segunda-feira, 16 de novembro de 2009

retrospecto

Não acontece todo dia, mas acontece com uma certa frequência: eu fico lembrando. Pensar nele ainda é reflexo diário, reflexo de hora em hora, quase que de minuto em minuto. E levando em consideração o fato de que a gente trabalha no mesmo prédio, almoça no mesmo horário, e (teoricamente) pega o mesmo ônibus, não é algo que eu possa realmente evitar. Pensar nele, só na imagem, às vezes na voz, evitar pensar no resto. Mas aí acontece de eu lembrar e ficar lembrando, assim mesmo, no gerúndio, sem ser um dos reflexos, mas sim algo que dura mais que três segundos e me deixa zonza de novo. Eu fico lembrando, eu fico pensando se fui realmente tão escrota como parece que fui.

Ele disse que gostava de mim. Ele disse que me amava. Ele disse que precisava fazer isso sumir, desaparecer, por causa do que tinha acontecido antes entre a gente.

Lembro disso sempre que o vejo - não necessariamente quando penso nele -, porque ele sempre me parece diferente, talvez mais feliz agora. E eu fico pensando se realmente fui o motivo de tristeza dele, se realmente o magoei assim, de um jeito tão profundo que o fez ficar com medo - e ele disse que sentia medo. Ele disse isso até o fim.

Eu fico horrorizada quando penso que posso tê-lo machucado dessa forma. Eu fico horrorizada porque, no fundo, naquela época, eu fazia coisas que eu sabia que o magoariam - embora não soubesse o motivo disso, de eu fazer. Eu costumava dizer pra mim mesma que seria melhor se ele descobrisse que eu não era garota pra ele, que a gente não daria certo - e o curioso é que eu sempre achei que a gente daria certo. Eu costumava dizer pra mim mesma que ele não devia estar fazendo aquilo, que era absurdo ele dizer todas aquelas coisas boas e bonitas sobre mim, que parecia errado, que era errado.

Eu surtei quando ele me deu um presente. Surtei mesmo, da minha voz ir ficando cada vez mais histérica, cada vez mais aguda, e eu tinha gostado!, mas não sabia por que continuava falando rápido e sem parar que ele era louco de me presentear, e que não precisava, e que eu me sentia culpada, que eu tinha adorado mas que ele não devia... Eu avisei desde o início que eu poderia sumir. O problema não foi ele. O problema estava comigo, estava no fato de eu me achar pequena, inferior e não merecedora - dos presentes dele, do carinho dele, da felicidade que eu sentia quando estava com ele e que ele me proporcionava, de tudo.

Se a vida não fizer a gente se cruzar de novo, se a vida não fizer a gente ficar junto de novo - como nos filmes, como nos livros, como nos meus sonhos dos últimos meses -, então acho que ele veio pra mim pra que eu entendesse, pra que eu descobrisse que apesar de tudo o que eu penso sobre mim, apesar de eu estar certa tantas vezes, eu sempre estive errada sobre as coisas mais importantes.

Agora eu entendo tudo o que ele falou ao longo dos oito meses que ficamos juntos, sobre eu ser especial. Ele foi meu anjo, minha alma gêmea, e você pode inserir aqui qualquer equivalente clichê, melodramático e brega, que vai ser verdade. E eu vou tentar lembrar disso, e só disso, quando eu pensar nele de novo - porque eu vou pensar nele de novo. E vou tentar lembrar disso depois, quando eu deixar de pensar nele - e isso vai ser ainda mais difícil, mas não impossível.

Sou grata por tudo. Ele sabe disso.
Espero realmente não tê-lo magoado muito.

Um comentário:

w0rthdyingfor disse...

porra. eu estou a chorar. com todas as diferenças que existem, mas, Cah, eu li estas palavras e eu li muito da minha vida - li principalmente os meus medos, os meus receios, e o momento em que existiu alguém para me dizer que eu merecia sim ser amada e por isso também ser feliz.
como tu mereces, como eu torço para que sejas. porque ele tinha razão - és especial sim. e muito.
(L) *