domingo, 25 de outubro de 2009

da chuva

De repente ela está na minha porta, all star nos pés e vestido na altura das coxas. Ela está toda molhada de chuva, e eu sei que não é pretexto, dá pra ouvir de lá de dentro, dá pra ver da minha janela, então ela ri aquele riso de sempre e mexe a cabeça, se achando tola, se achando tonta, se achando vários outros adjetivos bobos com a letra "t", mas eu digo que "não" sem nem pensar no que estou dizendo. Eu quero convidá-la pra entrar. Eu quero convidá-la pra muitas coisas, na verdade, mas não tenho coragem, não tenho palavras nem tenho ação, e já me disseram que se continuar assim também não terei ela.

Eu me comporto como se a gente fosse só amigas, como se a gente nunca tivesse se beijado - uma, duas, três vezes -, e mando ela entrar porque tá frio, porque ela tá molhada, porque ela tem que tirar aquela roupa e pode usar as minhas. Eu fecho a porta, ela o cumprimenta ao passar pela sala, e eu penso que não a terei de qualquer forma, porque ele é um cara legal que eu conheci por acaso e que não gosta tanto das mesmas coisas que eu, mas tem um senso de humor que sempre me alegra e um perfume que me deixa meio tonta, meio boba.

Eu o conheci há pouco mais de um mês, enquanto ela andava por aí e eu não a via mais, enquanto ela acampava, mochilava, estudava, beijava outras meninas e transava com uns conhecidos e desconhecidos nossos. Eu o conheci e a gente se beijou, a gente acabou transando num lugar público numa noite bonita, e desde então ele vem aqui em casa, conhece meus pais, e tudo está bem, até que de repente ela está na minha porta, all star nos pés, vestido na altura das coxas, e toda molhada de chuva.

Eu falei dela pra ele. Uma daquelas amizades que começam do nada, uma daquelas paixões que começam desde o primeiro momento, um daqueles casos em que se fica preso mesmo depois que se acaba, mesmo depois de um mês, mesmo depois de anos, talvez, porque a amizade tem que continuar, afinal, a amizade sempre tem que continuar. Eu nunca falei dele pra ela. Nunca falei o quanto ele me fazia rir, o quanto os braços dele eram confortáveis, o quanto ele me empolgava e me fazia querer fazer planos, mesmo com tão pouco tempo de convivência, nunca falei o quanto ele parecia ter aparecido na hora certa.

Eu chego a apresentar os dois e ambos sorriem, parece até mentira, parece até piada, os dois tão bonitos na mesma cena, dizendo prazer prazer, tudo bem?, e eu ali, completamente apaixonada por ela, completamente apaixonada por ele, completamente apaixonada, só.

Eu aviso a ele que ela vai se trocar, mas ele já sabe, então aviso que eu vou fazer companhia a ela, mas ele já sabe, e eu digo que não vou demorar, e ele diz que não tem problema nenhum, que ele entende, e então eu falo tá, e a gente sai. A gente sobe as escadas para o meu quarto enquanto ela faz piadas sobre ele e diz que está feliz por mim. Pergunta há quanto tempo, eu respondo que o tempo que ela ficou fora, e ela acena cabeça, sorri, acena a cabeça de novo e diz que foi bastante acertado, enquanto tira o tênis e o vestido na minha frente, sem qualquer aviso, e depois tira o sutiã e se joga na minha cama.

De repente eu estou na minha porta, me perguntando o que ela veio fazer aqui depois desse tempo todo, sem conseguir tirar os olhos dos olhos fechados dela, sem conseguir desviar a atenção da respiração dela, do peito subindo e descendo, das pernas, da boca, dos seios, de tudo. E então ela ri aquele riso de sempre e abre os olhos, perguntando pela roupa, que eu alcanço em três, dois, um, e entrego pra ela, que diz pra eu sentar, e eu sento sem nem pensar muito no que estou fazendo. Eu quero beijá-la agora. Eu quero muito mais que beijá-la agora, na verdade, e talvez eu tenha coragem, talvez eu não precise de palavras, só de ações, porque eu não quero nem posso me arriscar a perdê-la assim.

Eu a beijo e ela deixa. Acho que ela estava esperando isso, porque ela corresponde como se esperasse, e de repente eu sinto um alívio tão grande, uma felicidade tão grande, e eu não quero parar. Eu a beijo, ela deixa, e passa de uma, duas três vezes. Eu a beijo, ela deixa, e então começa a tirar minhas roupas, nossas mãos deslizando, escorregando, tocando seios, sexos, e a lembrança um tanto culpada de que o namorado está no andar de baixo, mas é que era ela, e ele já sabia, e talvez por isso tenha dito que não teria problema algum, que ele entendia.

De repente nós duas estamos transando na minha cama enquanto ele está no meu sofá ouvindo as músicas que eu gosto, as músicas que ele gosta, as músicas que a gente descobriu por acaso e não sabe ainda se vai gostar. Ela ri aquele riso de sempre e solta um suspiro, e me faz suspirar, e de repente tudo me faz pensar que vai ficar tudo bem, mesmo que ela vá embora no final, mesmo que... muitas coisas, muitas coisas acontecendo agora e eu não sei o que vem depois.



2 comentários:

Dri Sweet Pepper disse...

Aaaawww, finalmente você publicou ♥ Acho que é meu preferido, hm, talvez.

clah disse...

...preciso dizer? <3
Não, não é o meu preferido, mas é maravilhoso, de qualquer jeito. Me arrepiei.