quinta-feira, 29 de outubro de 2009

a noite estrelada


Bonita noite, eu pensei, o céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E o short dela sujo de cal. O short dela sempre ficava sujo de cal, quando a gente sentava, como naquela noite, na calçada. E quanto mais sujo ficava, mais eu reparava. Ou talvez esse nem fosse o caso de verdade, talvez eu reparasse sempre, sempre dada a detalhes dos mais desimportantes em relação às pessoas. E especialmente em relação a ela, passei a notar.

Bonita noite, comentei, e ela acenou a cabeça sem dizer nada, pensativa. E era sempre assim, constatei. Ela pensando em algo, eu pensando no que ela poderia estar pensando. Mas talvez não. Não, no começo não era assim. No começo eu já era aérea, mas não por causa dela, e sim por causa de tudo, do mundo, dos outros, de mim mesma. Não havia alguém específico, não havia nada específico, só havia uma divagação meio que sem trilhos. E então ela. Ela sentada do meu lado na calçada, numa noite bonita, numa noite de chuva fininha, numa noite nublada, numa noite estrelada. Ela com seus shorts sempre sujos de cal, eu reparava. E aí o frio. Na espinha, na nuca, na barriga, quando ela inconscientemente chega mais perto por causa do frio.

Como é que 'cê tá?, eu perguntei. Ela disse que não sabia, que não sabia de mais nada, e eu acreditei. Acreditei porque entendia, talvez mais do que ela mesma, sobre essas coisas de não saber. Ela disse que sentia vontade de sumir, feito fumaça, feito nota de música, feito palavra, mas sem chance de se reproduzir ou de ser reproduzida por outras pessoas. Sumir, só. E eu perguntei rindo o que seria da minha vida sem você? Ela riu e respondeu o que seria da minha vida sem você. Sorri, mexi nos seus cabelos e falei a verdade, que queria saber tirar tudo isso de dentro dela, mas que não sabia como. Riu de mim, riu de si mesma, riu de tudo e disse gata, acho que estamos na mesma merda. Deitou no meu colo, se acomodou, se perdeu no céu.

Bonita noite, comentou, pela primeira vez prestando atenção. O céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E eu a beijei. Ela retribuiu. Foi um beijo suave, tão macio!, e mais forte que eu - muito, muito mais forte que eu. A gente se separou, os olhos arregalados, a vontade de fazer de novo. Fizemos de novo. E lá dentro, lá no fundo da minha mente, não pude deixar de pensar gata, acho que estamos mesmo na mesma merda.

Mas a noite estrelada estava bonita. E o short dela sujo de cal.

07/07/2009

i wish i was special, so very special

Mas eu sou só a porra de uma garota carente, insegura e egoísta, que não consegue levar nada muito a sério, e que não raro tende a afundar em um poço de auto comiseração e pensamentos demasiadamente mórbidos e clichês. Pateticamente antiquada. Mediana. Sem qualquer perspectiva de vida, de um futuro, de qualquer coisa. Que pensa na própria morte mais vezes que pode contar, embora não queira de fato morrer - mas isso, talvez, porque não consegue pensar em nenhuma morte sem dor. Que fez o irmão jurar que seria "cremada, não enterrada" - ainda que ele estivesse mentindo - pra não ter que viver e conviver com a idéia de ter seu corpo apodrecendo debaixo da terra, unhas e cabelos crescendo sem parar, e um bando de vermes dilacerando seu corpo depois de morta. Que não consegue entrar num metrô sem pensar que seu vagão vai descarrilar, que não consegue andar na rua sem pensar que pode ser estuprada, assassinada, ou qualquer outro tipo de atrocidade que sua mente é capaz de forjar. Com mais neuroses e idéias nocivas do que se pode contar - e que também não faz muita questão de contar, na realidade. Com pesadelos de câncer e doenças terminais e aleatórias que poderiam ser facilmente explicadas pela Wikipédia. Com skills elevados no quesito auto depreciação.Sem nenhuma esperança. Só a porra de uma garota carente, insegura e egoísta, com uma vontade infinita de não acordar amanhã.




terça-feira, 27 de outubro de 2009

a última página do livro

Menininha, vou tratar você com intimidade, é mais fácil para mim. Só queria lhe dizer que fiquei um pouco emocionado com a conversa de outro dia. Você é uma garotinha legal.
Não quero mais brigar com você. Azar o meu se às vezes fico um pouco triste. Você tem razão em tantas coisas... Sem dúvida eu lhe farei mais mal do que bem. Sem dúvida, não, mas talvez.
Então eu tomei grandes decisões, e você pode tornar a me ver. Sou seu amigo.


A.


Claro que a menor primavera enfraqueceria minhas decisões - mas azar se não há mais primavera.

Lettres à l'inconnue, Antoine de Saint-Exupéry       

samson

Diego Caeris tinha um dos cabelos mais bonitos que já vi na vida e, de tempos em tempos, passava máquina um neles. Quando ele aparecia praticamente careca, as meninas tinham ganas de matá-lo da pior maneira possível, mas era só ele abrir aquele sorriso de covinhas e usar qualquer desculpa digna de Caeris, que todas eram só risinhos pra ele de novo.

Caeris nem era bonito assim. Garoto normal, do tipo magrelo e alto, olhos castanhos claros que nem os cabelos. Mas se vestia bem, até; uns jeans legais, uns sapatos legais, umas blusas legais. E era inteligente, aquele puto. Adorava sacanear, adorava rir, adorava matar as aulas da tarde da faculdade. Participava de umas corridas de kart de vez em quando - quando a grana do emprego meio expediente sobrava -, e às vezes fumava um pouco, quando ia a shows ou quando desse vontade.

Lembro que teve um dia em que a gente combinou de jogar buraco na casa dele. Marcamos às 23h, mas eu cheguei às 20h. Ficamos sentados no telhado esperando o resto do pessoal, e ele disse que ia me ensinar a fumar. Era engraçado, mas o Caeris tava sempre me ensinando alguma coisa diferente, fosse um jogo de baralho, fosse a letra de uma música, fosse um novo livro. E naquela noite ele cismou que ia me ensinar a fumar. Bem, não deu muito certo. Ele segurou meu pulso, me ensinou a segurar o cigarro, falou um monte sobre respiração e sobre como tragar, mas naquela noite não deu. Eu não aprendi a fumar, e ele fingiu frustração dizendo que eu devia ter algum defeito de fabricação por não aprender algo tão simples. A gente riu. Ele era um retardado. Eu disse que só aprendia as coisas com ele quando ele não estava realmente disposto a me ensinar, e acho que ele concordou.

A gente ficou em silêncio. Ele parecia pensativo demais olhando o céu, mal parecia o garoto risonho que me enchia o saco sempre que dava. Daí o Caeris esticou o braço e me puxou pra perto. Daí eu fiquei lá, a cabeça apoiada no ombro dele, e o cheiro bom que ele tinha invadindo as narinas. Pensei que curtia mesmo aquele babaca infantil, pensei que era muito fácil ficar ali daquele jeito, pensei que o Caeris era um dos meus melhores amigos e que eu devia passar mais tempo com ele de vez em quando.

Naquela noite eu nem joguei buraco. Peguei no sono lá no telhado e acabei dormindo no colo do Caeris. Quando acordei já era dia, eu estava na cama dele, e ele tava deitado no chão em cima de uns colchonetes, todo jogado e enrolado entre travesseiros e lençóis. Sorri com a cena. Ele parecia mais novo ainda daquele jeito.

Acho que deu uns três dias depois daquela noite.

E de repente ele sumiu. Aquele filho da puta era meu amigo, eu contava coisas pra ele, e de repente ele sumiu. Fico pensando se catou umas roupas, colocou tudo numa mochila grande e foi embora. Penso que seria mesmo a cara dele, mas só até o momento em que eu chego à conclusão de que ele nunca iria embora sem se despedir. Nem que fosse só pra mim, nem que fosse só um bilhetinho escrito “fui”.

Não sei, pode ser pretensão minha, mas a gente era amigo pra caralho, amigo demais pra ele ir sem falar comigo. E a gente quase ficou, naquela noite.  E pensando agora, a gente devia mesmo ter ficado naquela noite, aquele era o nosso momento... Mas não adianta mais. Tem uns sete meses que o Caeris sumiu e não deu mais notícias. Os pais dele também não sabem de nada, nem o irmão mais velho. Eles ligaram pra polícia, mas o pessoal acha que não vai dar nada, como ainda não deu, e que tudo vai ficar por isso mesmo. E eu não querendo acreditar em todas as coisas que me dizem, em todas as coisas que eu imagino que pode ter acontecido.

Porra, Caeris...

Toda noite, antes de deitar, penso que talvez ele vai bater na minha janela com aquele sorriso de covinhas e aquela cabeça raspada, mas ele nunca vem.



domingo, 25 de outubro de 2009

it's amazing where i'm standing

Sempre penso que a vida é bonita, quando vou até o Arpoador.

Ontem não cheguei a ir até a pedra, como de costume, mas fiquei um pouco em Ipanema e reparei que sobre a pedra da Gávea havia um céu lindo de baunilha. Achei uma pena não estar com a câmera para registrar, mas isso só reforçou a idéia de que a vida é mesmo bonita. A despeito de todas as outras coisas, as ruins, a vida é mesmo muito bonita.




(Acho que eu poderia me perder naquela paisagem. Penso assim porque acho mesmo que poderia me perder ali, naquela paisagem. Tanto que à noite sonhei com ela. E que o mar de repente me engolia - e ainda existia um céu de baunilha, e a vida ainda era muito bonita).


da chuva

De repente ela está na minha porta, all star nos pés e vestido na altura das coxas. Ela está toda molhada de chuva, e eu sei que não é pretexto, dá pra ouvir de lá de dentro, dá pra ver da minha janela, então ela ri aquele riso de sempre e mexe a cabeça, se achando tola, se achando tonta, se achando vários outros adjetivos bobos com a letra "t", mas eu digo que "não" sem nem pensar no que estou dizendo. Eu quero convidá-la pra entrar. Eu quero convidá-la pra muitas coisas, na verdade, mas não tenho coragem, não tenho palavras nem tenho ação, e já me disseram que se continuar assim também não terei ela.

Eu me comporto como se a gente fosse só amigas, como se a gente nunca tivesse se beijado - uma, duas, três vezes -, e mando ela entrar porque tá frio, porque ela tá molhada, porque ela tem que tirar aquela roupa e pode usar as minhas. Eu fecho a porta, ela o cumprimenta ao passar pela sala, e eu penso que não a terei de qualquer forma, porque ele é um cara legal que eu conheci por acaso e que não gosta tanto das mesmas coisas que eu, mas tem um senso de humor que sempre me alegra e um perfume que me deixa meio tonta, meio boba.

Eu o conheci há pouco mais de um mês, enquanto ela andava por aí e eu não a via mais, enquanto ela acampava, mochilava, estudava, beijava outras meninas e transava com uns conhecidos e desconhecidos nossos. Eu o conheci e a gente se beijou, a gente acabou transando num lugar público numa noite bonita, e desde então ele vem aqui em casa, conhece meus pais, e tudo está bem, até que de repente ela está na minha porta, all star nos pés, vestido na altura das coxas, e toda molhada de chuva.

Eu falei dela pra ele. Uma daquelas amizades que começam do nada, uma daquelas paixões que começam desde o primeiro momento, um daqueles casos em que se fica preso mesmo depois que se acaba, mesmo depois de um mês, mesmo depois de anos, talvez, porque a amizade tem que continuar, afinal, a amizade sempre tem que continuar. Eu nunca falei dele pra ela. Nunca falei o quanto ele me fazia rir, o quanto os braços dele eram confortáveis, o quanto ele me empolgava e me fazia querer fazer planos, mesmo com tão pouco tempo de convivência, nunca falei o quanto ele parecia ter aparecido na hora certa.

Eu chego a apresentar os dois e ambos sorriem, parece até mentira, parece até piada, os dois tão bonitos na mesma cena, dizendo prazer prazer, tudo bem?, e eu ali, completamente apaixonada por ela, completamente apaixonada por ele, completamente apaixonada, só.

Eu aviso a ele que ela vai se trocar, mas ele já sabe, então aviso que eu vou fazer companhia a ela, mas ele já sabe, e eu digo que não vou demorar, e ele diz que não tem problema nenhum, que ele entende, e então eu falo tá, e a gente sai. A gente sobe as escadas para o meu quarto enquanto ela faz piadas sobre ele e diz que está feliz por mim. Pergunta há quanto tempo, eu respondo que o tempo que ela ficou fora, e ela acena cabeça, sorri, acena a cabeça de novo e diz que foi bastante acertado, enquanto tira o tênis e o vestido na minha frente, sem qualquer aviso, e depois tira o sutiã e se joga na minha cama.

De repente eu estou na minha porta, me perguntando o que ela veio fazer aqui depois desse tempo todo, sem conseguir tirar os olhos dos olhos fechados dela, sem conseguir desviar a atenção da respiração dela, do peito subindo e descendo, das pernas, da boca, dos seios, de tudo. E então ela ri aquele riso de sempre e abre os olhos, perguntando pela roupa, que eu alcanço em três, dois, um, e entrego pra ela, que diz pra eu sentar, e eu sento sem nem pensar muito no que estou fazendo. Eu quero beijá-la agora. Eu quero muito mais que beijá-la agora, na verdade, e talvez eu tenha coragem, talvez eu não precise de palavras, só de ações, porque eu não quero nem posso me arriscar a perdê-la assim.

Eu a beijo e ela deixa. Acho que ela estava esperando isso, porque ela corresponde como se esperasse, e de repente eu sinto um alívio tão grande, uma felicidade tão grande, e eu não quero parar. Eu a beijo, ela deixa, e passa de uma, duas três vezes. Eu a beijo, ela deixa, e então começa a tirar minhas roupas, nossas mãos deslizando, escorregando, tocando seios, sexos, e a lembrança um tanto culpada de que o namorado está no andar de baixo, mas é que era ela, e ele já sabia, e talvez por isso tenha dito que não teria problema algum, que ele entendia.

De repente nós duas estamos transando na minha cama enquanto ele está no meu sofá ouvindo as músicas que eu gosto, as músicas que ele gosta, as músicas que a gente descobriu por acaso e não sabe ainda se vai gostar. Ela ri aquele riso de sempre e solta um suspiro, e me faz suspirar, e de repente tudo me faz pensar que vai ficar tudo bem, mesmo que ela vá embora no final, mesmo que... muitas coisas, muitas coisas acontecendo agora e eu não sei o que vem depois.



sábado, 24 de outubro de 2009

484 - Copacabana

"Holograma de memória. Eu estava sentada aqui, exatamente aqui".

"É que dessa janela eu vou poder ver o Cristo e pensar que a gente estava lá do outro lado e que era perfeito".



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

about:blank

Tenho uma vida consideravelmente boa e estou insatisfeita com ela.





Sou chata, cuzona e não valorizo merda nenhuma? Beleza, então saca uma 9mm, mira bem no meio da minha testa, e faz isso parar.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

do sonho em sépia

"Tô melhorando, sabe. As coisas vão mudando, e eu melhorando. Eu vou esquecendo", ela diz com a cabeça baixa, queixo nos joelhos, ocupada desenhando a terra com um graveto.

"Eu só perguntei porque tu não me parece feliz".

"Sei lá, acho que o pior é isso, Gueto. É perceber todas essas coisas se desfazendo, feito castelos de areia numa ventania". Ela suspira todo o ar a volta deles "O pior, Gueto, é a percepção estranha de que eu posso viver sem isso".

"Tu preferia que fosse pra sempre?", ele questiona.

"Acho que sim. Não sei. Às vezes não...".

"Não precisa ter pressa. Vou ficar aqui a noite toda, tu sabe".

"É. Mas eu também queria explicar, dizer logo...".

"Então diz", ele sopra. Sereno.

Ela sorri.

"É que eu tenho dois medos, Gueto. Tenho medo de encontrar pessoas maravilhosas, de perdê-las, e então perceber que eu posso e consigo viver sem elas, que eu posso e consigo continuar sem elas...".

Ele espera, e o segundo vem.

"Quando esse passa, fico com medo de encontrar uma pessoa maravilhosa, de perdê-la, e então constatar que não tenho mais volta".

Ele sorri. Ele entende.

"Não precisa ser assim. Tu nunca foi dos destinos, querida. Tu sempre foi dos trajetos".

Aí ela ergue as sobrancelhas. "Ah..." Ela sorri "Enquanto todo mundo fica preso na estação, tem alguém que fica preso no trem" Ela entende.



sábado, 17 de outubro de 2009

da arte de esquecer

Ouviu da mãe meia dúzia de palavras duras e saiu de casa chorando.


Voltou quatro horas depois, trazendo abraços e flores pra ela.



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

carta de uma desconhecida

29/09/2009


Acho que é mais um daqueles momentos em que eu volto depois de sumir. Não me admira que tu tenha sentido tanto medo, eu realmente entendo. E queria dizer que não tem raiva, nem rancor, nem nenhum sentimento ruim aqui. Tem só um espaço muito grande, na verdade, algo que eu não posso mais tocar, um vazio estranho, um prédio de dezesseis andares completamente abandonado.
Mas você entendeu o porquê de eu ter ido embora daquele jeito? Havia tanta determinação tua em me tirar do teu organismo, que continuar ali já não seria mais confortável, caso eu continuasse do teu lado. Não seria minha casa, não seria meu nono andar da UERJ, não seria minha noite no Arpoador. E eu não queria que todas as coisas boas perdessem o sentido.
Não sei, mas sempre achei que tudo começou no 711. Não foi naquela noite de dezembro, mas sim antes, no ônibus, enquanto falávamos sobre comidas, política, e videogames. Alguns amigos disseram que eu teria que esquecer e superar, mas parece tudo tão entranhado, nossa amizade e o que veio depois, que separar me soa até sacrilégio, heresia. Em contrapartida, eu não poderia nem gostaria de te atrapalhar, me tornar um estorvo.
Eu fiquei sem saída. Tive duas opções, e nenhuma delas era sequer razoável pra mim. Uma delas consistia em te ver indo embora de longe, sem poder me despedir; e a outra consistia em estar ao teu lado, sim, mas arrumando todos os preparativos pra tu me deixar. Dos males eu escolhi o menos pior, que era não fazer parte disso - eu já havia saltado do prédio, não queria pensar que tinha me jogado com os pulsos já cortados. Seria como se eu quisesse ter certeza de que ia morrer, e eu não queria - nem ter certeza, nem morrer.

Eu amo você.

Em um parágrafo à parte, ainda que faça parte do todo. Pra que tu não tenha dúvidas, pra que tu possa reler, se quiser, pra que tu saiba, pra que tenha certeza - porque ainda que seja tarde demais, preciso que tu tenha consciência de que é a verdade, de que essa sou eu me mostrando de dentro pra fora. Preciso que tu tenha consciência de que tu não é só mais um cara, mas sim o cara que ouviu de mim minha declaração mais sincera, mas sim o cara que conquistou tudo, que me teve nas mãos em todos os sentidos, que teve passe livre para todos os aspectos da minha vida, ainda que não parecesse. Tu é especial, sabe. Lembre-se disso.
Acaba aqui. Comigo aparando arestas, sem esperar mais absolutamente nada. Mas tudo bem, sabe? Resolvi tocar a vida, só precisava que tu soubesse, antes de eu começar. E precisava dizer que as coisas sem você não são as mesmas, mas tudo bem. E que ainda que eu prefira evitar o contato direto e direito, eu vou sempre estar contigo de alguma forma, caso tu precise. Como se fosse uma prece, talvez. E que tudo bem.


Sobre o livro: é teu. Presente que tive vontade de dar, como agradecimento e pedido de desculpas - por absolutamente tudo. Ele me fez lembrar você, sabe - exceto pela última página, que é como se ela falasse por mim. Considere como a despedida apropriada. Dessa vez sem "nunca mais", mas ainda assim sem estimativa de tempo para um retorno.

E que o Arpoador e o nono andar da UERJ continuem sendo nossos.




C.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

wearing

"You’re in a car with a beautiful boy, and he won’t tell you that he loves you, but he loves you. And you feel like you’ve done something terrible, like robbed a liquor store, or swallowed pills, or shoveled yourself a grave in the dirt, and you’re tired. You’re in a car with a beautiful boy, and you’re trying not to tell him that you love him, and you’re trying to choke down the feeling, and you’re trembling, but he reaches over and he touches you, like a prayer for which no words exist, and you feel your heart taking root in your body, like you’ve discovered something you didn’t even have a name for".
— Richard Siken

domingo, 11 de outubro de 2009

jazz

Ao invés da marcha nupcial, o que se ouviu foi a música dos dois sendo tocada por ele no sax, e o que se viu foi ela entrando na igreja com um dos vestidos de noiva mais bonitos que já havia passado por ali, calçando um all star colorido por canetinhas. E de repente era impossível imaginar que não seriam felizes para sempre.

where the wind will blow

sete anos depois.

Casada, é? Quem é o cara que conseguiu te segurar?, ele ri. E ela explica que não é O cara, e ele ergue as sobrancelhas e entende sem que ela precise dizer mais nada. O que teus pais acharam disso?, ele quer saber. Acho que no fundo no fundo eles já esperavam, ela diz. Reagiram melhor do que imaginei, gostam dela, mas a verdade é que preferiam você. E ela abaixa os olhos e fica aquele silêncio de quem não sabe o que dizer e que quer dizer muito. E quem você preferia?, ele pergunta com um brilho nos olhos, e ela não sabe dizer se tem a ver com o que aconteceu entre eles ou se não passa de curiosidade genuína e ingênua. Se você me perguntasse naquela época, a resposta seria você, mas as coisas não são mais como antes. Acho que hoje não tem a ver com preferência... Eu quero ela e só. E ele acena a cabeça, e parece amargurado por um instante, mas ela pensa que pode ser apenas impressão - ela sempre tem muitas impressões. Você tá feliz?, ele pergunta sem olhar. E ela responde que nunca teve tanta certeza de que tudo ficaria sempre bem, e que pela primeira vez na vida estava no lugar certo. Fico feliz que você não tenha se contentado com a minha felicidade... E ela fica feliz também. Você tá diferente. Mais bonita do que aquela época... E ela diz que é porque não está mais quebrada. Ele fica sem graça, mas sorri. Não pede desculpas em momento algum, e ela fica contente com isso, pois ele não tem nada pelo que se desculpar. Ela pergunta como é que ele tá. Eu tô bem. Ainda tô com ela, e a gente vai se casar. E ela diz que vai querer ir ao casamento, cobra um convite e pergunta se ele não se importaria se... Mas é claro que ele não se importaria, pelo contrário!, gostaria muito que fosse acompanhada, porque não perderia a oportunidade de conhecer a pessoa que a fez se entregar - achava realmente admirável qualquer pessoa que provocasse esse efeito nela. Os dois ficam em silêncio por um bom tempo, até que ela sorri. E ela percebe, enquanto o observa calada, que eles dois poderiam estar na mesma situação caso tivessem dado certo, e que a vida era mesmo muito gentil consigo por ter lhe dado mais de uma oportunidade de ser tão feliz - como era.

Sim, ela sorri, e sim, ela está bem.


and so the lion fell in love with the lamb

Acabei de rever Twilight, e estava pensando que não é um filme tão ruim. Eu mudaria uma série de coisas, claro, mas eu gostei. Bastante, até. Acho que a Kirsten é uma boa Bella, e o Robert um bom Edward.

bordeaux

Essa noite fiz a Natália pintar o meu cabelo. Estou com uma testa cor de gelatina de groselha, uma calça manchada, dedos roxos, cadeira banca tingida, mas tudo muito suce. O cabelo tá só um pouco mais escuro, e se tu põe uma luz nele, fica meio roxo, meio vinho, uma cor aleatória aí que não me deixasse tão chocada ao me olhar no espelho depois, e que o presidente da empresa visse e não ficasse mais "OMG, QUE FOI QUE EU FIZ, OLHA QUEM TÁ CUIDANDO DOS MEUS CONTRATOS AGORA!" do que eu sinto, às vezes, que ele fica. E eu achei tri da Natália, no Maracanã vendo jogo do Flamengo e se empolgando com a Raça, ter dito "AH, EU PINTO \o/" com tanta vontade, mesmo sabendo que a cor tinha um nome de bordel meio antigo-novo-de-luxo-decadente: bordeaux profundo. É, é tenso, eu sei, e não consigo não associá-lo com algo sacana, hahaha. Mas agora o cabelo não é mais virgem, não vou voltar pro trabalho com a mesma cara, e 2009, ano ímpar, continua divertido e valendo a pena. Mas eu já sabia que valeria, desde o primeiro dia dele, yey!


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

com aquarelas do autor

"Acho que te falta fé, menininha. Já pensou nisso?", ele pergunta, se levantando. E eu continuo lá sentada, brincando com umas pedrinhas e encarando meus tênis. Penso que talvez ele esteja certo, pra variar. "Sei que é tenso acreditar sem ver. Ou sem viver, no caso. Mas custa muito tentar?". Ele suspira, e eu quero dizer que não tem a ver com custos, mas sim com parecer muito idiota tentando. Só que eu não falo nada, porque sei que ele acha que idiotice é eu pensar assim. Daí eu fico em silêncio. "Eu te quero tão bem, menininha, tão bem...". Ele diz, suspirando de novo, depois de se abaixar e de olhar nos meus olhos. "Mas eu preciso que você acredite, querida, só isso. Senão...", e eu não deixo ele terminar. Não quero que ele termine a frase porque sei que depois dela ele vai embora. E eu não quero que ele vá embora. E eu quero dizer "mas como eu vou acreditar se você tá indo embora?". Mas eu não digo. Eu nunca digo nada. E penso que o quadro podia ser assim pra sempre, a gente preso num abraço de um desejo concedido. Mas começa agora: eu já o sinto escorregar pelas minhas mãos...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

(...) like pictures and gather dust over the time

Estavam os dois em pé, ônibus lotado num engarrafamento de quinta-feira de chuva . Falavam sobre como o ônibus ao lado estava cheio, e sobre como Jonathan não conseguia ficar encarando ninguém por muito tempo. Camila disse que até conseguia, que fazia aquilo desde mais nova - ficar encarando estranhos e ver quem desviava primeiro -, então, é, conseguia sim, que tal competir? Competiram por um tempo antes de ficarem novamente entediados. Camila tinha um piercing no lábio, e os cadarços de seu all star tinham estrelas azuis. Jonathan era alto, tinha um voz grave, de homem, mas não parecia ter mais do que dezessete anos. Era só um garoto. Um garoto que admitiu não conseguir, "eu sempre desvio os olhos".

Camila falou sobre Rodrigo e sobre a mãe dele ter morrido, "e ele tava lá, foi à aula assim mesmo". Falou também sobre a prova fodida do César Áureo, e que ainda pegaria um terceiro ônibus pra ir pra casa. Jonathan a fez jurar que nunca mais pegariam o 711, o inferno do 711. Camila concordou. Jonathan ficou surpreso por ela não ter feito um escândalo que nem da última vez "depois de tantos anos de amizade você não vai confiar em mim? se eu tô dizendo que esse ôninus passa lá, então ele passa lá, porra! tu acha que eu vou te sacanear? a gente não se conhece de ontem!", e ele disse que ela era toda estressada. E ela disse que nem era. E eles ficaram em silêncio, ele rindo, até que ela concordou que talvez ela fosse mesmo, mas só um pouquinho. E depois ela encostou a cabeça no ombro dele e suspirou. E ficou assim por um tempo.





Ouvir a conversa deles me deixou com saudade.



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

madeira em flor

Tinha uma menina que andava com a gente, naquela época. O nome dela era Natali. Seus cabelos eram amarelos, não raro eu a via de tranças, e lembro que gostava de bubbaloos de morango e de rabiscar seu nome em folhas de caderno usando uma caligrafia desleixada. Estava em seu último ano na escola.

Natali morava na nossa rua, jogava videogame com os meninos todos os sábados, campeonatos de futebol e de Mortal Kombat, Manchester United e Sub-Zero, colecionando vitórias em lutas e competições que nem eram suas de verdade. À noite, geralmente tinha reunião com as amigas, filmes de comédia romântica e um pouco de brigadeiro e sorvete - para adoçar o paladar e deixá-lo dormente logo em seguida.

Hoje, quando penso em Natali, lembro de risos frouxos e cílios longos quase transparentes. Lembro de olhos cor de mel, mania de morder os lábios quando parecia não ter ninguém olhando, e uma face sempre, sempre corada. E era magra e pequena, e lhe faltava altura e corpo de mulher, mas era tão bonita com aquelas tranças e caras e bocas! Tinha dezesseis anos e parecia ter menos, às vezes.

Natali roía as unhas.

Durante a semana, Natali usava saias curtas e blusas semi transparentes, meias três quartos e sapatinhos de boneca. Natali parecia uma boneca. Nos finais de semana, eu a via de tênis ou havaianas, shorts desbotados e camisas de bandas, tranças feitas sem muito cuidado e sempre os sorrisos soltos. Natali parecia confortável.

Natali gostava de pirulitos de cereja e de parques de diversões, e saía para festas e raves e shows só pra variar. Natali se impressionava com coisas pequenas e gostava de coisas aleatórias - como pular na cama elástica que montavam para as crianças lá na praça. Natali ria de piadas que mais ninguém ria.

E quem visse Natali como eu via naquela época, não poderia imaginar, simplesmente não poderia imaginar...

Natali cheirava a madeira em flor, e os garotos adoravam a curva do pescoço dela, e o gosto meio doce que ficava nos lábios deles quando eles a beijavam ali, e adoravam quando ela soltava um suspiro mais logo e falava baixo em seus ouvidos, na cama, na parede, no carro, na escola, no estacionamento do shopping e onde mais Natali achasse divertido fazer coisas que não deveria fazer.

Natali era a mais nova entre a gente, seus dezesseis anos de tranças e bubbaloos de morango ficavam espalhados entre os hormônios dos rapazes de dezoito, e as vontades dos caras acima de trinta.

Natali tinha nove anos quando o padrastro dela começou a se aproveitar. E ninguém, ninguém poderia imaginar. Eu mesma não imaginei; aposto que você também não.

Pensando agora, talvez tenha sido por isso que Natali foi o que foi o tempo todo, desde as tranças de cabelo até seus suspiros de corredor. Ou talvez Natali fosse apenas Natali, desde o início, e estivesse acima de tudo isso. Eu não sei. Não dá pra saber uma coisa dessas.

Mas não importa mais.

Naquela época, Natali terminou a escola e fugiu de casa. Nunca voltou.


domingo, 4 de outubro de 2009

the favourite blues

Não foi algo que decidi conscientemente, mas com o tempo acabei percebendo que aqui sempre teria um espaço pra falar dela, sobre ela, e para ela - o que não significa que ela tenha uma importância maior do que as outras pessoas importantes na minha vida, ou que eu a ame mais do que eu amo outras pessoas na minha vida. Não, não é nada disso... Acho que tem a ver com escrever. Escrever, interpretar, e fazer uma da outra personagem, narradora, revisora, editora. Tem a ver com ficar mostrando os rascunhos de si mesma uma pra outra, perguntando "tá bom? tá bom?" - e os rascunhos dela mesma estão sempre muito bons -, e depois, à noite, ficar satisfeitas com as duas (ou três) almas que ficaram passeando durante o dia. Tem a ver com isso. E mesmo que não aconteça sempre, essa troca de rascunhos, tá tudo bem. Tá tudo bem, porque rola uma confiança engraçada de que mesmo que a gente não se mostre, as coisas serão entendidas, eventualmente.

Ela não vai sair daqui tão cedo. Ela continua me apresentando rascunhos maravilhosos da obra que ela quer se tornar - e eu sei que vai, tá no caminho. Ela tá de aniversário de dezoito, e agora vai poder conferir aquele hotel em Novo Hamburgo que tem piano de cauda, pra depois me contar se é tão tri quanto falaram. Ela é meu blues favorito, e pra ela eu desejo felicidades de oito deitado. Só isso. ♥

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

o mundo de sofia

Data: 01-Oct-2009 17:06:50 ZW3
De: Sofia Ventura [und3rmyskin@gmail.com];
Para: Igor Machado [thekiller9810@hotmail.com];
Assunto: all the right reasons


Talvez eu esteja um tanto carente, não sei. Ou talvez eu seja mesmo é muito louca, uma espécie de puta enrustida, sem muitos escrúpulos, sem muita consciência, sem muito pudor ou vergonha na cara. Talvez não haja um bom motivo para eu ser assim, era nisso que eu estava pensando quando topei trepar com aquele piázinho de quinze anos, idade do meu irmão, e eu com vinte. O rostinho dele ainda de criança, não sei no que estava pensando, talvez eu seja só uma completa doente mental, a voz dele ainda mudando, toda instável, mas o pau dele tava duro, e ele me dando mole, tão fácil, tão fácil que eu não resisti e dei igual, dei de verdade, e foi engraçado porque ele não era tão criança assim, ele sabia um bocado, afinal, e o que não sabia eu ajudei a saber.




Cara... Acho que sou mesmo muito louca, essa espécie de puta enrustida que não tem limites.


epifania

Há momentos em que tenho a forte sensação de que vai ficar tudo bem.

... tipo agora.