia que ela andasse por saí a noite se não fosse com ele. No fim daquela tarde, o Rapha havia me mandando uma SMS avisando que não poderia ir, que sairia com a tia e o primo. Depois da notícia, acho que Luly e eu nos olhamos já prevendo o que poderia acontecer. Não tardou realmente para que Pam se oferecesse ainda mais ao João, causando cenas constrangedoras a todo mundo ali que conhecia o Rapha, e irritando a Luly - que não sabia se estava apaixonada pelo Rapha -, a Lu - apaixonada pelo Rapha -, e a mim - melhor amiga do Rapha.

Não lembro o motivo que fez o grupo se separar por alguns instantes, só lembro de estar na esquina com as outras meninas, enquanto a Pam estava um pouco mais abaixo na rua, conversando sozinha com o João. Lembro de ter descido e avisado que a Luly queria falar com ela. Lembro de ficado parada ao lado do João uns quatro ou cinco minutos, conversando sobre coisas aleatórias, antes de eu - "Posso fazer uma coisa?" - beijá-lo. Lembro de ter sido um puta beijo, e apesar de eu não lembrar da cara da Pam, por estar obviamente ocupada, Luly me contou que foi algo impagável quando ela parou de falar e apontou em minha direção, perguntando se era mesmo eu ali. Lembro de ter ouvido os gritinhos das meninas ao longe, e de ter segurado o riso. Lembro de ter me sentido ridiculamente bem.

Se me perguntassem o motivo de eu ter ficado com o João, eu não saberia responder na época, como não tenho certeza se sei responder agora. Os motivos pra eu ter continuado com ele foram outros, porque eu já o conhecia melhor, mas naquela noite fiquei só pra encher o saco da Pam, e porque eu já havia notado que ele estava mais interessado em mim do que nela, no fim das contas. Fiquei porque achava injusto ela querer ficar com o João quando já tinha o Rapha e ele era tão bom pra ela. Fiquei porque pensei que seria divertido se ela visse que só porque estava com o Rapha, não significava que tinha o resto do mundo a seus pés. Fiquei porque, já naquela época, eu sabia que ter o controle de uma situação era boa, e não me importava muito com as consequências do que quer que eu fizesse. Fiquei porque deu vontade e eu acreditava ter chances. Fiquei porque me convinha ficar. Fiquei, foi bom, e hoje tenho certeza de que não me arrependo disso.



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