domingo, 20 de setembro de 2009

playing card

Resolvemos jogar baralho, essa noite. Nós quatro. E ele me olhava como se me pedisse desculpas, mas eu não sabia se era pelo jogo ou se por todo o resto - tive vontade de dizer que ele não precisava daquilo, que se fosse pelo resto então eu já entendia, mas daí notei que ela me olhava com tanta raiva contida, e me perguntei se o olhar dele também não teria a ver com ela.

O parceiro de jogo dela era meu amigo, mas era novo nisso. A parceira de jogo dele era sua amiga, era eu, e eu já estava cansada de vê-lo entregando tudo pelos outros dois... Então pensei em desistir, em levantar da mesa, ir embora, e deixá-los pra trás. Mas a verdade é que eu não podia simplesmente sair, não quando - apesar do olhar dele, e da sensação de que ele acabaria fazendo merda - eu me via com uma mão tão boa pra continuar jogando... Quem sabe a gente não levaria aquela? Mas daí veio o soco. Podia não ser só por ela, podia não ser pelo olhar de raiva - que ele também percebeu -, podia ser por outra coisa.

Para o meu desespero, podia ser porque ele queria perder. E se ele realmente quisesse perder, o que me sobrava, então? Olhei para o amigo, a dupla dela no jogo, e ele parecia preocupado. Ele sussurou um pedido de desculpas e baixou a mão. Ela baixou a mão também. Olhei pra ele meio que sem vontade de olhar, e não esperei pra mostrar meu jogo depois dele. Mostrei antes. E antes, também, de ouvir a confirmação do resultado, saí da mesa sem olhar pra trás.

Ele entregou o jogo, e não foi só por por causa dela.

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