terça-feira, 22 de setembro de 2009

grafite

Foi por acaso. Conheci Marina nas Lojas Americanas do Tijuca, enquanto com dedos leves afanava uns doces, e os fazia escorregar para o meu bolso, assim, quase que acidentalmente. Marina me flagrou com o twix já próximo da mochila, quando avisou que não contaria pra ninguém, caso eu dividisse com ela. Ela sorriu logo em seguida, e logo em seguida eu quis ser sua amiga.

Marina gostava de uns rocks antigos, tinha um piercing que atravessava a orelha, usava uns lápis de olho muito fortes, e estava sempre com uns all star de cano longo. Foi naquele dia, reparando seu tênis desbotado, que decidi escrever all stars em minhas histórias, homenageando Marina sempre que possível. Lembro dela ter dito, naquela ocasião, que não tinha planos de fazer faculdade, embora gostasse muito de exatas e estudasse na escola técnica de química. Dizia que achava faculdade uma perda tempo, embora nunca tenha mencionado o que faria com seu tempo livre.

Marina tinha a pele cor de caramelo e uns olhos pequenos de cor castanha. Quando não estava de all star, estava de coturnos pretos, umas calças largas, ou saias curtas, e blusas justas. Não raro a via de meia calça. Às vezes usava uns spikes nos pulsos, umas correntinhas de prata no pescoço, e uns brincos sempre muito pequenos, de pedrinhas brilhantes, ou então pequenas argolas. Fazia uns penteados diferentes, quase sempre, e nunca se cansava de falar, ou rir, e queria aprender a andar de skate com os meninos.

Marina tinha manias, Marina tinha vontades, Marina tinha histórias. Marina vivia como se fossem mil pessoas sob uma pele, e nunca soube de onde tirou tanta energia e paciência pra ser tanta gente em uma só. Marina desenhava, tirava um som de uma guitarra, apostava corridas de bicicleta, e pixava muros de casas de burgueses feito ela. De fato, não era tão incomum encontrar seu nome marcado nas paredes de prédios, escolas, casas, e demais estabelecimentos, da Tijuca, Grajaú e adjacências, sempre acompanhado da caricatura de uma menina abraçada aos joelhos com um sorriso meio jogado, meio boêmio. Tudo obra de Marina, a menina que conheci enquanto afanava uns doces das Lojas Americanas do Tijuca.

No dia em que a conheci, não fazia a menor idéia do que ela se tornaria, ou do quanto ela se tornaria na minha vida. Lembro de querer me tornar sua amiga. E me tornei, não muito tempo depois. Lembro de ter sido a primeira garota pela qual tive alguma atração, ainda que nunca tenhamos ido além da relação fraterna. E talvez por isso tudo, talvez por isso tudo tenha me doído tanto ver de novo uma pixação de Marina, depois de quatro anos, depois que Marina morreu. E talvez nem fosse dela, talvez nem fosse dela de verdade, mas... Foi por acaso que eu vi.

Um comentário:

Fernanda disse...

Porra, doeu fundo. Mas foi bonito, sei lá. Acho que eu também ficaria fascinada por alguém assim.