quarta-feira, 7 de outubro de 2009

madeira em flor

Tinha uma menina que andava com a gente, naquela época. O nome dela era Natali. Seus cabelos eram amarelos, não raro eu a via de tranças, e lembro que gostava de bubbaloos de morango e de rabiscar seu nome em folhas de caderno usando uma caligrafia desleixada. Estava em seu último ano na escola.

Natali morava na nossa rua, jogava videogame com os meninos todos os sábados, campeonatos de futebol e de Mortal Kombat, Manchester United e Sub-Zero, colecionando vitórias em lutas e competições que nem eram suas de verdade. À noite, geralmente tinha reunião com as amigas, filmes de comédia romântica e um pouco de brigadeiro e sorvete - para adoçar o paladar e deixá-lo dormente logo em seguida.

Hoje, quando penso em Natali, lembro de risos frouxos e cílios longos quase transparentes. Lembro de olhos cor de mel, mania de morder os lábios quando parecia não ter ninguém olhando, e uma face sempre, sempre corada. E era magra e pequena, e lhe faltava altura e corpo de mulher, mas era tão bonita com aquelas tranças e caras e bocas! Tinha dezesseis anos e parecia ter menos, às vezes.

Natali roía as unhas.

Durante a semana, Natali usava saias curtas e blusas semi transparentes, meias três quartos e sapatinhos de boneca. Natali parecia uma boneca. Nos finais de semana, eu a via de tênis ou havaianas, shorts desbotados e camisas de bandas, tranças feitas sem muito cuidado e sempre os sorrisos soltos. Natali parecia confortável.

Natali gostava de pirulitos de cereja e de parques de diversões, e saía para festas e raves e shows só pra variar. Natali se impressionava com coisas pequenas e gostava de coisas aleatórias - como pular na cama elástica que montavam para as crianças lá na praça. Natali ria de piadas que mais ninguém ria.

E quem visse Natali como eu via naquela época, não poderia imaginar, simplesmente não poderia imaginar...

Natali cheirava a madeira em flor, e os garotos adoravam a curva do pescoço dela, e o gosto meio doce que ficava nos lábios deles quando eles a beijavam ali, e adoravam quando ela soltava um suspiro mais logo e falava baixo em seus ouvidos, na cama, na parede, no carro, na escola, no estacionamento do shopping e onde mais Natali achasse divertido fazer coisas que não deveria fazer.

Natali era a mais nova entre a gente, seus dezesseis anos de tranças e bubbaloos de morango ficavam espalhados entre os hormônios dos rapazes de dezoito, e as vontades dos caras acima de trinta.

Natali tinha nove anos quando o padrastro dela começou a se aproveitar. E ninguém, ninguém poderia imaginar. Eu mesma não imaginei; aposto que você também não.

Pensando agora, talvez tenha sido por isso que Natali foi o que foi o tempo todo, desde as tranças de cabelo até seus suspiros de corredor. Ou talvez Natali fosse apenas Natali, desde o início, e estivesse acima de tudo isso. Eu não sei. Não dá pra saber uma coisa dessas.

Mas não importa mais.

Naquela época, Natali terminou a escola e fugiu de casa. Nunca voltou.


3 comentários:

Julia disse...

JURO que um parágrafo antes eu já estava imaginando.

e também gosto de supor que ela era assim porque era assim, e que ficou acima disso.

:* ♥

Diana disse...

Tinha absoluta certeza do por que. Provavelmente foi por isso, quase certamente. Mas, ao mesmo tempo, ser por isso não significa não estar acima disso.

Julia disse...

acho que é outro caso, Diana. Não "estar acima disso" no sentido de "nunca derramou uma lágrima", mas que não deixou que isso mudasse a sua personalidade. Foi como eu entendi o final.