quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

cause tonight's the night the world begins again

Aconteceu em dezembro do ano passado. Ele disse que eu deveria escrever - muito, demais. Escrever toda e qualquer brainstorm que me acordasse, que me atormentasse, ou mesmo que eu odiasse - ainda que o ideal fosse escrever as que me apaixonassem. Ele disse que escrever era válido, sempre, tudo.

O engraçado é constatar, revendo os posts daqui, que acabei escrevendo todas essas brainstorms que ele citou. As que me me acordaram no meio da noite, as que me atormentaram durante horas ou meses, as que eu odiei com todas as minhas forças, e especialmente as que me apaixonaram.  E depois de perceber isso, queria muito dizer que meu 2009 foi maravilhoso, ou mesmo tranquilo, mas se você leu ao menos parte desse blog, então talvez você concorde comigo que a maioria das brainstorms aqui compartilhadas são mais tempestade do que bonança.

Não foi um ano ruim. Já tive anos piores, já tive até dias que pareceram anos intermináveis e aterrorizantes. Dois mil e nove não foi um ano ruim, de forma alguma. Só não foi tão bom quanto podia ter sido, eu acho. Teve um mês maravilhoso e inesquecível - julho ♥ -, mas confesso que o resto foi completamente dispensável, salvo algumas pessoas e as situações nas quais estive com elas. Em 2009 faltou ver o mundo. Em 2009 faltou registrar o mundo, talvez. Faltou presença. Faltou abraço. Faltou até mesmo música, quando a música era necessária.

Para 2010, quero o que 2009 não me deu, e o que não consegui tirar de 2009. Quero um calendário de planos diários, e não uma contagem regressiva para conseguir uma corda de salvação. Aliás, quero que todos os dias sejam cordas de salvação. E quero, também,  as tempestades - eu sempre quero as tempestades -, pra enfrentá-las com uma capa de chuva, ou então com o peito aberto e a vontade de lavar a alma.

Feliz ano-seguinte, a quem possa interessar.
:*




'cause i don't need boxes wrapped in strings,
and desire and love and empty things.
just a chance that maybe we'll find better days



domingo, 27 de dezembro de 2009

boa noite

"Fiquei feliz com o comentário dela, mas não entendi por que ela disse isso".
"Bem, você foi comigo numa festa na Ilha, conheceu e falou com metade dos convidados numa festa que não era de nenhum dos seus amigos, convenceu um taxista a ludibriar a polícia levando cinco pessoas no carro dele, num dia de blitz, às 1:30 da madrugada, só porque estava preocupada com todo mundo, deixou meus amigos em casa, e ainda pagou o táxi. Você realmente acha que ela precisava listar isso tudo?"
"Ah".

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

excerto de natal

Ah, coração, essa época de festas me deixa um pouco em pânico. São todas essas pessoas sonhando um mundo novo e melhor, se abraçando e fazendo boas ações e querendo ser gentis, cantando cantigas natalinas e desejando prosperidade, prosperidade, prosperidade. E eu aqui, sentada nessa cadeira de balanço antiga, com meus recém vinte e um anos como se fossem cinquenta aniversários nas minhas costas. Quero encostar o queixo nos joelhos e abraçá-los com força, enquanto olho toda essa gente de sorrisos brancos e tão tão felizes, como em comerciais de margarina. Quero apertar meus pulsos, e fazer minhas unhas machucarem minhas palmas, reprimindo a vontade que tenho de acabar com as festas pra dizer que feliz natal de cu é rola, que espírito natalino não deveria ser especial, deveria ser um estilo de vida em tempo integral, e não um especial a ser transmitido na televisão durante o mês de dezembro. Eu quero levantar, coração, eu juro que quero, mas ao mesmo tempo não me acho no direito de acabar com a festa, porque penso que talvez eles estejam realmente felizes, penso que talvez isso realmente signifique algo para eles além de um cara velho distribuindo presentes, e mesmo que seja só isso, se eles realmente se sentirem completos e gratos por esse momento, como eu poderia tirar isso deles? Como eu poderia destruir isso? Mesmo achando-os pequenos, mesmo achando-os mesquinhos e hipócritas e medíocres, como eu poderia acabar com a idéia simplória que eles têm de felicidade quando essa é a única coisa que eles têm de verdade? Eu fico aqui, coração, eu permaneço. Imóvel, quieta, em silêncio. Talvez eu seja só uma covarde, vai saber. Talvez eu devesse estar curtindo as festas como eles, como todo o resto, mas talvez isso tudo só não seja pra mim. É natal, estão todos comemorando, mas eu só estou feliz que não precisarei trabalhar amanhã.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

goodbye

"I don't love you anymore"
"Since when?"
"Now. Just now."



Foi de repente, como uma epifania. Como se o tempo todo existisse um interruptor escondido, e que finalmente tivesse sido descoberto e desligado por mim. Foi estranho, também. Ele falou, e eu senti todas as cordas, todos os laços, todas as linhas que me prendiam a ele simplesmente desaparecendo, arrebentando, se dissolvendo. Se naquela noite eu senti meu peito ficar mais pesado, naquela manhã eu senti que minha existência podia ser leve e agradável de novo. Eu fiz uma pergunta, e acho que ele foi sincero em sua resposta - 100% superado. Então é diferente de quando você ouve de todo mundo, de todos os seus amigos; porque depois que você ouve da boca dele é que você pode ter certeza de que, apesar de todo o bem que ele te fez um dia, ele não era nem é o cara. 

Sei que eu amei demais. Cada lembrança, cada palavra, cada gesto. Sei que eu amei demais, e que poderia tê-lo amado demais pelo resto da minha vida, se fosse o caso, mas não, não foi caso nenhum. Na verdade, comigo e com ele, talvez tenha sido sempre o acaso. Calhou dele aparecer na minha vida, calhou dele se apaixonar primeiro, calhou de eu me apaixonar tarde, calhou de ele desistir cedo, calhou de eu desistir, por fim. Só sei que eu o amei demais, que eu o amei com uma intensidade pavorosa e desesperadora, mas como tudo que é muito intenso e desesperador, talvez tenha se consumido na mesma velocidade que se fez presente, na mesma proporção de sua existência. 

Não menti um momento sequer, tenho certeza. Minhas olheiras de quatro meses, minhas lágrimas quase diárias, todas as coisas que eu escrevia e precisava tirar de mim com uma urgência terrível, nada disso me deixa mentir, foi tudo verdade. O que acontece é que ele não foi a história da minha vida, como eu gostaria que fosse e como poderia ter sido. Soube disso quando ele respondeu minha pergunta - 100% superado. Ele estava bem, e eu havia passado. Foi naquele momento que tive a mais absoluta certeza de que o que eu sentia por ele também ia passar. Não nasci pra ser infeliz. Enquanto houve alguma esperança, continuei. Mas sei aceitar um fim, quando me presenteiam com um. 

Acabou. E não prometo que seja a última vez que falarei dele aqui, mas talvez não haja mais necessidade de exorcizar nada. Só lamento pelo amigo que perdi no meio disso tudo. Talvez eu fale dele como se tivesse morrido, já que é assim que sinto sua falta. Não sei. Só sei que é bom respirar de novo, sem nada sufocando meu pescoço.


domingo, 20 de dezembro de 2009

do quarto vazio

Talvez fosse tédio. Talvez fosse meu cansaço, talvez fosse o repentino estado blasé que tomou conta do meu espírito, talvez fosse a noite que, um dia antes, tanto prometia, e que naquele momento não representava mais nada. Não sei o que me levou a fazer isso, não sei de verdade, e ainda estou processando o absurdo de toda a situação. Eu estava sóbria, é importante frisar. Mas não posso dizer que estava lá muito lúcida - embora minha mente não tivesse se desligado um minuto sequer, todo o fluxo de pensamentos das últimas semanas correndo e escorrendo por cada neurônio, muita dinâmica dentro e fora da minha cabeça. Sinceramente, deve ter sido meu momento mais inconsequente da face da terra. Irremediável, sem volta, mas igualmente sem culpa, sem pudor, sem arrependimento. E hão há satisfação, não há felicidade, não há nada disso. Só há uma informação registrada no fim da madrugada, a de que eu quis, eu procurei, eu fiz, só porque me deu vontade e porque eu podia, talvez, e então resolvi que seria seria seria. Feito uma garotinha mimada e birrenta. Eu escolhi a pessoa, eu escolhi a hora, eu escolhi o lugar, e escolhi a posição. Foi tudo eu eu eu, toda a responsabilidade é minha, e se realmente houver alguma culpa, ela também é minha - e eu também não me importo se houver; ao menos, não estou me importando agora. É só uma informação, só um fato, um registro vago de algo que aconteceu porque eu fiquei louca. Como se quisesse provar que poderia levar esses jogos de estratégia para níveis cada vez mais altos e cada vez mais obscenos. Tá legal. Eu não sei o que eu queria provar, de verdade, mas tenho certeza de que não provei nada. Quando deitei minha cabeça no travesseiro, às 5:40 da manhã, era como se nada tivesse acontecido - e eu nem estava me esforçando pra isso. Eu não ligo. Talvez eu ligue daqui a algumas horas, daqui a alguns dias, daqui a alguns anos, mas não ligo agora. Só me dá vontade de rir. Eu não estou feliz, mas me dá vontade de rir.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

um dia (ou quase isso) na vida da cah

Faltava muito pouco pra eu ir embora. Acho que eram umas 17:10 quando o chefe-mór ligou, e eu saia às 17:30. Foi só ouvir a voz dele que pensei "ai". E pensei certo, já que ele começou a falar muito rápido que o documento xis devia ser providenciado e que precisaria estar em São Paulo na manhã seguinte.

E lá fui eu, mobilizando RH, malote, cartório, motorista do chefão-mór, jurídico habitacional, e até mesmo a informática pra conseguir o tal documento. Foi uma loucura!, acho que os cinco telefones do setor tocaram ao mesmo tempo, e eu puxando as linhas e atendendo o que eu podia, tonta tendo de assimilar o que todo mundo falava, dizia e mandava eu fazer. Sério, se eu tratasse dos assuntos do callcenter na velocidade que eu falava com as pessoas hoje, meu supervisor ficaria muito orgulhoso do meu TMA (tempo médio de atendimento). Pois é.

No fim, tudo deu certo. E eu, que ia sair do trabalho às 17:30, saí do trabalho às 19h, respirando aliviada depois de falar com o chefão-mór que os documentos foram providenciados e que seguiriam pra São Paulo amanhã cedo, de avião, com a funcionária chilena da empresa. Desci as escadas com aquela sensação maravilhosa de dever cumprido, e louca de vontade de entrar no ônibus e vir dormindo no caminho pra casa.

Me fodi. Coloquei o pé pra fora do prédio, e começou a chuviscar. O céu estava escuro, escuro pra caraca!, e cinza-grafite era até apelido pra cor do céu naquele momento. Acho que quase chorei, eu praticamernte me vi chorando!, porque seria mesmo muito muito chato se chovesse depois do dia louco atrás do documento. Desci as escadas correndo e passei pelo portão da empresa, pensando que seria melhor pegar um trem, pra não correr o risco de ficar presa no metrô caso faltasse luz, nem de ficar presa duas ou três horas no trânsito caso o Maracanã estivesse submerso. Cheguei no ponto e estava vazio, aliás, a rua toda estava completamente deserta, a não ser pelo Sérgio Reis, um senhor que trabalha no segundo andar e mora no bairro vizinho ao meu. Ele perguntou se eu ia de trem, eu disse que sim, daí ele disse que ia me acompanhar. Agora só faltava o ônibus chegar!

E o ônibus não chegava. Daí resolvemos que pegaríamos o primeiro veículo automotor que fizesse o transporte de pessoas de bem e que aceitasse dinheiro por isso. Apareceu uma kombi meio furreca e foi nela que entramos - uns 10 segundos depois o ônibus passou pela gente e eu pensei "murphy, seu puto". (Preciso dizer que Sérgio e eu ficamos um pouco tensos quando vimos a nuvem negra se estendendo sobre a Central, pensando se aquilo realmente em cima daquele lugar ou se seria apenas uma forte impressão). Quando descemos da kombi, ainda chuviscava, então ficamos aliviados, era mesmo impressão. Atravessamos a Presidente Vargas meio correndo, todo mundo avançando o sinal vermelho dos pedestres, confirmando o ditado do irmão e da Natália "multidões não são atropeladas".

Chegamos à Central e aquele monte de gente, hm, não-bonita correndo de um lado pro outro por causa da chuva e procurando os trens. Esperei o Sérgio da fila do bilhete (eu não precisei entrar nela, RioCard é um adiantos), e depois fomos atravessar a roleta. Quando aproximei meu cartão do visor da roleta, faltou luz. Vi um bocado de gente saltando as roletas, um bocado de gente correndo, e um bocado de gente gritando - ah, tá, como se o prédio fosse desabar nas nossas cabeças só porque faltou luz. Sério, não entendi o desespero, mas enfim.

Meu cartão passou, tudo ok. Só que sem luz todo mundo ficou cego e tentando adivinhar qual trem ia sair e se ia sair pro lugar certo. Nesse meio tempo, vi um raio cair a uns 100 ou 200 metros de onde a gente estava. E foi bonito e tenso - tenso porque era mesmo muito muito perto. Alguns minutos depois de tentar adivinhar, decidimos arriscar. E ainda minutos depois de arriscarmos, descobrimos que o trem era o certo.

E viemos pra casa. O resto é resto, mas eu precisava registrar o fato de que o dia tinha tudo pra dar errado, mas acabou dando certo. Além disso, recebi hoje a segunda parcela do décimo terceiro, e, depois de quatro meses, acho que finalmente encerrarei o mês com algum dinheiro, ao invés de terminar devendo duzentos reais. Yeah! \o/

E é isso, fim do dia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

semântica

Não me conformo com a idéia de deixarem marcas em mim, tampouco com a idéia de marcar alguém. Não sei de nenhuma marca que não tenha sido deixada sem dor, não sei de nenhuma cicatriz que não se tenha conseguido sem sentir o corte. A moeda de troca da felicidade não tem que ser isso, não tem que ser uma tristeza, uma mágoa, e não há quem me convença disso, nem ele. Não acredito que a felicidade necessite estar intrinsecamente ligada a qualquer sentimento doloroso. De verdade, de verdade, não acredito mesmo. Acho que tem de haver outro jeito, tem de haver outra metáfora, uma outra palavra. Não quero ser uma marca, um hematoma, ou uma cicatriz. Isso é coisa pra gado e mulher de malandro.

Taí.


Acho que quero ser uma tatuagem.





(por favor, por favor, me deixe ser uma tatuagem!
o desenho que você quiser, pra sempre).


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

trançado em azul-petróleo

Fecho os olhos pra ouvir a  voz dela e me sinto em paz. É como se todo o resto fosse desaparecendo à minha volta, como se de repente, por algum tipo de milagre ou compaixão divina, não houvesse mais dor ou mágoa. Fecho os olhos pra ouvir a voz dela e me permito fingir sentir agora o que sentia por ela em outra época, numa tentativa desesperada de tirá-lo de dentro de mim - e eu consigo por alguns instantes. Algo no fundo da minha mente me aponta a ironia da situação. Algo no fundo da minha mente me diz que isso não é saudável. Mas eu não me importo. Fecho os olhos pra ouvir a voz dela e me sinto em paz - eu não estou apaixonada; mas poderia estar.


sábado, 12 de dezembro de 2009

pra quando lembrar for uma tarefa difícil

Ver o L. recitando Mar Português e descobrindo a licença poética "Ó mar muito muito salgado", os garotos agitando as ondas de mentira na direção dele, engolindo-o com os lençóis azuis enquanto a Margarida gritava e esbravejava dizendo que éramos a pior turma de Literatura que já havia pisado naquela escola.

A casa da Su depois da minha aula. Ela descendo pra escola, que ficava ao lado do seu prédio, a mãe e o padrasto trabalhando, e eu dormindo na cama dela, esperando chegar o momento de vê-los de novo quando o sinal batesse às 16:10.

E todo o resto. Todas as tardes daquele ano.

Sacolés de amendoim com chocolate na Penedo, a subida do Sufoco (onde a Ministro se encontra com a Gomensoro) no dia de São Cosme e Damião, verdade ou consequência depois da aula, "Miojo encolhe quando quebra?", O Navio Fantasma, três cortes e um beijo na Comandante Coimbra, o piercing na língua, guerra d'água na Conselheiro Paulino, madeira em flor, subidas por ruas sem nome e muitas escadas em direção à Baiana, todos os pássaros, as lentes de contato, e a mão cinematográfica da Lu, chuviscos caindo sobre o corpo jogado na Vandenkolk, dança dança dança, gosto de coisa gozada na boca, Atenas e Portugal, varanda do prédio, a quadra da escola, declaração na Paranapanema, a gente cantando Por Enquanto, a quadra do Lígia, a Coca-Cola, o meio-fio, e os gravetos da Major, as histórias da minha vida, e a certeza de que houve uma época em que eu não precisava correr atrás da felicidade, tão ansiosa, tão angustiada, tão desesperada; ela vinha até mim como se fosse destino. Era fácil, e era bom. Eu sempre soube.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

elephant gun

O pôr-do-sol, o Arpoador, os olhos de Capitu, todos os cartões-postais do Rio de Janeiro numa noite de terça-feira, "eu vou acabar sumindo da tua vida", "não é como se eu tivesse mentido pra estar aqui", lembranças de uma tarde de Agosto, lua crescente e praia iluminada, a não-vontade de ir pra casa, a constelação de Orion reconhecida, a sensação de como era bom estar ali.


"Não posso mais continuar falando contigo sem fazer isso..."








Mas hoje choveu o dia inteiro.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

é só mais um caso de coração partido

Estava descendo a rua, a nota de cinco reais sendo torcida pelos meus dedos, e um número razoável de pessoas cochichando sobre "o que aconteceu no Real Grandeza". Dei uma olhada na direção do edifício, vi uma ambulância e mais um monte de pessoas curiosas em volta. Parei no bar do Índio, pedi uma Coca-Cola de 2,75l, e perguntei o que estava acontecendo lá. O rapaz que me atendeu disse que a movimentação toda era por causa de uma garota que havia tentado se matar. Ele disse assim mesmo "ela tentou se matar". Sem eufemismos, sem palavras difíceis. Eu pisquei duas vezes e respondi com um "ah", como se entendesse. Ele me entregou a Coca, eu entreguei o dinheiro, e esperei meus cinquenta centavos de troco.

"Você sabe quem era a menina?", perguntei, tornando a olhar para o edifício, para a ambulância e para as pessoas. Ele disse que o nome dela era Ana Clara e que ela morava no décimo primeiro andar. Perguntei como ele sabia, e ele deu de ombros, "sei lá, todo mundo tá falando disso, ouvi dizer". "Mas você disse que o nome dela era... Então ela morreu mesmo, não foi só tentativa?". Ele deu de ombros de novo e me deu as costas. "Eu estou esperando o troco, os meus cinquenta centavos", falei. Ele voltou até o balcão e deixou a moeda lá, sem dizer palavra, e novamente as costas dele. Fiquei olhando a moeda, o Real Grandeza, e toda aquela gente. Pisquei duas vezes antes de pegar o dinheiro, o refrigerante, e ir pra casa.

x

Estava sentada numa das mesinhas de pedra da praça, os pés sobre o que deveria ser o banco, e um livro sobre meus joelhos. É engraçado, mas não sei dizer do que se tratava o livro, ou qual era o título dele. Sei apenas que lia, e que lia concentrada, até que ela parou do meu lado - uma garota de shorts jeans, camiseta regata branca, um all star preto e velho, e cabelos castanhos até a cintura. 

Ela não disse oi, não se apresentou, não perguntou como eu estava nem me pediu licença. Ela só parou do meu lado, corpo apoiado na mesa e cabeça baixa. Levou uns dez segundos até que falasse, e quando falou foi pra dizer que não adiantava eu ficar lendo aquele livro. Eu levantei a cabeça e dei uma boa olhada nela. Não lembro de ter sentido raiva, não lembro de ter sentido algum incômodo real, mas perguntei por que ela estava fazendo aquilo. Ela deu de ombros. "Sabe quando você acorda e percebe que a vida é boa?", ela perguntou, e eu rapidamente fiz que sim com a cabeça. "Fazia tempo que a minha vida não era boa", ela continuou,  "E então, um dia, eu resolvi não acordar". Eu arregalei os olhos; comecei com um "mas...", e ela sorriu um riso tão bonito que eu fiquei sem graça de continuar. Ela sorriu de novo, fez um carinho na minha cabeça, "Quer saber? Continua lendo. Talvez você goste do final", e deu uma piscadela pra mim, antes de ir embora - senti saudades dela no exato momento em que desapareceu da minha vista.

x

Eu estava sentada na calçada.

"Ei, Luan, o que aconteceu no Real Grandeza?"

Luan morava no edifício do bloco vizinho.

"Tu ficou sabendo? A Aninha, cara... Chegou em casa, da escola, com uma caixa de veneno pra rato - clichê, até. Tomou tudo. Não era muito minha amiga, mas fazia parte do nosso grupo. Bizarro. A mãe dela surtou".

"Mas sem motivo?"

Deu de ombros. "Tá todo mundo comentando. Será mesmo que alguém pode se sentir tão infeliz a ponto de fazer uma coisa dessas, cara? Tá todo mundo comentando... Alguns dizem que era só pra aparecer um pouco, mas que acabou dando errado - o que eu duvido muito, a Aninha não era disso. Outros dizem que ela sempre foi mesmo muito estranha, mas sei lá, eu discordo, a garota parecia bem normal, pra mim. E há quem diga que é só mais um caso de coração partido, o que faria sentido se o rolo dela não tivesse acabado há tanto tempo - e ela estava realmente bem, de uns dois meses pra cá..."

Eu não falei, só fiquei olhando pra ele.

"Sei lá, é bizarro. Fiquei sabendo que ela não deixou nem uma carta explicando aos pais. Que ela só... foi".

x

Estava sentada numa das mesinhas da praça, só que agora eu não era eu e via a cena de fora. Também não tinha nenhum livro sobre meus joelhos, nem ela do meu lado. Tinha só um papel meio amassado que eu estava segurando, mas que eu sabia, que eu tinha certeza, que era dela. De longe, eu me vi chorando e rindo, meio louca, com aquele pedaço de papel nas mãos. Não fazia ideia do que estava escrito, mas reconhecia a sensação de compreensão se espalhando por cada célula do meu corpo.

Não parei de rir nem chorar. Não sei o que estava escrito no papel. As saudades dela aumentaram.

x

"Fiquei sabendo de você enquanto comprava um refrigerante. Não te conheci, não conheci sua família, e de todos os seus amigos eu só conheço o Luan, e porque ele estuda comigo, e ele nem era tão próximo de você assim. Não entendo o porquê de você ter feito o que fez, desconheço completamente os seus motivos, e tudo o que eu tenho é tudo o que todo mundo tem de você, já que você não deixou nenhuma pista, absolutamente nenhuma pista do que você sentia ou pensava. Pelo que eu vi, todo mundo achava e acreditava que você era feliz. E às vezes eu me pergunto se você mesma não tinha essa consciência, sabe? Eu vi umas fotos suas, no seu orkut e no orkut dos seus amigos. Seu sorriso era bem bonito, e os cantos dos seus olhos pareciam acompanhar cada riso que você dava. Você conhecia bastante gente, tinha bastante depoimento, tinha fotos de lugares incríveis e parecia ter histórias incríveis. Você escrevia tudo muito certinho e direitinho na internet, e participava de comunidades cretinas, geniais e interessantes. Sim, eu te stalkeei, mas só porque eu queria entender. Queria ver se havia alguma pista, se havia alguma coisa que todo mundo perdeu, se havia qualquer coisa. De repente me ocorreu que talvez nem você soubesse que ia morrer. De repente me ocorreu que nem você esperava por isso, mas que entendeu que talvez devesse acontecer. Eu não sei. Eu leio seu perfil, eu revejo seus álbuns, eu leio seu antigo blog, e eu simplesmente não sei. Eu tenho sonhado com uma menina que não parece muito com você, exceto pelos cabelos, mas que eu acho e tenho certeza de que é você. Não sei mesmo por que você faria isso, por que você fez isso. Pensei no que o Luan disse, e cheguei à conclusão de que talvez pudesse mesmo ter sido por causa de coração partido, mas não desse jeito, não por causa de um cara. É como quando a gente deixa um copo escorregar, por acidente, e ele acaba se espatifando no chão. Talvez tenha acontecido o mesmo contigo. Talvez você nem tenha entendido direito como ou quando ou por que o seu coração quebrou. Mas aí, quando você percebeu, quando você se deu conta disso, você morreu. E eu sinto muito. Eu sinto muito por isso. Eu sinto muito por tudo".


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

aquilo que eu faço quando não estou aqui

Tenho trabalhado trabalhado trabalhado e ido à academia. Pois é, eu e academia na mesma frase e num sentido positivo. Agora estou indo direitinho, vou sempre depois do trabalho, e saio de lá às 20h. Tem sido divertido, costumo ir com minha mais-ou-menos chefe, e com o pessoal que trabalhava comigo no callcenter. Descobri que spinning é uma atividade cruel, e que morro de medo de correr na esteira e ficar caindo que nem em The Sims - mas eu tenho que correr, não dá pra continuar só caminhando na velocidade que eu estou caminhando. Enfim. É um dos motivos pra eu chegar em casa morta o suficiente pra só tomar banho, comer alguma coisa, jogar Colheita Feliz/Joga Craque rapidinho, e então ir dormir - especialmente porque meu computador já está nas últimas, e não tenho conseguido ficar muito tempo nele sem me irritar.

Acho que não tenho escrito muito por causa disso. Por causa disso, e porque ando mesmo sem muita vontade de falar ou de conversar direito. Falo só de trabalho porque não sinto muita vontade de falar sobre o resto. Ando preferindo ficar em casa vendo um filme sozinha, ou então lendo um livro, ou então ficar deitada no sofá ouvindo músicas que ouvia dois anos atrás. Confesso que sinto falta das coisas que eu fazia antes de entrar de férias. É engraçado e estranho o quanto algumas coisas mudaram depois das férias - e não necessariamente por causa delas. São outros hábitos, são outras situações. Mas ainda sinto falta de antes, em muitos aspectos. E um deles está no fato de sair, de passear, de querer ver coisas bonitas e de buscar coisas bonitas pra ver e de encontrar essas coisas bonitas. Eu sinto falta de ter alguém comigo pra dizer "vamos" depois de eu perguntar.

Trabalhando, malhando, e reaprendendo a ficar sozinha.

Ainda não sei se e o quanto isso tudo é bom.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

coisas que você não vai ler

Eu não achei que fosse passar logo, mas eu quis muito. Chorei algumas noites por tua causa, e depois de uma noite em especial decidi que não choraria mais. Cumpri minha palavra durante dois meses, até que ontem veio a recaída. E  foi meio patético chorar no banheiro da academia só porque a gente não pegaria o ônibus juntos naquele dia, como um ano atrás. Eu fiquei lembrando do que você disse naquela noite em que acabou-acabou - antes mesmo de saber que ia acabar-acabar -, que sempre haveria o 711 pra gente - e não, não houve.

Sinto sua falta todos os dias. Às vezes penso que você é pra mim como um tumor - eu sabia viver antes de você e vivia bem; eu estou vivendo depois de você e vivendo bem. Mas agora eu estou com aquela cicatriz enorme do buraco que sempre fica quando os cirurgiões têm que tirar a parte estragada do corpo. E conforme o tempo passa e você não, fico achando que você é um daqueles recessivos malignos, que acabam fazendo as pessoas morrerem aos poucos não importa o quanto elas se recuperem e tenham momentos como se nunca tivesse existido um tumor.

A gente não se fala mais como antigamente, como quando éramos amigos. A gente não se fala mais, e toda vez que eu te vejo é como se eu subisse cinco lances de escadas sem parar. A gente não se fala mais, e eu fico inventando conversas que a gente poderia ter tido, quando eu não consigo lembrar direito das conversas que a gente teve - e elas sempre parecem de verdade. A gente não se fala mais, e eu fico cada vez mais chateada quando passo do teu lado, segurando o passo, e tu não para como antigamente pra conversar, e diz só "bom dia" ou "oi" como se a gente não se conhecesse o que a gente se conhece. Sério, isso me mata cada vez que acontece e você sabe que acontece com uma certa frequência.

Eu devia era superar isso e  seguir em frente. Como tu disse que estava fazendo comigo, como eles fizeram em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. É o discurso dos amigos, será o discurso de qualquer pessoa que ouça a história ou a leia aqui. Seguir em frente, continuar, se reerguer e todas essas coisas bonitas e gloriosas que todo mundo espera, que todo mundo quer que alguém nessa situação faça, que todo mundo deseja, porque querem te ver feliz e mais ainda porque estão de saco cheio de tever na fossa - ninguém gosta de companhias tristes. E porque sofrer por amor é old school e ninguém realmente quer morrer de e por amor, como Romeu e Julieta, como qualquer outra história nessa linha. O romantismo passou. E eu queria muito que você passasse também.

Quanto tempo vai levar até eu deixar de te amar assim, desse jeito, hein?
Quanto tempo?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

damned if you don't

A gente nunca pensa que a nossa vida vai se encaixar numa música do Forfun ou do Lulu Santos. Não sei por que isso acontece. Talvez acreditemos que apenas Freddy Mercury, Renato Russo, e Ben Gibbard são dignos de contar a nossa história ou o que passa pela nossa cabeça. E o resto é resto. Meio idiota, meio brega, meio antiquado.

Naquela noite o couvert artístico tocava Tempos Modernos, e o refrão nos pedia pra viver tudo o houvesse pra viver. Dizia que devíamos nos permitir.

Eu lembrei disso durante o almoço, enquanto ele tamborilava os dedos sobre a mesa, as costas viradas pra mim, e uma risada despreocupada. Lembrei das coisas que a gente fazia no breu do cinema e nas coisas que ele dizia ao pé do meu ouvido. E lembrei daquela noite no ônibus, em que nos encontramos por acaso depois de Tempos Modernos. Naquela época pensei que talvez fosse uma dica, hoje não sei. Posso encarar como sinal, mas também posso encarar como uma dessas coincidências engraçadas que a gente vive uma hora ou outra. O horário de almoço acabou, e voz dele continuou no meu ouvido, mesmo depois de vê-los saindo juntos do prédio.

Acho que minha vida está longe de ser um musical da Broadway, sucesso de bilheterias. Está longe de ser uma tocante tragédia do Death Cab For Cutie, longe de ser uma lendária canção do Queen, longe de ser um relato épico cantado pelo Legião Urbana. Minha vida é como todas as outras músicas que você menospreza, meio idiota, meio brega, meio antiquada. E o resto é resto. Um dia ela pode ser bonita também.