segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

é só mais um caso de coração partido

Estava descendo a rua, a nota de cinco reais sendo torcida pelos meus dedos, e um número razoável de pessoas cochichando sobre "o que aconteceu no Real Grandeza". Dei uma olhada na direção do edifício, vi uma ambulância e mais um monte de pessoas curiosas em volta. Parei no bar do Índio, pedi uma Coca-Cola de 2,75l, e perguntei o que estava acontecendo lá. O rapaz que me atendeu disse que a movimentação toda era por causa de uma garota que havia tentado se matar. Ele disse assim mesmo "ela tentou se matar". Sem eufemismos, sem palavras difíceis. Eu pisquei duas vezes e respondi com um "ah", como se entendesse. Ele me entregou a Coca, eu entreguei o dinheiro, e esperei meus cinquenta centavos de troco.

"Você sabe quem era a menina?", perguntei, tornando a olhar para o edifício, para a ambulância e para as pessoas. Ele disse que o nome dela era Ana Clara e que ela morava no décimo primeiro andar. Perguntei como ele sabia, e ele deu de ombros, "sei lá, todo mundo tá falando disso, ouvi dizer". "Mas você disse que o nome dela era... Então ela morreu mesmo, não foi só tentativa?". Ele deu de ombros de novo e me deu as costas. "Eu estou esperando o troco, os meus cinquenta centavos", falei. Ele voltou até o balcão e deixou a moeda lá, sem dizer palavra, e novamente as costas dele. Fiquei olhando a moeda, o Real Grandeza, e toda aquela gente. Pisquei duas vezes antes de pegar o dinheiro, o refrigerante, e ir pra casa.

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Estava sentada numa das mesinhas de pedra da praça, os pés sobre o que deveria ser o banco, e um livro sobre meus joelhos. É engraçado, mas não sei dizer do que se tratava o livro, ou qual era o título dele. Sei apenas que lia, e que lia concentrada, até que ela parou do meu lado - uma garota de shorts jeans, camiseta regata branca, um all star preto e velho, e cabelos castanhos até a cintura. 

Ela não disse oi, não se apresentou, não perguntou como eu estava nem me pediu licença. Ela só parou do meu lado, corpo apoiado na mesa e cabeça baixa. Levou uns dez segundos até que falasse, e quando falou foi pra dizer que não adiantava eu ficar lendo aquele livro. Eu levantei a cabeça e dei uma boa olhada nela. Não lembro de ter sentido raiva, não lembro de ter sentido algum incômodo real, mas perguntei por que ela estava fazendo aquilo. Ela deu de ombros. "Sabe quando você acorda e percebe que a vida é boa?", ela perguntou, e eu rapidamente fiz que sim com a cabeça. "Fazia tempo que a minha vida não era boa", ela continuou,  "E então, um dia, eu resolvi não acordar". Eu arregalei os olhos; comecei com um "mas...", e ela sorriu um riso tão bonito que eu fiquei sem graça de continuar. Ela sorriu de novo, fez um carinho na minha cabeça, "Quer saber? Continua lendo. Talvez você goste do final", e deu uma piscadela pra mim, antes de ir embora - senti saudades dela no exato momento em que desapareceu da minha vista.

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Eu estava sentada na calçada.

"Ei, Luan, o que aconteceu no Real Grandeza?"

Luan morava no edifício do bloco vizinho.

"Tu ficou sabendo? A Aninha, cara... Chegou em casa, da escola, com uma caixa de veneno pra rato - clichê, até. Tomou tudo. Não era muito minha amiga, mas fazia parte do nosso grupo. Bizarro. A mãe dela surtou".

"Mas sem motivo?"

Deu de ombros. "Tá todo mundo comentando. Será mesmo que alguém pode se sentir tão infeliz a ponto de fazer uma coisa dessas, cara? Tá todo mundo comentando... Alguns dizem que era só pra aparecer um pouco, mas que acabou dando errado - o que eu duvido muito, a Aninha não era disso. Outros dizem que ela sempre foi mesmo muito estranha, mas sei lá, eu discordo, a garota parecia bem normal, pra mim. E há quem diga que é só mais um caso de coração partido, o que faria sentido se o rolo dela não tivesse acabado há tanto tempo - e ela estava realmente bem, de uns dois meses pra cá..."

Eu não falei, só fiquei olhando pra ele.

"Sei lá, é bizarro. Fiquei sabendo que ela não deixou nem uma carta explicando aos pais. Que ela só... foi".

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Estava sentada numa das mesinhas da praça, só que agora eu não era eu e via a cena de fora. Também não tinha nenhum livro sobre meus joelhos, nem ela do meu lado. Tinha só um papel meio amassado que eu estava segurando, mas que eu sabia, que eu tinha certeza, que era dela. De longe, eu me vi chorando e rindo, meio louca, com aquele pedaço de papel nas mãos. Não fazia ideia do que estava escrito, mas reconhecia a sensação de compreensão se espalhando por cada célula do meu corpo.

Não parei de rir nem chorar. Não sei o que estava escrito no papel. As saudades dela aumentaram.

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"Fiquei sabendo de você enquanto comprava um refrigerante. Não te conheci, não conheci sua família, e de todos os seus amigos eu só conheço o Luan, e porque ele estuda comigo, e ele nem era tão próximo de você assim. Não entendo o porquê de você ter feito o que fez, desconheço completamente os seus motivos, e tudo o que eu tenho é tudo o que todo mundo tem de você, já que você não deixou nenhuma pista, absolutamente nenhuma pista do que você sentia ou pensava. Pelo que eu vi, todo mundo achava e acreditava que você era feliz. E às vezes eu me pergunto se você mesma não tinha essa consciência, sabe? Eu vi umas fotos suas, no seu orkut e no orkut dos seus amigos. Seu sorriso era bem bonito, e os cantos dos seus olhos pareciam acompanhar cada riso que você dava. Você conhecia bastante gente, tinha bastante depoimento, tinha fotos de lugares incríveis e parecia ter histórias incríveis. Você escrevia tudo muito certinho e direitinho na internet, e participava de comunidades cretinas, geniais e interessantes. Sim, eu te stalkeei, mas só porque eu queria entender. Queria ver se havia alguma pista, se havia alguma coisa que todo mundo perdeu, se havia qualquer coisa. De repente me ocorreu que talvez nem você soubesse que ia morrer. De repente me ocorreu que nem você esperava por isso, mas que entendeu que talvez devesse acontecer. Eu não sei. Eu leio seu perfil, eu revejo seus álbuns, eu leio seu antigo blog, e eu simplesmente não sei. Eu tenho sonhado com uma menina que não parece muito com você, exceto pelos cabelos, mas que eu acho e tenho certeza de que é você. Não sei mesmo por que você faria isso, por que você fez isso. Pensei no que o Luan disse, e cheguei à conclusão de que talvez pudesse mesmo ter sido por causa de coração partido, mas não desse jeito, não por causa de um cara. É como quando a gente deixa um copo escorregar, por acidente, e ele acaba se espatifando no chão. Talvez tenha acontecido o mesmo contigo. Talvez você nem tenha entendido direito como ou quando ou por que o seu coração quebrou. Mas aí, quando você percebeu, quando você se deu conta disso, você morreu. E eu sinto muito. Eu sinto muito por isso. Eu sinto muito por tudo".


Um comentário:

Julia disse...

acho que li umas três vezes. me fez pensar um monte de coisas, me fez sentir pequena e impotente em relação às perdas alheias, e eu sei que eu sou. em relação às perdas alheias e às minhas próprias. mas acho que, no meio disso tudo, são esses dois segundos que salvam nossas vidas. por dois segundos ela não deve ter se sentido tão sozinha - talvez mais. [2]

hahahaha só tu pra falar de algo que eu fiz exatamente o que eu pensei sobre algo que tu fez.

te amo.

:*