segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

aconteceu na rua dos paralelepípedos

Enquanto eu queria matar o Felipe - e a Luly -, Paty tentava me distrair. E não era bem uma distração, era só ela falando as bobeiras de sempre e que sempre me faziam rir, mas que naquele momento não surtiam o efeito esperado. Eu devo ter chateado muito ela com meu mau humor, porque logo ela desistiu de ser gentil e me fez tomar vergonha na cara - ela era uma das poucas pessoas que eu permitia que falasse comigo da maneira que ela falava, e pensando nisso agora, sinto muita falta disso.

Não dava pra ficar culpando ninguém àquela altura. Bem, talvez o Felipe, porque ele era mesmo muito escroto e retardado, mas eu beijei porque quis, ela beijou porque quis, e foi isso. Ouvi aquele famoso discurso sobre caras e amizades de meninas, que se nossa amizade fosse de verdade resistiria aquilo e que depois nós acabaríamos rindo de tudo.

Eu já não estava mais tão puta naquele dia, mas talvez estivesse um pouco chateada com tudo. Saímos da escola e ficamos andando. Só andando. Não lembro se eu fiz companhia à Paty, ou se foi ela quem me fez companhia naquela tarde, só sei que foi bom não voltar pra casa tão cedo. O dia estava nublado, e eu contava com uma chuva antes de ir embora, mas enquanto a gente subia a Major estava tudo bem o tempo ficar daquele jeito.

Sentamos no meio-fio em frente a uma casa em construção, e tive vontade de entrar lá, só pra saber como era e ter uma ideia de como seria. Acho que em algum momento Paty teve vontade também, e só não entramos por causa do cão enorme que estava de guarda no portão. Voltamos para a calçada e falamos de coisas banais, de como era bom andar daquele jeito, falamos dos outros, falamos de tudo um pouco. Num dado momento, um garoto com uma enorme garrafa de Coca-Cola sentou a uns três ou quatro passos da gente e começou a toma-la sozinho. Não lembro se quem ficou com vontade de tomar o refrigerante foi ela, eu, ou as duas, só sei que durante a conversa ela duvidou que eu fosse até o garoto para pedir um copo da Coca, e eu acabei indo. "Hey, menino! Desculpa incomodar, mas é que te vi tomando essa Coca-Cola, e tô sem dinheiro, e sei que é muito abuso, mas tu poderia me dar um copo?". O garoto foi bastante gentil e me deu mesmo o refrigerante, que eu ofereci à Paty quando voltei pra junto dela.

Lembro de ter sido bem aleatório, uma experiência bem legal, e a primeira envolvendo estranhos. Acho que foi ali que passei a olhá-los com outros olhos, talvez com mais carinho, quem sabe?

Quando a gente resolveu ir embora, estava começando a chuviscar. Ainda arriscamos brincar de quão longe e quão alto conseguiríamos jogar o graveto, e por mais idiota que pareça eu contando isso, assim, na hora foi tão ridiculamente divertido! Era realmente fácil rir, me divertir e me sentir tão em paz, comigo mesma e com tudo, mesmo depois de ter ficado puta/chateada como fiquei. Na verdade, aquilo tudo parecia outra vida, até. Paty e eu nos despedimos, ela ainda passaria na casa da tia, antes de ir para sua própria casa, e eu desci a rua sozinha.

Não foi naquela tarde que tive minha primeira conversa de meio-fio, mas com certeza foi uma das conversas mais gostosas, divertidas e gratificantes, que já tive sentada na calçada de uma rua semi deserta, depois da aula, num dia quase chuvoso e em tão boa companhia. Lembrar disso me faz pensar que era mesmo muito fácil ser feliz - talvez eu já tivesse percebido, àquela altura, que é o tipo de coisa que só está nas nossas mãos.

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