quinta-feira, 29 de outubro de 2009

a noite estrelada


Bonita noite, eu pensei, o céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E o short dela sujo de cal. O short dela sempre ficava sujo de cal, quando a gente sentava, como naquela noite, na calçada. E quanto mais sujo ficava, mais eu reparava. Ou talvez esse nem fosse o caso de verdade, talvez eu reparasse sempre, sempre dada a detalhes dos mais desimportantes em relação às pessoas. E especialmente em relação a ela, passei a notar.

Bonita noite, comentei, e ela acenou a cabeça sem dizer nada, pensativa. E era sempre assim, constatei. Ela pensando em algo, eu pensando no que ela poderia estar pensando. Mas talvez não. Não, no começo não era assim. No começo eu já era aérea, mas não por causa dela, e sim por causa de tudo, do mundo, dos outros, de mim mesma. Não havia alguém específico, não havia nada específico, só havia uma divagação meio que sem trilhos. E então ela. Ela sentada do meu lado na calçada, numa noite bonita, numa noite de chuva fininha, numa noite nublada, numa noite estrelada. Ela com seus shorts sempre sujos de cal, eu reparava. E aí o frio. Na espinha, na nuca, na barriga, quando ela inconscientemente chega mais perto por causa do frio.

Como é que 'cê tá?, eu perguntei. Ela disse que não sabia, que não sabia de mais nada, e eu acreditei. Acreditei porque entendia, talvez mais do que ela mesma, sobre essas coisas de não saber. Ela disse que sentia vontade de sumir, feito fumaça, feito nota de música, feito palavra, mas sem chance de se reproduzir ou de ser reproduzida por outras pessoas. Sumir, só. E eu perguntei rindo o que seria da minha vida sem você? Ela riu e respondeu o que seria da minha vida sem você. Sorri, mexi nos seus cabelos e falei a verdade, que queria saber tirar tudo isso de dentro dela, mas que não sabia como. Riu de mim, riu de si mesma, riu de tudo e disse gata, acho que estamos na mesma merda. Deitou no meu colo, se acomodou, se perdeu no céu.

Bonita noite, comentou, pela primeira vez prestando atenção. O céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E eu a beijei. Ela retribuiu. Foi um beijo suave, tão macio!, e mais forte que eu - muito, muito mais forte que eu. A gente se separou, os olhos arregalados, a vontade de fazer de novo. Fizemos de novo. E lá dentro, lá no fundo da minha mente, não pude deixar de pensar gata, acho que estamos mesmo na mesma merda.

Mas a noite estrelada estava bonita. E o short dela sujo de cal.

07/07/2009

2 comentários:

phi disse...

perdi-me na suavidade e na beleza de uma escrita incomum e de um sentimento mais incomum ainda.
é sério.*

between_ disse...

eu achei o texto e o sentimento, as coisas mais lindas e doces. mesmo.