segunda-feira, 19 de outubro de 2009

do sonho em sépia

"Tô melhorando, sabe. As coisas vão mudando, e eu melhorando. Eu vou esquecendo", ela diz com a cabeça baixa, queixo nos joelhos, ocupada desenhando a terra com um graveto.

"Eu só perguntei porque tu não me parece feliz".

"Sei lá, acho que o pior é isso, Gueto. É perceber todas essas coisas se desfazendo, feito castelos de areia numa ventania". Ela suspira todo o ar a volta deles "O pior, Gueto, é a percepção estranha de que eu posso viver sem isso".

"Tu preferia que fosse pra sempre?", ele questiona.

"Acho que sim. Não sei. Às vezes não...".

"Não precisa ter pressa. Vou ficar aqui a noite toda, tu sabe".

"É. Mas eu também queria explicar, dizer logo...".

"Então diz", ele sopra. Sereno.

Ela sorri.

"É que eu tenho dois medos, Gueto. Tenho medo de encontrar pessoas maravilhosas, de perdê-las, e então perceber que eu posso e consigo viver sem elas, que eu posso e consigo continuar sem elas...".

Ele espera, e o segundo vem.

"Quando esse passa, fico com medo de encontrar uma pessoa maravilhosa, de perdê-la, e então constatar que não tenho mais volta".

Ele sorri. Ele entende.

"Não precisa ser assim. Tu nunca foi dos destinos, querida. Tu sempre foi dos trajetos".

Aí ela ergue as sobrancelhas. "Ah..." Ela sorri "Enquanto todo mundo fica preso na estação, tem alguém que fica preso no trem" Ela entende.



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