sexta-feira, 16 de outubro de 2009

carta de uma desconhecida

29/09/2009


Acho que é mais um daqueles momentos em que eu volto depois de sumir. Não me admira que tu tenha sentido tanto medo, eu realmente entendo. E queria dizer que não tem raiva, nem rancor, nem nenhum sentimento ruim aqui. Tem só um espaço muito grande, na verdade, algo que eu não posso mais tocar, um vazio estranho, um prédio de dezesseis andares completamente abandonado.
Mas você entendeu o porquê de eu ter ido embora daquele jeito? Havia tanta determinação tua em me tirar do teu organismo, que continuar ali já não seria mais confortável, caso eu continuasse do teu lado. Não seria minha casa, não seria meu nono andar da UERJ, não seria minha noite no Arpoador. E eu não queria que todas as coisas boas perdessem o sentido.
Não sei, mas sempre achei que tudo começou no 711. Não foi naquela noite de dezembro, mas sim antes, no ônibus, enquanto falávamos sobre comidas, política, e videogames. Alguns amigos disseram que eu teria que esquecer e superar, mas parece tudo tão entranhado, nossa amizade e o que veio depois, que separar me soa até sacrilégio, heresia. Em contrapartida, eu não poderia nem gostaria de te atrapalhar, me tornar um estorvo.
Eu fiquei sem saída. Tive duas opções, e nenhuma delas era sequer razoável pra mim. Uma delas consistia em te ver indo embora de longe, sem poder me despedir; e a outra consistia em estar ao teu lado, sim, mas arrumando todos os preparativos pra tu me deixar. Dos males eu escolhi o menos pior, que era não fazer parte disso - eu já havia saltado do prédio, não queria pensar que tinha me jogado com os pulsos já cortados. Seria como se eu quisesse ter certeza de que ia morrer, e eu não queria - nem ter certeza, nem morrer.

Eu amo você.

Em um parágrafo à parte, ainda que faça parte do todo. Pra que tu não tenha dúvidas, pra que tu possa reler, se quiser, pra que tu saiba, pra que tenha certeza - porque ainda que seja tarde demais, preciso que tu tenha consciência de que é a verdade, de que essa sou eu me mostrando de dentro pra fora. Preciso que tu tenha consciência de que tu não é só mais um cara, mas sim o cara que ouviu de mim minha declaração mais sincera, mas sim o cara que conquistou tudo, que me teve nas mãos em todos os sentidos, que teve passe livre para todos os aspectos da minha vida, ainda que não parecesse. Tu é especial, sabe. Lembre-se disso.
Acaba aqui. Comigo aparando arestas, sem esperar mais absolutamente nada. Mas tudo bem, sabe? Resolvi tocar a vida, só precisava que tu soubesse, antes de eu começar. E precisava dizer que as coisas sem você não são as mesmas, mas tudo bem. E que ainda que eu prefira evitar o contato direto e direito, eu vou sempre estar contigo de alguma forma, caso tu precise. Como se fosse uma prece, talvez. E que tudo bem.


Sobre o livro: é teu. Presente que tive vontade de dar, como agradecimento e pedido de desculpas - por absolutamente tudo. Ele me fez lembrar você, sabe - exceto pela última página, que é como se ela falasse por mim. Considere como a despedida apropriada. Dessa vez sem "nunca mais", mas ainda assim sem estimativa de tempo para um retorno.

E que o Arpoador e o nono andar da UERJ continuem sendo nossos.




C.



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