terça-feira, 27 de outubro de 2009

samson

Diego Caeris tinha um dos cabelos mais bonitos que já vi na vida e, de tempos em tempos, passava máquina um neles. Quando ele aparecia praticamente careca, as meninas tinham ganas de matá-lo da pior maneira possível, mas era só ele abrir aquele sorriso de covinhas e usar qualquer desculpa digna de Caeris, que todas eram só risinhos pra ele de novo.

Caeris nem era bonito assim. Garoto normal, do tipo magrelo e alto, olhos castanhos claros que nem os cabelos. Mas se vestia bem, até; uns jeans legais, uns sapatos legais, umas blusas legais. E era inteligente, aquele puto. Adorava sacanear, adorava rir, adorava matar as aulas da tarde da faculdade. Participava de umas corridas de kart de vez em quando - quando a grana do emprego meio expediente sobrava -, e às vezes fumava um pouco, quando ia a shows ou quando desse vontade.

Lembro que teve um dia em que a gente combinou de jogar buraco na casa dele. Marcamos às 23h, mas eu cheguei às 20h. Ficamos sentados no telhado esperando o resto do pessoal, e ele disse que ia me ensinar a fumar. Era engraçado, mas o Caeris tava sempre me ensinando alguma coisa diferente, fosse um jogo de baralho, fosse a letra de uma música, fosse um novo livro. E naquela noite ele cismou que ia me ensinar a fumar. Bem, não deu muito certo. Ele segurou meu pulso, me ensinou a segurar o cigarro, falou um monte sobre respiração e sobre como tragar, mas naquela noite não deu. Eu não aprendi a fumar, e ele fingiu frustração dizendo que eu devia ter algum defeito de fabricação por não aprender algo tão simples. A gente riu. Ele era um retardado. Eu disse que só aprendia as coisas com ele quando ele não estava realmente disposto a me ensinar, e acho que ele concordou.

A gente ficou em silêncio. Ele parecia pensativo demais olhando o céu, mal parecia o garoto risonho que me enchia o saco sempre que dava. Daí o Caeris esticou o braço e me puxou pra perto. Daí eu fiquei lá, a cabeça apoiada no ombro dele, e o cheiro bom que ele tinha invadindo as narinas. Pensei que curtia mesmo aquele babaca infantil, pensei que era muito fácil ficar ali daquele jeito, pensei que o Caeris era um dos meus melhores amigos e que eu devia passar mais tempo com ele de vez em quando.

Naquela noite eu nem joguei buraco. Peguei no sono lá no telhado e acabei dormindo no colo do Caeris. Quando acordei já era dia, eu estava na cama dele, e ele tava deitado no chão em cima de uns colchonetes, todo jogado e enrolado entre travesseiros e lençóis. Sorri com a cena. Ele parecia mais novo ainda daquele jeito.

Acho que deu uns três dias depois daquela noite.

E de repente ele sumiu. Aquele filho da puta era meu amigo, eu contava coisas pra ele, e de repente ele sumiu. Fico pensando se catou umas roupas, colocou tudo numa mochila grande e foi embora. Penso que seria mesmo a cara dele, mas só até o momento em que eu chego à conclusão de que ele nunca iria embora sem se despedir. Nem que fosse só pra mim, nem que fosse só um bilhetinho escrito “fui”.

Não sei, pode ser pretensão minha, mas a gente era amigo pra caralho, amigo demais pra ele ir sem falar comigo. E a gente quase ficou, naquela noite.  E pensando agora, a gente devia mesmo ter ficado naquela noite, aquele era o nosso momento... Mas não adianta mais. Tem uns sete meses que o Caeris sumiu e não deu mais notícias. Os pais dele também não sabem de nada, nem o irmão mais velho. Eles ligaram pra polícia, mas o pessoal acha que não vai dar nada, como ainda não deu, e que tudo vai ficar por isso mesmo. E eu não querendo acreditar em todas as coisas que me dizem, em todas as coisas que eu imagino que pode ter acontecido.

Porra, Caeris...

Toda noite, antes de deitar, penso que talvez ele vai bater na minha janela com aquele sorriso de covinhas e aquela cabeça raspada, mas ele nunca vem.



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