sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

excerto de natal

Ah, coração, essa época de festas me deixa um pouco em pânico. São todas essas pessoas sonhando um mundo novo e melhor, se abraçando e fazendo boas ações e querendo ser gentis, cantando cantigas natalinas e desejando prosperidade, prosperidade, prosperidade. E eu aqui, sentada nessa cadeira de balanço antiga, com meus recém vinte e um anos como se fossem cinquenta aniversários nas minhas costas. Quero encostar o queixo nos joelhos e abraçá-los com força, enquanto olho toda essa gente de sorrisos brancos e tão tão felizes, como em comerciais de margarina. Quero apertar meus pulsos, e fazer minhas unhas machucarem minhas palmas, reprimindo a vontade que tenho de acabar com as festas pra dizer que feliz natal de cu é rola, que espírito natalino não deveria ser especial, deveria ser um estilo de vida em tempo integral, e não um especial a ser transmitido na televisão durante o mês de dezembro. Eu quero levantar, coração, eu juro que quero, mas ao mesmo tempo não me acho no direito de acabar com a festa, porque penso que talvez eles estejam realmente felizes, penso que talvez isso realmente signifique algo para eles além de um cara velho distribuindo presentes, e mesmo que seja só isso, se eles realmente se sentirem completos e gratos por esse momento, como eu poderia tirar isso deles? Como eu poderia destruir isso? Mesmo achando-os pequenos, mesmo achando-os mesquinhos e hipócritas e medíocres, como eu poderia acabar com a idéia simplória que eles têm de felicidade quando essa é a única coisa que eles têm de verdade? Eu fico aqui, coração, eu permaneço. Imóvel, quieta, em silêncio. Talvez eu seja só uma covarde, vai saber. Talvez eu devesse estar curtindo as festas como eles, como todo o resto, mas talvez isso tudo só não seja pra mim. É natal, estão todos comemorando, mas eu só estou feliz que não precisarei trabalhar amanhã.

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